IV. PARA ALÉM DO TRABALHO

by Velha Toupeira

O capitalismo revolucionou sem cessar os meios de produção, mas foi incapaz de libertar e de transformar verdadeiramente a actividade produtiva. O trabalho industrial significa a mais extrema das alienações. O proletário de fato de macaco ou de camisa branca vê-se preso à sua máquina ou à organização do trabalho. Perdeu a liberdade de apreciação e a margem de manobra que restavam ao artesão e mesmo ao servo e ao escravo. O carácter impessoal desta dominação não a torna mais suportável.

O trabalho desligou-se do resto da vida. Domina esta pela fadiga, pelo embrutecimento que engendra e pelo salário que procura.

Com o controle do capital moderno sobre o conjunto da vida social toda a existência acaba por se reger pelos princípios do trabalho. A lógica do rendimento e da produção governa o tempo “livre”. Tudo deve ser racionalizado e rentabilizado, incluindo o prazer e o desperdício! Todos são cordialmente convidados a ocupar o lugar do sistema e a funcionarem como ele.

O comunismo significa, antes de mais, uma transformação radical da actividade humana. De facto, podemos falar em abolição do trabalho.

TRABALHO E TORTURA

Se há palavra que não é neutra é a palavra trabalho.

Em francês e em espanhol (e em português NdT) tem por origem a palavra latina “tripalium” que designava um instrumento de tortura que sucedeu à cruz. Antes de tomar o seu significado moderno designava, ao princípio, trabalhos particularmente penosos e depois o trabalho nas minas. Hoje, o significado de “trabalho” alargou-se consideravelmente apesar de as suas fronteiras continuarem fluidas. Como para lhe fornecer uma justificação natural, o trabalho acaba por dar conta de fenómenos físicos.

Em inglês a palavra tem origem numa actividade camponesa concreta. O que caracteriza o termo trabalho é precisamente o seu carácter abstracto. Já não designa mais esta ou aquela actividade particular mas sim a actividade e o esforço em si. Já não se plantam couves, já não se tecem tecidos, já não se guardam carneiros, trabalha-se! Qualquer trabalho equivale a outro. O que conta é o tempo que se gasta e o salário que se ganha. Como dizia Marx: “O tempo é tudo, o homem já não é nada: é, quando muito, a carcaça do tempo”.

Nós não temos nada contra a palavra trabalho, mas sim contra a odiosa realidade que esta designa. Pouco importa que o termo continue ou não a ser usado. Se continuar a ser usado deverá mudar radicalmente de sentido. Talvez venha, um dia, a designar o auge do prazer!

Na sociedade comunista a actividade produtiva perderá o seu carácter estritamente produtivo. Desaparecerá a obsessão com o rendimento e com o tempo perdido. O trabalho basear-se-á no conjunto de uma vida transformada.

Uma tal alteração significa o fim da hierarquia, da divisão entre dirigentes e dirigidos, da cisão entre decisão e execução, da oposição entre trabalho manual e intelectual. O homem não será mais dominado pelos produtos da sua actividade nem pelas suas ferramentas. A submissão da natureza ao processo produtivo, e o seu açambarcamento pelos grupos ou pelos indivíduos, desaparecerá.

Esta revolução será acompanhada por uma mutação tecnológica. É a própria natureza do desenvolvimento industrial que está em questão.

O carácter parasitário do capitalismo traduz-se no facto de se poder assegurar a vida social, fechando uma grande parte das empresas. Uma prova dos recursos de um país desenvolvido foi dada pela greve de Maio de 68, em França. Toda a indústria pôde paralisar durante um mês sem que as consequências tenham sido notórias.

Talvez nos falte o pão no período revolucionário. Mas isto não pode ser atribuído a nenhuma fraqueza da capacidade de produção. Seria a consequência de causas particulares. O que não diminui em nada a possibilidade de fechar industrias parasitárias. Pelo contrário, torná-lo-á mais necessário a fim de poder reconverter forças e dirigi-las para os sectores vitais.

Não podemos decidir antecipadamente nem ao pormenor, aquilo que será ou não eliminado. Estamos convencidos do papel nojento da indústria da guerra. Esta não mais terá razão de ser numa sociedade comunista desenvolvida. No entanto, não sabemos se numa fase transitória esta não terá de ser desenvolvida!

De qualquer maneira, as decisões não serão mais tomadas por comités de tecnocratas, mas sim directamente pelos trabalhadores em questão. A ameaça de uma perda de salário não terá mais nenhuma influência na sua decisão!

Se algumas pessoas, por corporativismo ou por razões menos confessáveis, se prendem a tarefas inúteis ou mesmo nocivas, serão responsáveis perante o conjunto do proletariado comunista. O direito de propriedade, ou de livre determinação, já não será nenhuma desculpa para os polícias nem para os trabalhadores das finanças que querem ver perpetuada a rotina do seu pequeno trabalho habitual!

Tudo o que serve as finanças e a máquina do estado será eliminado ou sofrerá alterações profundas, bem como tudo o que exige esforços peníveis e importantes para satisfazer necessidades secundárias. Alguns produtos ou “serviços” como o telefone e a energia eléctrica, que hoje são usados por empresas – (aqui teríamos que pensar em exemplos mais ousados NdT) poderão ser em grande parte reorientados directamente para o consumo individual. As construções e as máquinas terão utilidades diferentes.

Inúmeras necessidades poderão ser satisfeitas com despesas sociais bem menores. O transporte, por exemplo, será baseado numa utilização mais racional dos veículos individuais ou colectivos. Os imperativos horários serão muito mais flexíveis e as necessidades de deslocação serão menos frequentes.

Certas actividades não vão desaparecer, sofrerão, sim, transformações profundas. A educação estará, tanto quanto possível, fora da mão de especialistas. A imprensa deixará de estar na mão das grandes publicações diárias para passar para as mãos de inúmeros pequenos boletins.

O princípio não será mais produzir por produzir, nem lutar para conservar clientes, mas sim de reduzir na medida do possível os trabalhos industriais peníveis e desinteressantes. O fecho de sectores inúteis permitirá aliviar e variar as tarefas produtivas que ainda sejam necessárias. Forças sociais libertas poderão ocupar-se de actividades novas.

As crianças, os estudantes, as pessoas idosas, as donas de casa poderão participar, de acordo com a sua capacidade, em actividades sociais, sem serem uma mão-de-obra concorrente no mercado de trabalho.

Estas transformações não são nenhum luxo que a revolução se permitiria para atrair a ela os hesitantes. São imediatamente necessárias para combater e para concentrar as forças contra o partido do capital que se arrisca a permanecer vivaz durante um certo tempo.

