TRANSNACIONALIZAÇÃO DO CAPITAL E FRAGMENTAÇÃO DOS TRABALHADORES

Ainda Há Lugar para os Sindicatos?

por

João Bernardo

ÍNDICE

Prefácio

I             Estado Restrito, Estado Amplo e corporativismo

II           Integração económica mundial e ilusões nacionalistas

III          Internacionalização dos capitalistas e fragmentação dos trabalhadores

IV          Desemprego ou crescimento do proletariado?

V           Desemprego ou reorganização do proletariado?

Adendas

1            Crise do socialismo no mundo

2            Dois textos de Louis-Eugène Varlin

PREFÁCIO

Este livro baseia-se em algumas anotações para os cursos, seminários e palestras que tenho dado nos últimos anos no meio sindical da CUT. Pretendi deliberadamente conservar-lhe um certo tom do discurso, que é aqui o diálogo com o leitor, e apresentar os temas em linguagem tanto quanto possível simples e dispensando a erudição de rodapé, que seria deslocada num texto deste tipo. Mas a singeleza do estilo não prejudica a exactidão nem o rigor do raciocínio.

É hoje moda no Brasil fazer apelos ao coração e dar a primazia à ética. Parece que nenhuma palestra pode terminar, por vezes não pode mesmo começar, sem invocar os sentimentos da assistência, e raramente se encontra seminário ou congresso que não inclua a ética entre os temas abordados com destaque. Para evitar desilusões, previno desde já que nem uma coisa nem a outra se encontrará neste livro, como aliás em nenhum que eu tenha escrito ou venha a escrever. O convite aos sentimentos, por oposição ao intelecto, é uma forma de estimular o irracionalismo, e o mundo conheceu já, nas décadas de 1920 e de 1930, o carácter político do irracionalismo e os seus resultados, quando os fascismos tomavam também o apelo ao coração e aos sentimentos como base da sua ideologia e da sua prática de mobilização das massas. Quanto à ética, abstracta e com e maiúsculo, ela é o que jamais deixou de ser, a pior das hipocrisias. O cínico tem ao menos a desculpa de saber o que faz. O ético nem isso, já que a moral geral e universal serve para encobrir os resultados das acções não tanto aos olhos alheios, mas sobretudo aos próprios que as praticam.

O que nós precisamos, e hoje mais do que nunca, perante tantos desafios novos, é a lucidez de um frio raciocínio. Precisamos de deitar fora, sem compaixão nem apegos sentimentais, tudo o que, herdado do passado ou justificado por hábitos arreigados, se revele prejudicial ou apenas inútil. Precisamos de traçar com rigor a linha que divide os interesses dos trabalhadores e os interesses dos capitalistas, e esta é uma tarefa tanto mais difícil quando não se trata de uma demarcação regular e estável, mas, pelo contrário, de uma linha sinuosa e oscilante, reconstruída em cada momento. Os apelos ao coração e à ética só confundem onde seria necessário esclarecer. A administração de uma empresa pode, evidentemente, patrocinar a arte e as boas causas, aplicar os princípios da nutrição racional no refeitório dos trabalhadores, por exemplo, e dirigir discursos humanistas aos seus assalariados, assim como pode não praticar a corrupção e não recorrer a fraudes. Mas este uso dos sentimentos e este procedimento ético em nada alteram os mecanismos fundamentais da exploração. Do mesmo modo, os dirigentes sindicais podem manter os trabalhadores regularmente informados de uma boa parte das decisões tomadas nas reuniões de direcção e podem não levar no bolso o dinheiro da tesouraria, mas não é por isso que se altera a estrutura burocrática dos sindicatos e que o seu funcionamento deixa de ser autoritário e centralizado.

As maiores dificuldades que têm surgido à luta anticapitalista ao longo de dois séculos provêm do facto de ela se defrontar com dois tipos de inimigos, um que lhe aparece no exterior e o outro que é gerado no seu próprio seio. Todos os fracassos do movimento operário, sem excepção, resultam de não ter sido capaz de agir conjuntamente em ambos os campos e de ter repetidamente permitido que as burocracias geradas no seu interior se convertessem numa verdadeira classe exploradora. À medida que foi liquidando os capitalistas já existentes, o movimento operário produziu novos capitalistas, que ocuparam o lugar dos anteriores, revigorando-se afinal a estrutura do capitalismo, enquanto sistema de exploração. Hoje, quando tudo parece recomeçar, não partimos do zero, mas de uma enorme experiência acumulada, que permite esclarecer muitas questões. Permite-o, mas com duas condições.

Com a condição de não nos embalarmos com os sentimentos, que são os grandes promotores dos lugares-comuns e, portanto, os grandes inimigos de um pensamento aberto à novidade. E com a condição de pormos de lado a ética, porque todas as normas gerais e universais servem apenas para confundir as clivagens e os antagonismos irredutíveis em que a sociedade se fracciona. Só os raciocínios estritamente frios são implacáveis, e só eles podem desvendar a dialéctica social do capitalismo, que consiste na possibilidade de reforçar os mecanismos da exploração com elementos gerados no interior do próprio processo de luta contra a exploração.