Contra todas as pátrias

by Velha Toupeira

Hoje em dia, o conceito de pátria, é aceite e respeitado por todos, desde a extrema-direita à extrema esquerda da burguesia; desde a pequeno-burguesia ao proletariado, desarmado por sessenta anos de contra-revolução. Britânicos e Irlandeses, Húngaros e Romenos, Sérvios e Albaneses, matam-se uns aos outros pela pátria; isto na democrática e “civilizada” Europa. Na terra dos Arménios e Azeris, foi por amor à pátria que mulheres grávidas foram esventradas e os fetos foram arrancados de suas barrigas dilaceradas. O já mencionado amor à pátria, é vomitado pelos padres de todas as religiões: mesmo Sua Santidade, João Paulo II, enquanto ruminava a hipocrisia do concílio Vaticano II, reafirmou várias vezes que existe uma tal coisa como uma guerra justa: aquela que se faz em defesa da pátria. Seria cómico se não fosse trágico, verificar que desta maneira, ele legitimou todos os exércitos que dilaceraram a “sua” Polónia: de facto, quem pode negar que os soldados alemães, nas duas Guerras Mundiais imperialistas deste século, apenas foram movidos pelo seu amor à pátria alemã, ou que os soldados do Czar ou de Estaline apenas foram movidos pelo seu amor à pátria russa? Naturalmente, outra coisa não seria de esperar de quem sempre abençoou todos os exércitos e todas as guerras, excepto uma: a guerra de classes.

Se aqueles que se chamam a si mesmos Cristãos, quisessem ser no mínimo, coerentes com os seus próprios princípios, poderiam apenas alinhar connosco para expulsar os mercadores capitalistas do templo da espécie humana. Foi Jesus e não Marx, quem disse que não podemos servir dois Mestres – Deus e o Dinheiro – simultaneamente . Como materialistas, podemos substituir o termo “Deus” pela  expressão: “a espécie humana”; e assim, não temos problemas em aprovar a frase por inteiro. Aqueles “Cristãos” que aceitam este sistema baseado na exploração do homem pelo homem, e na adoração do deus Dinheiro, são herdeiros legítimos dos Fariseus. Por outro lado, nós comunistas, com nossa visão materialista do mundo, podemos considerar-nos com razão, a razão dialéctica, como os herdeiros do Cristianismo original: se não fosse por mais nada, seria pelas nossas posições em defesa dos oprimidos.

Actualmente, somente a alta burguesia tem uma visão verdadeiramente internacional. Faz uso do patriotismo para manter o eterno homem de confiança, a pequena-burguesia, no seu posto, e para manter o eterno inimigo, o proletariado, a ferros; mas logo que os seus interesses e lucros estão em jogo, é com prontidão que faz gato-sapato da bem amada pátria. A História está recheada de exemplos deste tipo.

A Comuna de Paris de 1871, que não se vergou na presença do Exército Alemão – este último tinha já posto de joelhos o Império Francês de Napoleão III – foi destruída pelo exército da República Francesa, a expressão da burguesia nacional. Esta burguesia, ao ser posta diante do perigo dum poder proletário, manifestado pela primeira vez, por um lado, falou em lutar até à última gota de sangue (sangue proletário, naturalmente) pela defesa da pátria; por outro, aceitou render-se ao Império Alemão, para poder ter mão livre sobre o único inimigo da burguesia: o proletariado. Da Alemanha, o governo francês obteve a libertação de milhares dos seus soldados, que tinham sido feitos prisioneiros, que puderam assim ser empregues no massacre dos insurrectos da Comuna. Testemunhas e participantes desses acontecimentos, relatam como os soldados alemães estacionados nas redondezas de Paris, permitiam por vezes que refugiados do massacre, atravessassem as suas linhas. Isto, por respeito às qualidades combativas e pela coragem que esses refugiados mostraram: uma clara indicação de como, para o proletariado, não há inimigo mais impiedoso do que a sua própria burguesia e o seu instrumento de classe, o Estado.

A burguesia francesa e o seu Estado, representaram mais tarde, de novo, este guião , nas duas Guerras Mundiais, quando o estado francês sucumbiu perante o poder militar do imperialismo alemão. Contudo, a brusquidão dessa queda não de deveu apenas a questões de natureza militar, mas também ao facto, de que um exército e um Estado tão enfraquecidos e desacreditados, não estariam à altura de cumprir a sua função repressiva em relação ao proletariado interno. Por esta razão, a patriótica burguesia francesa estava prontamente desejosa de se render à Alemanha pela enésima vez, para ter à sua disposição uma força militar de ocupação, para levar a cabo essa tarefa repressiva essencial, que de outra maneira faltaria. Não por acaso na Segunda Guerra, o governo colaboracionista de Vichy herdou todo o exército e administração do Estado Francês. Não foram só os fascistas que colaboraram com os alemães, mas também a totalidade do Estado Francês, o qual subcontratou o Estado Alemão para exercer a repressão sobre os seus próprios proletários.

Na Itália, os  patrióticos fascistas acabaram vendendo  ” a pátria sagrada” à Alemanha, enquanto os antifascistas não menos patrióticos, dividiam-se entre os que a queriam vender à Rússia e os que a queriam vender à América.

Durante a guerra entre a Grã-Bretanha e a Argentina, há alguns anos atrás, os comerciantes de armas britânicos não interromperam os seus negócios com a Argentina. Por outro lado, as guerrilhas sul-americanas puseram-se imediatamente do lado dos seus próprios torsionários, em nome da defesa da pátria.

As alianças patrióticas – e portanto interclassistas – são obviamente, alianças entre os enforcados e o carrasco, e apenas a alta burguesia toma a pátria pelo que ela é realmente: isto é, uma vaca que deve ser altamente valorizada porque dá muito leite (leia-se lucro e paz social); mas a qual, no caso extremo de deixar de trazer benefícios, pode sempre ser vendida, aos bocados ou inteira.

Assim, a guerra Irão-Iraque foi concluída com a vitória de ambas as burguesias e os respectivos Estados, os quais foram reforçados graças à “unidade patriótica” e à destruição da força de trabalho excedentária, que ameaçava a paz social. Os derrotados são os proletários de ambos os países, ou massacrados na guerra, ou então sujeitos a um jugo ainda mais pesado do que o suportado anteriormente.

No que diz respeito à “pátria negada” aos palestinianos, tem que se dizer que Israel não aceita a ideia de um Estado Palestiniano, porque percebe que a burguesia palestiniana, representada pela OLP, é demasiado fraca para reprimir com eficácia o faminto e numeroso proletariado palestiniano. Logo, o Estado Israelita toma para si essa função.

A burguesia insiste em dizer que estamos todos no mesmo barco; esquecem-se de dizer que são eles que fazem estalar o chicote – enquanto os proletários estão presos por cadeias aos remos, seus destinos selados quer o barco se afunde ou não, tendo como  única esperança de salvação, o motim. Por detrás de todos os ódios nacionais, étnicos e religiosos, há na realidade, conflitos de classe, os quais a burguesia canaliza para guerras entre nações para evitar a única guerra pela qual tem horror: a guerra entre classes. A partir do momento em que a dominação de classe fica em perigo, a burguesia põe de lado toda a tagarelice patriótica e une-se no seu todo contra o proletariado.

Tendo consciência de que todas as pátrias são nossas inimigas mortais, a nós comunistas, só nos resta repetir:

” Proletários de todo o mundo, uni-vos!”

(Traduzido de «Communist Left», No. 3, July-December 1990 , estando o original publicado em «il partito comunista» n.183, maggio 1990)

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