CIÊNCIA E AUTOMAÇÃO

Todas estas medidas apenas nos dão uma vaga ideia daquilo que se seguirá. O comunismo utilizará a base material legada pelo velho mundo. Desenvolverá, sobretudo, experiências técnicas e científicas. E fá-lo-á mais depressa e melhor do que o capital.

É de bom tom que fiquemos extasiados perante os progressos técnicos efectuados após a segunda guerra mundial. De facto, teríamos muito mais razões para ficarmos admirados com a lentidão com que as descobertas científicas penetram na indústria. Esta não se caracteriza pela sua inércia mas progride quando há acidentes históricos que a obrigam a alterar os seus abastecimentos e os seus escoamentos, modifica a sua base técnica quando as taxas de juro se afundam para sair do marasmo económico.

A indústria actual vive do aperfeiçoamento de invenções e de descobertas que datam de há muitas dezenas de anos. Por exemplo, veículos com motor de explosão usando como fonte de energia derivados do petróleo, como as nossas viaturas de vanguarda, são verdadeiros fósseis, em relação às possibilidades científicas. A indústria não conseguiu desenvolver verdadeiramente nem a automação nem novas fontes de energia. Só o pode fazer se isso se tornar rentável, sob o seu limitado ponto de vista.

O comunismo poder-se-á permitir a construção de máquinas ou de complexos industriais que não seriam rentáveis do ponto de vista de uma empresa nem mesmo do ponto de vista de um estado capitalista. Pode estimar que os progressos realizados podem valer a pena independentemente dos proveitos imediatos. Ainda que possa, muitas vezes, descobrir esses proveitos imediatos nos sítios onde o capitalismo não os vê: qualidade acrescida dos produtos, interesse na pesquisa, melhoria das condições de trabalho.

Do ponto de vista do capitalismo, não é rentável fabricar um martelo-pneumático silencioso já que o preço deste aparelho nunca poderá ser igual nem inferior ao preço de um martelo-pneumático barulhento. Pouco importa que essa economia de custos tenha consequências desagradáveis evidentes. Uma vez a sua produção desenvolvida, que o martelo-pneumático silencioso possa ficar menos caro do que o que faz barulho não pode entrar em linha de conta na altura do seu lançamento. Porque haveria uma empresa de correr o risco de falir ou de fazer sacrifícios em nome do progresso técnico ou por humanismo? O comunismo não se contentará em substituir o capitalismo, transformará, também, a ciência e a técnica. De servas conscientes ou inconscientes do inferno industrial, tornar-se-ão ferramentas de libertação.

A ciência não mais será um sector distinto da produção.

O capital tem uma necessidade vital de inovação. Não a pode fazer aparecer directamente do sector produtivo. Este deve permanecer calmo, longe das veleidades da imaginação. A ciência, desenvolveu-se paralelamente a este sector. Durante muito tempo permaneceu marginal, uma obra de amadores. O capital, que tinha uma necessidade cada vez maior dos seus serviços, tomou conta dela. Sob a égide do estado e das empresas, a ciência transforma-se num investimento. Burocratiza-se, passa para o jugo dos directores de investigação e dos administradores. A liberdade de criação é conduzida pela trela.

Aos olhos da opinião pública, a ciência é uma fada boa ou má. O sábio é um feiticeiro que se tornou assalariado. Aquilo que é resultado do espírito crítico aparece como uma obra de magia.

A ideologia da produção reconquista aquilo que tinha concedido à experimentação. A ciência aparece como o sector no qual produzimos uma mercadoria especial: o Saber. O conhecimento deixa de ser o resultado precário de uma dada pesquisa para se transformar num produto sacralizado, oferecido à contemplação de uma massa de doentes mentais.

Trata-se de libertar a iniciativa e a experimentação para os restituir a todos. A ciência deve deixar de estar na mão de uma casta de especialistas para voltar a ser o gosto pelo risco e pelo jogo, o prazer da descoberta.

A “conquista” do espaço ilustrou as possibilidades da automação e da electrónica. Trata-se de aplicar toda essa tecnologia à transformação da nossa vida quotidiana. A automação permite aliviar os seres humanos de ocupações fastidiosas e de confiar às máquinas aquilo que tem mais a ver com elas.

Os primeiros passos dos sistemas automáticos que, uma vez postos em prática funcionam e regulam-se sem intervenção, remontam ao tempo dos faraós. Serviam para a regulação do Nilo. Com os tempos modernos começamos a vê-los despontar, começamos a ver “fábricas” automáticas. Tal como aquele moinho perto de Filadélfia que em 1784 recebia o trigo e o transformava em farinha sem intervenção manual. Paralelamente às máquinas automáticas de produção desenvolveram-se máquinas de calcular. Em 1881 apareceu o telefone automático.

O automatismo existe há muito tempo. Não passa de uma forma extrema do maquinismo. A electrónica vai permitir a sua transformação numa forma corrente, se não na forma mais habitual, de maquinismo.

A electrónica associada ao controle de forças importantes de energia permite agir à distância e centralizar um grande número de operações.

A automação não significa apenas a possibilidade de confiar às máquinas tarefas que o homem apenas realiza com má vontade. É também, e talvez sobretudo, a possibilidade de levar a cabo o que de outra forma não seria possível. Permite efectuar operações que exigem reacções mais rápidas, cálculos mais complexos do que os que são possíveis aos seres humanos. As máquinas podem agir em condições impróprias à vida. Sem a automação, o desenvolvimento da energia nuclear, ou a descoberta do espaço, seriam empresas impossíveis.

Aqueles que querem fazer a revolução, mas que não querem apelar a uma ciência nem a uma tecnologia maldita, encontram-se num impasse. A destruição massiva do nosso meio ambiente não é, certamente, independente das possibilidades técnicas mas não podermos deitar a responsabilidade sobre elas.

A energia nuclear ou a informática podem apresentar um carácter muito perigoso. Isto é um reflexo do seu poder. Mas isso apenas condena a sociedade presente que as utiliza irreflectidamente ou que se serve delas para reforçar o seu controle sobre as pessoas.

Até hoje, o capital apenas automatizou nos pormenores. O que não quer dizer que vá parar por aí. A sua lógica, a sua necessidade de manter ou de voltar a obter uma taxa de lucro conveniente, deve obrigá-lo a ir mais longe. Isto não quer dizer que a generalização da automação seja compatível com a manutenção do sistema actual. O seu princípio de base é contrário à sobrevivência de uma sociedade de classes: torna o proletário inútil. “A máquina automática… representa o equivalente económico preciso do trabalho de escravo”. (N. Wiener). O ponto extremo do desenvolvimento do maquinismo torna as máquinas humanas inúteis.

A solução é, assim, uma revolução comunista ou a destruição do proletariado que se verá reduzido a uma classe de assistidos ou serão eliminados. Os profetas do infortúnio anunciam-nos a segunda eventualidade. O nosso optimismo não se baseia no humanismo dos nossos dirigentes: a história mostrou que o genocídio nunca os assustou. Achamos que eles são, simplesmente, incapazes de dominar a situação e de conduzir a sério uma política. Para o melhor e para o pior, não somos governados por super-homens com visões poderosas mas por cretinos hábeis na manipulação mas incapazes de alcançarem uma visão histórica dos acontecimentos. Eles mesmos, são em parte, rejeitados do processo produtivo. O que é preciso é que o proletariado não se mostre demasiado débil.

A força dos proletários é imensa. A consciência que eles têm dessa força é extremamente reduzida. A classe operária sempre tirou o seu poder do lugar que ocupa no aparelho produtivo. Os inícios de automatização desse aparelho não mais fizeram do que reforçar esse poder. Pequenas fracções de operários e de técnicos detêm, entre as suas mãos, um poder enorme. Alguns sobressaltos económicos arriscam-se a dar-lhes o gosto de o usar.

A burguesia ou a burocracia não podem negar o proletariado sem se negarem a elas próprias. Estão presas ao valor, isto é, ao trabalho humano que é o fundamento desse valor. Não querem o progresso pelo progresso mas pelo dinheiro. Se desenvolvem o maquinismo não é com a segunda intenção de se desembaraçar de operários demasiado turbulentos. O proletariado não é um simples instrumento da burguesia. É também, a razão de ser desta. O capital (ou o trabalho) rebaixa o homem à categoria de máquina… só que isto não pode deixar de ser uma relação social entre classes.

SOCIEDADE DE CLASSES E ROBOTIZAÇÃO

Toda a sociedade de classes tende a transformar o ser humano num robô, a reduzi-lo a um objecto cujo corpo e a inteligência são bons para usar. Uma vez que uma parte da sociedade já não trabalha para si própria mas mata-se para alimentar outra fracção da sociedade, isto significa que deverá fazer esforços suplementares mas sobretudo que natureza da sua actividade muda. O que interessa aos professores não é o prazer nem o desprazer, a alegria ou a pena do escravo é a sua produção. A sociedade de classes funda-se sobre a possibilidade humana de elaborar os bens que se podem desligar do produtor para serem utilizados por outras pessoas. O ser humano já não é um ser humano mas é um instrumento. A capacidade propriamente humana de construir ferramentas úteis e de pensar antecipadamente a produção volta-se contra ele para o transformar numa ferramenta!

Em relação ao explorado, o explorador pode mostrar-se bom ou mau. Todos os sentimentos são possíveis. Ou melhor, os sentimentos são necessários para lubrificar as engrenagens do sistema. Mas são um produto secundário ou limitado deste. O explorador pode ser bom mas não pode cessar de explorar. Pode ser sádico mas não pode destruir o seu material humano. Na altura em que o capitalismo atinge, no entanto, esse ponto de barbárie é porque é empurrado pela necessidade económica.

As classes dirigentes do passado dominavam sobre pessoas que formavam colectividades camponesas. O capital destruiu essas comunidades para subjugar uma matéria humana mutilada e atomizada. Mercadoria entre as mercadorias, o proletário afronta no mercado dos “factores de produção” os seus concorrentes mecânicos. Nessa luta a máquina vence-o progressivamente e reduz o seu lugar no processo de produção.

O comunismo transtorna o carácter dessa evolução. O homem já não sofrerá a concorrência da máquina porque deixará de ser um factor de produção.

A utilização comunista do maquinismo significa a possibilidade de automatizar um grande número de actividades. O que não quer dizer que a chave da questão social se encontre na automatização generalizada.

A abolição do trabalho assalariado não significa a substituição do homem pela máquina, mas a transformação humana da actividade humana por meio das máquinas. Não se trata de reduzir progressiva nem brutalmente o trabalho semanal de quarenta para zero horas como nos propõem certos pseudo-revolucionários. Um mundo ou uma indústria totalmente automáticos que trabalhassem uma matéria inesgotável forneceria de repente todas as coisas desejáveis e imagináveis, transformando o homem num vegetal. Seria um universo fossilizado e sem aventuras, pois tudo o que ali acontecesse teria que ser programado antecipadamente.

Independentemente da fé que deposita na ciência, este mito é profundamente capitalista. Considera consumada e natural a separação entre o tempo de trabalho e o tempo de lazer. Quer reservar o inferno da produção às máquinas e o paraíso do consumo aos seres humanos. Conforme se fixe a fronteira com mais ou menos rigor, desemboca-se no clube de férias permanente ou na generalização do estado de feto.

O comunismo significa o fim da separação entre tempo de trabalho e tempo livre, entre produção e consumo e entre o que é vivido e o que é experimentado.

A REMUNERAÇÃO

O desaparecimento do salariado é suficiente para abalar os fundamentos da velha sociedade. A obrigação de trabalhar para sobreviver desaparecerá. O trabalho deixa de ser um meio de ganhar a vida. Deixa de ser um intermediário entre o homem e as suas necessidades. Passa a ser directamente a satisfação de uma necessidade. E por isto cessa de ser trabalho. O que leva a agir deixará de aparecer como uma necessidade exterior ao indivíduo mas transformar-se-á em necessidade interior, como desejo de estar ocupado, vontade de ser útil. A dissociação entre actividade e remuneração, se não entendermos por remuneração o prazer que pode proporcionar concretamente esta actividade, deve andar a par com uma transformação profunda do homem. Espera dos indivíduos que sejam responsáveis por aquilo que realizam. Exige que se desenvolvam a iniciativa e a inteligência e que o egoísmo e a mesquinhez desapareçam.

Tornou-se costume explicar todos os males da humanidade através da incorrigível natureza humana. É bem conhecido: o homem é o lobo para o homem. Isto não explica nada, mas mostra com que menosprezo os seres humanos se julgam a si próprios. É reflexo do fatalismo que desenvolve o capital que reduz o ser humano ao papel de espectador do seu próprio desenvolvimento.

Desejar manter a remuneração durante o período de transição, como propunha Marx, sob a forma de uma distribuição de vales proporcional às horas de trabalho efectuadas, não é muito desejável. Se o desenvolvimento das forças produtivas permite a revolução comunista, e hoje permite-a, esta não pode adiar a plena aplicação dos seus princípios. Um sistema de vales para remunerar e também para forçar ao trabalho ficaria aquém da revolta espontânea dos oprimidos, de todos aqueles que se insurgem sem esperar nenhum poder, dinheiro ou recompensa. Teria a simpatia de burocratas, de gestores, de todos os que preferem controlar e fazem os outros agir. Tal sistema limitar-se-ia a refrear os partidários da acção e não conseguiria seduzir os seus adversários. Se tivermos de obrigar alguém a fazer alguma coisa, preferimos o método do pontapé no cu. É mais sincero e eficaz.

Não somos adversários irredutíveis da utilização de vales. Seria absurdo pôr diamantes em distribuição livre! Os vales seriam entregues, em casos semelhantes, pelas autoridades habilitadas. Se se tratar de bens relativos à produção, os vales serão entregues por um conselho fabril. Se se tratar de medicamentos raros ou perigosos serão fornecidos por médicos ou pelos hospitais… Estes vales não servirão para remunerar, desempenharão o papel que hoje desempenha uma receita médica. O seu uso será determinado pela natureza ou pela raridade dos bens pelos quais serão “trocados”.

O maior número de bens possível, nomeadamente a comida, deverá tornar-se livre e gratuito sob a égide de comités e de conselhos revolucionários nas zonas que passarem para as mãos do partido da revolução ou por golpes de força nas zonas não libertadas. É o método mais simples, o menos custoso e o mais agradável de realizar a distribuição. É o mais apto a popularizar o comunismo. Vale mais aplicar essa regra geral, prontos a reprimir muito severamente os abusos, do que ficar atolado em controlos minuciosos e desagradáveis na altura da distribuição.

A PREGUIÇA

Será que um programa desses não vai incitar a preguiça a desenvolver-se? Se se puder abolir o princípio da remuneração do trabalho mas mantendo o mundo tal como está, isso seria certamente verdade. Só que o comunismo abala a totalidade das condições de vida e de trabalho.

O espírito revolucionário não é o espírito de sacrifício: ninguém se esquecerá de si próprio para servir a colectividade. Isso é maoísmo! O comunismo supõe um certo altruísmo mas supõe, também, um certo egoísmo. Sobretudo, não opõe o amor do próximo ao amor de si mesmo pedindo que um esteja ao serviço do outro. Não gostamos mais de padres do que de especuladores. O capitalismo é que faz com que os interesses individuais e os da colectividade estejam sempre em oposição: dar é renunciar.

O homem comunista não será mais o homem da renúncia ou da fatalidade. A transformação das mentalidades não depende da pedagogia. Não haverá uma imagem ideal à qual se conformar. Não haverá, por um lado, a transformação das estruturas sociais e por outro a transformação dos indivíduos. O capitalismo é que separa assim as coisas. O proletariado irá eliminar a sua alienação e só o poderá fazer se mudar o mundo e as suas condições de existência. Algumas semanas de revolução farão em estilhaços décadas de repressão. A cobardia, a avidez, a debilidade são o resultado de uma certa situação social. As cenouras, o bastão ou a educação apenas servem para recalcar esses comportamentos se a situação que os engendra e que lhes dá uma certa utilidade não desaparecer. Com o comunismo essas taras desaparecerão porque não mais corresponderão a nada.

Pode até haver egoístas, preguiçosos incuráveis e incapazes irrecuperáveis, que nada disso será, forçosamente, muito grave. O inimigo mais poderoso dessas pessoas não será a repressão mas o tédio. Farão muitas más vontades ceder. Os homens são animais sociais e precisam de coragem para conseguirem ser inúteis na colectividade onde vivem. Mesmo hoje, o parasita e o egoísta devem saber fingir para eles mesmos e para os outros. Quando se abolir o salariado será difícil alimentar ilusões sobre a própria actividade. Cada pessoa será julgada de acordo com o que fará verdadeiramente e não de acordo com o tempo passado.

O comunismo não exclui o conflito entre pessoas nem entre grupos. Os aproveitadores arriscam-se a que lhes peçam contas. Será preciso muito boa vontade para querer suportá-los e engordá-los.

Os comunistas não têm nada contra uma preguiça sadia. A sociedade revolucionária não será feita para nos extenuarmos. Só se pode condenar os preguiçosos se estes exigirem dos outros aquilo que recusam para eles mesmos. Que os corajosos não se deixem tratar como otários, mas que também não tentem impor a todos o seu gosto pessoal!

Com a substituição do trabalho forçado pela actividade apaixonada, a maior parte das causas de uma preguiça sistemática desaparecerá. Desaparecerá também essa irritação que o trabalhador infatigável sente à vista do mandrião e que, muitas vezes, são apenas ciúmes disfarçados. Os preguiçosos de hoje não serão, necessariamente, os preguiçosos de amanhã. Algumas das pessoas que se inquietam e que se consomem sob o aguilhão do ganho terão necessidade da nossa benevolência. Outras, aparentemente incapazes de se mexer, acordarão e soltar-se-ão.

Na sociedade comunista desenvolvida o maquinismo conferirá ao homem um grande poder. Cada qual poderá escolher o seu próprio ritmo de vida. Alguns esgotar-se-ão em aventuras caras e despenderão mais do que darão em paga à sociedade. Outros não farão grande coisa e será, no entanto, a sociedade a ficar a dever. Não manteremos nenhum livro de contas de merceeiro.

Uma vez desaparecido o interesse financeiro, o espírito de pesquisa e de invenção não desaparecerão também? Cada qual não se contentará em fazer apenas os seus pequenos trabalhos de rotina e nada mais? É um erro achar que o incentivo do ganho e que o espírito de pesquisa andam a par. O comerciante pactua com a mentira e com a ilusão. O cientista deve afastá-las sem cessar. A ciência e a invenção compensam, diz-se. Mas muitas vezes, não são as mesmas pessoas que fazem as descobertas e que ganham o dinheiro. Nem mesmo no mundo capitalista o móbil da paixão científica é o dinheiro. O que acontece é que se recupera a criatividade e a imaginação só para se fazer dinheiro.

REPARTIÇÃO DAS TAREFAS

Em vez de adormecer na preguiça não se arrisca a nossa sociedade a afundar-se na desordem? Ainda que a boa vontade seja geral, será esta suficiente para regular a questão da coordenação do conjunto das actividades? Não se irá toda a gente precipitar nos trabalhos agradáveis e esquecer os outros antes de as máquinas terem tido tempo de tomar os comandos? Resumindo, se toda a gente só pensar em si própria tudo se afundará na catástrofe.

A ideia de que a sociedade moderna é muito complexa e de que essa complexidade é inevitável, está muito difundida. Não é uma mera ilusão. O indivíduo sente-se perdido na selva capitalista, não consegue orientar-se e consegue ainda menos entender como funciona o todo. É um erro achar que esta impressão é válida em toda a sociedade moderna. Não é necessariamente engendrada pelas múltiplas operações e situações que constituem o todo social. Nasce do afastamento entre a decisão e a coordenação, por um lado, e a acção por outro.

Esta impressão de complexidade e de desorientação permanente que engendra a sociedade capitalista repercute-se nas descrições de um mundo socialista. Fomos levados a acreditar que o principal problema para resolver na sociedade futura seria o da planificação e o da coordenação. Imaginámos uma “fábrica dos planos” encarregada de recensear o estado da economia, de determinar os coeficientes técnicos que ligam a produção de um produto à produção de um outro produto: quantidade de carvão necessária para produzir uma tonelada de aço, por exemplo. Esta fábrica proporcionaria, assim, objectivos realizáveis e ocupar-se-ia das revisões necessárias e dos processos de execução. Os problemas da sociedade futura são encarados, essencialmente, sob o prisma da gestão (Chaulieu, “Socialisme ou Barbarie”, N 22).

A sociedade comunista terá muitos problemas técnicos complexos para resolver. Só que estas questões não relevarão de uma instância particular. Ninguém tem nenhum interesse em tentar prever as formas que tomará a actividade humana, mas sim em determinar o seu conteúdo. Ninguém terá de unificar nem de gerir aquilo que não está separado. O produtor particular ocupar-se-á tanto da sua actividade como da ligação desta com o conjunto das necessidades e das possibilidades gerais.

Na sociedade revolucionária as relações entre os homens e entre os grupos de produtores serão simples e transparentes. O medo da concorrência que obriga ao segredo desaparecerá. O importante não é que todos cheguem à ciência universal, nem que cada cérebro seja uma “fábrica do plano” em ponto pequeno. Para quê saber de onde provem o mineral com que se fez o garfo? O que conta é que as informações necessárias circulem e que estejam disponíveis.

Numa sociedade fluida onde já tenham desaparecido a mentalidade paroquial e o patriotismo de empresa, onde as pessoas sejam polivalentes, os indivíduos e os grupos orientar-se-ão em função das necessidades sociais.

As necessidades sociais não serão impostas do exterior por intermédio de um poder central: comité ditatorial ou assembleia democrática. O indivíduo e o grupo não deverão vergar-se à consciência que tenham da situação, se imaginarmos essa consciência como o simples reflexo de imperativos exteriores. Agiremos, claro, em função da consciência das necessidades e das possibilidades sociais, mas não independentemente dos gostos pessoais. Muitas vezes não teremos de fazer compromissos. As nossas próprias aspirações são, em primeiro lugar, encaradas como necessidade social. Somos tentados, sobretudo, a remediar aquilo que sentimos como uma falta. Se eu não conseguir encontrar vinho e se este me fizer falta, não terei necessariamente necessidade de me esclarecer acerca das curvas de produção, em frente a um computador para saber que é preciso ocupar-me das vinhas!

O homem comunista não vai separar o exercício dos seus gostos da sua repercussão social. Não se vai dedicar a tarefas de que já outra gente se ocupa. De qualquer forma, seria estúpido pensar que toda a gente viverá uniformizada e que, ao sabor das modas se dedicarão todos às mesmas ocupações.

A consciência daquilo que será necessário à sociedade será muito mais aguçada do que hoje. Todos se poderão informar e serão capazes de compreender aquilo que funciona e aquilo que não funciona, mesmo que isso não tenha repercussões directas sobre eles mesmos. Os computadores serão instrumentos necessários à circulação e à interpretação das informações.

A organização geral da sociedade não necessita de um, nem de vários centros directores. Haverá, talvez, pessoas que se ocuparão mais particularmente a recolher informações, a fazer previsões, mas não terão de elaborar nenhum plano no sentido imperativo do termo. Planificar é desejar acorrentar o futuro ao presente!

A coordenação não poderá ser feita por uma dada casta! Efectuar-se-á sem cessar e a todos os níveis da sociedade. Uma vez que os homens já não vão ter mil barreiras a separá-los, chegarão espontaneamente a acordo.

As coisas não se resolverão, necessariamente, de maneira amistosa. Os conflitos serão inevitáveis. Mas o problema da revolução não é livrar a sociedade de todos os conflitos, nem engendrar uma sociedade onde tudo será harmonizado à priori. Algumas formas de conflito serão, certamente, eliminadas, as que opõem as classes, as nações… No mundo que desejamos, as oposições terão tanto direito á existência como os acordos. A harmonização e o equilíbrio elaborar-se-ão através de debates e de disputas.

A diferença fundamental entre esta situação e a situação actual é que cada um se empenhará na batalha com as suas próprias forças. Ninguém poderá evocar direitos abstractos separados do mundo das oposições e das relações de força concretas. O recurso a um corpo social como o exército ou como a polícia, para se reconhecer o justo objectivo das causas, não mais será possível.

O comunismo fará do conflito uma coisa normal e até mesmo necessária, na condição, evidentemente, de que o interesse do que está em jogo não seja inferior aos danos causados. O capitalismo é profundamente conflituoso. Funda-se na oposição entre classes, nações e indivíduos. Todos se opõem a todos. É para conjurar esta realidade que se prega o amor beato e a fraternidade. A agressividade irrompe por todo o lado mas a imagem da paz deve reinar. Ninguém mata ninguém em nome de interesses particulares mas sim para o bem da civilização, de valores universais, etc.

Não nos arriscaríamos a gastar demasiado tempo com tagarelices e conflitos? Para reconduzir os problemas da coordenação e do ajustamento ao nível em que se encontram, é provável que o ganhemos. A ideia segundo a qual o tempo é algo que se pode perder ou ganhar é, em si própria, algo espantosa.

Do ponto de vista comunista, o problema não se pode reduzir a determinar qual o método que economiza mais tempo. O que interessa é o modo como ocuparemos esse tempo. Teremos nós, ou não, prazer e interesse em discutir e em harmonizar ou preferiremos contentar-nos em aplicar sem discussão as decisões de um centro director que programará a ausência de conflitos? Os homens aprenderão novamente a falarem uns com os outros e a discutirem de forma agradável. As discussões fastidiosas ver-se-ão limitadas pelo tédio dos interlocutores mas, também, pelo simples facto de não termos que recomeçar sempre do zero. Poderemos apoiar-nos nas experiências passadas.

OS TRABALHOS PENOSOS

Existem tarefas francamente penosas e desagradáveis. Podemos esperar reduzi-las através do maquinismo, mas antes teremos de nos ocupar delas e nem todas poderão realmente ser eliminadas.

Seria inaceitável, e certamente não é aceite pelos interessados, que todos esses trabalhos tão ingratos repousassem sobre os ombros das mesmas pessoas. Teremos, então, de nos organizar para que o maior número possível de pessoas, se ocupem destes trabalhos à vez. Será secundário que se perca em rentabilidade.

Numa fábrica, ou noutro local de produção, poderemos comodamente revezar-nos nos cargos desagradáveis.

Ao nível do conjunto da sociedade, podemos decidir que essas tarefas ingratas sejam, também, objecto de rotação. Todos limparemos caixotes do lixo durante uma pequena parte do ano.

Alguns trabalhos penosos podem sê-lo muito menos se forem o prolongamento e a contrapartida de actividades mais agradáveis. Hoje, os trabalhos são parcelados ao extremo e a necessidade de usar “racionalmente” a força de trabalho exige que façamos o que fazemos por estarmos qualificados para isso, deixando o resto a outros. Na sociedade comunista os investigadores poderão ocupar-se a limpar as casas de banho que utilizam, o automobilista poderá também alcatroar as ruas e os mortos serão os mais indicados para cavarem os seus próprios túmulos.

As actividades desagradáveis sê-lo-ão bastante menos se os que delas se ocupam apenas lhes consagrarem uma curta parte do seu tempo e se não tiverem a impressão, como acontece agora, de estarem presos a elas. Essas actividades podem, sobretudo, desenvolver-se num ambiente muito diferente do ambiente actual: sem chefes e sem a obsessão do rendimento. A limpeza dos caixotes do lixo poderá, por exemplo, ser feita num ambiente de Carnaval.

Muitas actividades penosas transformam-se em tal não devido ao seu carácter próprio mas porque, em nome da racionalização do trabalho, são efectuadas em série sempre pelas mesmas pessoas.

Estas alterações de ritmo, de repartição e da própria natureza dos trabalhos não serão evidentemente programadas de antemão nem controladas do alto. Far-se-ão no momento, em função dos desejos das pessoas envolvidas. Se, num dado sítio, houver alguém que goste de andar com carrinhos de mão ou de outras tarefas em geral pouco valorizadas será evidentemente absurdo fazer com que essa pessoa renuncie aos seus gostos.

Nós não somos nenhuns fanáticos da igualdade. Será imbecil, então, quando tivermos falta de cirurgiões, condená-los a fazer o trabalho de enfermeiros. Este género de desigualdades apenas pode ser atenuado pelo desenvolvimento da polivalência e pelo encaminhamento das pessoas para sectores verdadeiramente úteis.

FIM DAS SEPARAÇÕES

O comunismo significa o fim das separações que compartimentam a nossa vida. Vida profissional e vida afectiva deixam de estar em oposição.

Já não haverá um tempo para consumir e um tempo para produzir. As escolas, os centros de produção, os centros de lazer deixam de ser universos distintos e estranhos entre si. Desaparecem progressivamente com o desaparecimento da sua função especializada. No centro do processo produtivo, a hierarquização e o fraccionamento da actividade humana serão eliminados. Será o fim da situação na qual o operário é o executante do desenhador, o desenhador o executante do engenheiro, o engenheiro o executante das finanças ou da administração.

A consumação destas transformações levará o seu tempo. Não podemos apagar com uma esponja o nosso quadro de vida, um certo tipo de desenvolvimento tecnológico, hábitos e deficiências humanas. Vão impor-se medidas nesse sentido, medidas que farão surtir os seus efeitos a partir da abolição da produção mercantil e do salariado.

A separação entre a vida profissional, por um lado, e a vida afectiva e familiar, por outro, está ligada ao desenvolvimento do trabalho assalariado. O camponês viu-se privado da sua terra e da sua família para se integrar num universo industrial. Outrora, a família era a unidade de vida e de produção. Não só o marido e a mulher, mas também as crianças e os velhos, participavam nos trabalhos da quinta e dos campos. Cada um encontrava actividades úteis e ao nível das suas forças.

Os reaccionários gostam de se armar em defensores da família ameaçada. Estes cretinos recusam-se a ver que é precisamente a ordem que defendem que a reduz ao papel marginal que acabou por ter. As relações de parentesco eram relações de ajuda mútua no plano agrícola. Todos se entendiam bem para além do casal e da sua descendência directa. Hoje, a família não é mais do que um local de produção de crianças. Mas o seu papel económico é o de uma unidade de consumo. A instituição fundamental, a célula de base da sociedade capitalista desenvolvida, não é a família mas a empresa.

Não pretendemos voltar a instaurar a velha família patriarcal para fazer com que esta assegure a produção substituindo a empresa capitalista. Os laços de sangue desempenharam um papel fundamental no passado e já não correspondem a grande coisa, no mundo moderno.

Na sociedade comunista para realizar uma actividade, produtiva ou não, as pessoas já não se reunirão pela força do capital. Vão reunir-se pelo seu gosto comum e pelas suas afinidades. As relações entre pessoas ganharão tanta importância como a própria produção.

Não estamos a dizer que os laços propriamente amorosos e as relações profissionais vão coincidir. Isso será uma questão de escolha e do acaso. Mas será muito mais possível do que hoje.

Há quem queira ver, no comunismo, o pôr em comum as mulheres e as crianças. Isso é uma idiotice.

As relações amorosas não terão outra garantia além do amor. As crianças não estarão mais ligadas aos pais pela necessidade de comida. O sentimento de propriedade sobre as pessoas desaparecerá, paralelamente ao sentimento de propriedade sobre as coisas. Tudo isto é muito inquietante para quem não passa sem a garantia dos polícias nem dos padres. O casamento desaparecerá enquanto sacramento de estado. A questão de saber se duas… ou três em dez pessoas querem viver juntas, ou até se se querem ligar por um pacto, só a elas diz respeito. Não temos nada que determinar, nem que limitar antecipadamente, as formas das ligações sexuais possíveis e desejáveis. A própria castidade não é uma coisa a rejeitar. É uma perversão tão respeitável como qualquer outra! O que interessa, à parte o prazer e a satisfação dos parceiros, é que as crianças cresçam num meio que responda às suas necessidades de segurança material e afectiva. E isso não se resolve com moralidade.

Nos restos de uma família gangrenada pela mercadoria a hipocrisia é dominante. Atribuímos ao amor, o que não passa de segurança económica, afectiva ou sexual. As relações entre pais e filhos atingiram o fundo da degradação. Sob a capa do afecto, a vontade de explorar responde ao desejo de possuir. A criança carrega como um fardo as expectativas de uns pais de vidas falhadas. Deve brincar aos cachorrinhos amestrados, ter sucesso na escola, mostrar-se sábia e calma ou activa e cheia de iniciativas. Em troca, recebe um pouco de afecto ou a semanada.

Tal como a família, abrigo de segurança e de amor num mundo duro e hostil, não escapa à realidade mercantil, a empresa não se pode separar da afectividade. A amabilidade aparente, o aperto de mão, escondem o desprezo, a rivalidade e a exploração. Todos são simpáticos, cordiais, todos dialogam mas, sobretudo, todos se lixam uns aos outros.

PRODUÇÃO E CONSUMO

A separação entre produção e consumo surge como uma divisão natural entre duas esferas muito distintas da vida social. Nada é mais falso. E por duas ordens de motivos.

Em primeiro lugar, a fronteira entre o chamado tempo de produção e tempo de consumo é inconstante, do ponto de vista histórico e fluida do ponto de vista ideológico. Em que categoria de devem arrumar a culinária e o desporto? Isso depende se são obra de profissionais ou de amadores. Não é a natureza da actividade que é determinante: a culinária é mais produtiva do que a triagem postal no sentido em que é uma acção de transformação material, seja ou não assalariada.

Muitas actividades do domínio do consumo passaram para a produção. O astronauta ou o doente que respiram oxigénio de garrafa, a dona de casa que vai comprar café ou as latas de conservas participam nesta deslocação de fronteiras.

A cisão entre produção e consumo esconde a importância que conserva o trabalho doméstico não assalariado no mundo moderno. Dá uma aparência fixa e natural a uma demarcação movediça e social.

Em segundo lugar, todo o acto de produção é também e necessariamente um acto de consumo. Não fazemos mais do que transformar a matéria de uma certa forma e com um determinado objectivo. Ao mesmo tempo que destruímos ou, se quisermos, que consumimos certas coisas obtemos ou, se quisermos, produzimos outras. O consumo é produtivo, a produção é consumidora. Produção e consumo são duas faces inseparáveis da mesma medalha.

Os conceitos de produção e de consumo não são neutros. Não podemos dizer que são burgueses. Mas a sociedade burguesa faz um certo uso deles. Uma pereira não é burguesa por produzir peras. A noção de produção toma um carácter ideológico porque, sob a ideia de criação e de distanciamento, insinua-se a noção de projecto e de consciência. A confusão entre as duas coisas é alimentada, tudo acaba por ser interpretado em termos de produção. Uma galinha transforma-se numa fábrica de fabricar ovos.

Mascara-se a continuidade do ciclo pelo qual o homem primitivo ou civilizado, capitalista ou comunista modifica de maneira simples ou complexa, individual ou colectivamente, irreversível ou passageiramente, em geral ou no pormenor o mundo que o rodeia e, inseparavelmente, transforma-se a si próprio. O uso totalitário da noção de produção esconde a inserção e a dependência radical do ser humano do seu meio e das leis naturais. Interpreta-se tudo em termos de domínio e de utilização. O homem produtor consciente e senhor de si mesmo, parte à conquista da natureza. O grande poder que a humanidade tinha confiado à imagem divina é, agora, atribuído directamente à imagem que ela tem de si própria. O comunismo não é a vitória da consciência sobre o inconsciente. Não é o estádio em que, depois de se ter consagrado à produção das coisas, o homem vai enfim poder produzir-se a si próprio, tomar de certa forma o lugar do criador divino. Desejar que o homem se torne no seu próprio senhor, tal como é senhor dos objectos que produz, é querer reunir o separado sob o signo da produção, portanto, da separação. O produtor não deixará de ser um objecto, simplesmente será o objecto de si mesmo.

A cisão entre produção e consumo extingue-se, pois desaparece a separação muito concreta (apesar de arbitrária do ponto de vista da natureza e da fisiologia) entre o tempo passado a ganhar dinheiro e o tempo passado a gastá-lo.

Para os comunistas, consumir não se opõe a produzir, tal como não é contraditório alguém ocupar-se de si mesmo e ocupar-se de outra pessoa. Isto porque ao se produzir para os outros, e ao gastar-se para os outros, criam-se valores de uso que podem servir à própria pessoa. Não produzimos sapatos por um lado para sermos obrigados, por outro, a ir comprá-los no mercado. A produção vai transformar-se e tornar-se-á criação, poesia, consumo. O grupo ou o indivíduo vão passar a exprimir-se através daquilo que fazem. Nesse sentido, a revolução significa a generalização da arte e a sua superação enquanto sector mercantil e separado.

Continuando a pensar do ponto de vista da oposição entre consumo e produção, podemos dizer que ao ter satisfação e prazer (ou pelo contrário insatisfação e desprazer) do decurso da sua actividade produtiva, o homem será através dela um consumidor. O computador e a colher de pedreiro que empregará numa ocasião não terão um valor fundamentalmente diferente do carro nem da comida usadas noutro momento.

O comunismo não é, de todo, a produção posta enfim ao serviço do consumidor, e é ainda menos do que o capitalismo, a ditadura da produção. Quando nos dedicamos a uma certa actividade ganhamos um certo poder. Até um certo ponto, podemos dispor do fruto desses esforços, dar ou recusar-nos a dar aquilo que produzimos. Principalmente, ao fornecermos um certo bem ou um certo serviço e ao dar-lhes uma forma específica agimos no campo das possibilidades da sociedade. A actividade dos utilizadores será determinada pela dos produtores. Não há nenhuma razão para estes últimos abusarem de um poder que de todas as formas não será um poder político ou separado, mas a simples expressão da utilidade das suas ocupações.

O “consumidor” não pode censurar ao produtor a imperfeição daquilo que faz em nome do dinheiro que não lhe dará em troca, mas simplesmente criticá-lo não do exterior mas do interior. Estará em causa a sua obra comum se pertencerem à mesma empresa. Se alguém não estiver satisfeito com aquilo que se faz e com aquilo que não se faz não poderá invocar o seu direito abstracto de consumidor. Apenas poderá levantar a questão da sua capacidade para fazer melhor ou, pelo menos, fazer valer as suas próprias contribuições. A crítica será apaixonada e positiva. Não poderá ser feita por quem só gosta de dizer mal mas depois nunca se empenha.

PRODUÇÃO E EDUCAÇÃO

A separação entre a via produtiva, por um lado, e a educação, por outro, não é fruto da necessidade. Não encontra a sua razão de ser na importância crescente do saber a digerir. Ou antes encontra, mas então temos de perceber porque é necessário que o saber não seja mais o fruto directo da experiência.

O fundamento desta cisão é que o proletário não deve poder ocupar-se de si próprio, do seu prazer e da sua formação enquanto produz. Esta separação essencial à sobrevivência do mundo da economia tem um custo muito alto. Implica a imobilização de uma importante parte da população, nas escolas, nos centros de ensino profissional, nas universidades, que poderia ser útil noutros sítios e onde se divertiria mais. Não permite a boa adaptação das capacidades humanas às necessidades requeridas pelas actividades que se pretendem ensinar. Esta formação artificial é depois completada por uma aprendizagem pela prática quando se começa a trabalhar, que se efectua muitas vezes clandestinamente.

A escola aparece-nos como um serviço público acima das classes sociais. A sua utilidade seria incontestável. Quem teria coragem para ser apóstolo da ignorância? Os espíritos esclarecidos ousam culpar o conteúdo do ensino. Censuram-no por ser arcaico, por estar separado da vida, por ser um factor de subversão. Segundo as preferências, as crianças deveriam aprender a ler nos Santos Evangelhos, no Manifesto Comunista ou no Kamasutra!

Os extremistas começam a questionar a própria escola. Não é em nome da sua eficácia nefasta mas em nome da sua ineficácia. Questiona-se a escola para melhor salvar a pedagogia.

Temos de estar sempre a aprender. Ingurgitar essa papa insípida a que chamam cultura. O mundo é tão complexo! Vocês não compreendem? Então é preciso reciclar-vos.

As pessoas nunca aprenderam tanto e nunca foram tão ignorantes no que diz respeito à sua própria vida. São submergidas, atordoadas pela massa de informação despejada pela universidade, pelos jornais, pela televisão. A verdade nunca poderá sair da acumulação do saber mercadoria. É um saber morto e incapaz de compreender a vida, pois a sua natureza profunda é precisamente ter-se afastado da experiência e do vivido.

A escola é onde aprendemos a ler, a escrever e a calcular. Mas é, principalmente, a aprendizagem da renúncia. Aprendemos ali a suportar o tédio, a respeitar a autoridade, a vencer os colegas, a dissimular e a mentir. Ali sacrificamos o presente no altar do futuro.

O comunismo é a descolonização da infância. Não mais será necessária uma instituição em particular para a educar. Inquietamo-nos para saber como farão as crianças para aprenderem a ler? Seria preciso inquietarmo-nos antes de saber como elas aprendem a falar!

A escola dissocia e inculca a dissociação entre o esforço ou a aprendizagem e a necessidade destes. Só interessa que as crianças aprendam a ler porque têm de aprender a ler e não para satisfazerem a sua curiosidade e o seu amor pelos livros. O resultado paradoxal foi que, se a escola conseguiu fazer recuar o analfabetismo sufocou, ao mesmo tempo, o gosto e a capacidade de ler para a maior parte das pessoas. Na sociedade comunista as crianças aprendem a ler e a escrever por sentirem necessidade de se instruir e de se exprimir. O mundo infantil não estará separado do resto da vida social e haverá uma necessidade imperiosa em aprender. Vão fazê-lo tão naturalmente como aprendem a andar ou a falar. Ninguém o fará sem ajuda. Pedir-se-á ajuda aos pais ou a pessoas mais velhas. As dificuldades serão úteis, ao superá-las, todos aprenderão a aprender. Ao recusar-se a receber o saber como um alimento pré-digerido da mão de um educador, ganhar-se-á o hábito de ver e de ouvir, ser-se-á capaz de elaborar conhecimentos e de fazer deduções a partir da própria experiência. Será a vingança do vivido sobre a programação escolar ou extra-escolar dos seres humanos.

Os homens partilharão as suas experiências e comunicarão os seus conhecimentos uns aos outros. Os lugares e os momentos escolhidos serão os mais cómodos. A forma da relação não será determinada a priori mas dependerá do conteúdo da troca e do saber recíproco dos interessados no assunto em questão. Com o devido respeito pelos fanáticos da pedagogia activa, se 10 ou 10000 pessoas esperarem saber o que só um indivíduo sabe o mais simples será reinventar a lição magistral.

O interesse moderno pela pedagogia exprime o facto do método não se impor a partir de um conteúdo determinado. Quando já ninguém tem nada a dizer-se, quando o conteúdo do ensino se torna indiferente, então torna-se pertinente discutir a forma de se dizer. Só quando a sopa é má, nos interessamos pela aparência do prato.

O que aconteceria no mundo da produção capitalista se de repente os trabalhadores tivessem realmente o direito de experimentar e não fossem mais julgados pela sua rentabilidade imediata? Muito rapidamente arriscar-se-iam a esquecer porque os tinham contratado. Passariam de experiência a experiência e de ensaio a ensaio. Marimbando-se para a produção correr-se-ia o risco de que abandonassem rapidamente o rendimento em favor da busca do seu prazer pessoal. A alegria da descoberta e a embriaguez da liberdade substituiriam a rotina e a repetição. Os contactos desenvolvidos entre trabalhadores, sob o pretexto de melhorar a produção pela troca de experiências, arriscar-se-iam a tomar outra dimensão. Porque não ceder às alegrias aliciantes da sabotagem colectiva, porque não organizar jogos, porque não reorganizar ou desviar a produção para caminhos directamente vantajosos para os trabalhadores?

O princípio do salariado impede que se possa confiar nos trabalhadores para que se submetam às necessidades de uma produção que não lhes diz respeito. Nem sequer os mais alienados, os mais esforçados e os mais servis dos assalariados se aguentariam nesse caminho escorregadio. Não se pode deixar um operário dispor dele próprio no decurso da produção. Há que tratar os instrumentos como instrumentos. Deixe-se que ele se ocupe de si mesmo e ele toma-lhe o gosto insurgindo-se contra o capital que o nega enquanto ser humano.

A divisão capitalista entre produção e aprendizagem tem limites.

É impossível dissociar completamente produção, educação e experimentação. A produção, o trabalho mais estúpido exige uma certa adaptação do trabalhador e a capacidade de fazer frente a uma situação não programada. Do mesmo modo, mesmo a educação mais abstracta deve concretizar-se através de certos “produtos”, nem que sejam cópias de exame. As necessidades de controlo feito do exterior repercutem-se na produção.

Os alunos não são uma cera mole sobre a qual se imprime o saber. Não poderão aprender nada se permanecerem passivos. A aprendizagem não se pode libertar completamente da experimentação nem da produção, mesmo se estiver separada da esfera económica propriamente dita. A escola serve para dar um quadro limitativo e um conteúdo a essa actividade e para a desligar da vida real. O ensino funciona e perpetua-se graças aos princípios que reprime. Isso é válido para a aprendizagem da leitura e da dissertação. Esta última é a negação da própria comunicação. Os alunos devem aprender a exprimir-se por escrito, independentemente daquilo que tenham a dizer e das pessoas a quem se dirijam. É um exercício completamente vazio. Se os alunos aprendem, mesmo assim, a escrever é porque foram obrigados de alguma maneira a incluir aí uma certa forma de comunicação. Tal como um operário que é obrigado a trabalhar só pode fazer o trabalho se nele participar até um certo ponto. Nunca pode ser um simples executante, uma máquina.

O sistema de produção desmorona-se se os trabalhadores deixarem de poder experimentar, ajudar-se mutuamente, aconselhar-se. A organização hierárquica do trabalho só pode sobreviver se as suas regras forem permanentemente contornadas. Mas impõe um quadro insuperável a essas ilegalidades e à actividade espontânea dos trabalhadores para impedir que se desenvolvam e se tornem realmente perigosas e subversivas.

próximo capítulo

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