BREVE HISTÓRIA DO INDIVÍDUO

by Velha Toupeira

Tom Thomas

Tradução de Afonso Gonçalves

INTRODUÇÃO

Para aqueles a quem hoje é concedido o direito à palavra, a sociedade mercantil, a democracia e os direitos do homem formam um todo cuja superioridade sobre qualquer outro sistema não admite contestação, especialmente depois do colapso soviético; mesmo para os mais cínicos, que a consideram horrível, ela é, no entanto, um mal menor.

Esta superioridade revela-se, segundo eles, em todos os domínios, mas resume-se essencialmente a isto: o indivíduo livre, proclamado valor supremo, é fonte de toda a riqueza e alvo de todo o esforço pessoal ou coletivo.

Naturalmente, não é difícil demonstrar até que ponto, diariamente, por toda a parte milhões de indivíduos são negados, excluídos e esmagados por este sistema. Mas as nossas nobres elites encontram resposta para tudo. A causa desta contradição entre o que se afirma e a realidade estão na «natureza humana».  O sistema mercantil é o que melhor a exprime, ao permitir, graças à propriedade privada, a libertação das energias criadoras dos indivíduos. Mas a natureza destes tornaria este dinamismo necessariamente agressivo, ávido e egoísta. O sistema deve pois ser temperado, civilizado, através de uma organização social, da educação, dos direitos do homem e de outras instituições erigidas em autoridades morais e cívicas, colocadas acima e à margem dos próprios indivíduos. E assim, mal o indivíduo é proclamado valor supremo, ei-lo destronado e subjugado por forças que não consegue controlar.

A dificuldade estaria em saber encontrar o justo equilíbrio entre a sociedade (representada pelo Estado), que protege, corrige e defende os interesses gerais de todos e a liberdade individual dos interesses privados.

Na verdade, as nossas elites classificam como «natureza humana» os comportamentos de egoísmo e de indiferença especificamente engendrados pelo modo de apropriação mercantil. Não é possível um equilíbrio estável entre interesses privados e interesses gerais; pela forma como estão organizados, são opostos. O conflito tem que ser permanente.

É, aliás, o que constatam nos seus infindáveis debates, em que contrapõem, em dois extremos, o individualismo e o totalitarismo («holismo», dizem os universitários entendidos na matéria). Ora, o objeto desta pequena obra é mostrar que esta oposição é vazia e falsa, que individualismo e totalitarismo são as duas faces da mesma moeda – a sociedade mercantil. Provar-se-á também que aqueles que deploram sabiamente o individualismo contemporâneo enquanto se recusam a lutar pela destruição das relações de mercado e das classes por elas geradas, ou são ingênuos ou hipócritas.

O sistema mercantil e a sua extensão capitalista criaram ao mesmo tempo o indivíduo, na esfera privada, e a negação do indivíduo, na esfera geral, representada e organizada em formas sociais e estatais necessariamente repressivas. Com efeito, neste sistema, os indivíduos não são senhores das suas atividades nem das suas relações. Estas surgem perante eles, desdobradas em capital, dinheiro, coisas, devoradoras dos seres vivos, e sob a forma de sociedade, que esmaga e nega os indivíduos.

Este livro dirá também que o objetivo não é aperfeiçoar a sociedade para uma melhor realização do indivíduo, nem civilizar o indivíduo para obter uma sociedade mais perfeita. São os indivíduos e a sociedade atuais que devem ser ao mesmo tempo negados e transformados revolucionariamente.

Por efeito da ignorância organizada e de uma propaganda orquestrada com o fim bem evidente de tentar sufocar a luta revolucionária, os Estados provenientes do estalinismo foram designados «comunistas», o que permite associar fraudulentamente a esta designação os termos coletivistas, inimigo da liberdade, totalitário, numa palavra, aniquilador do indivíduo. O que é também uma maneira de fazer crer, que ao capitalismo corresponde, pelo contrário, o florescimento do indivíduo.

Mas quanto mais o indivíduo é, em palavras, elevado aos píncaros, mais as sociedades, e sobretudo as ocidentais, se tornam autoritárias, exercem ações violentas e em massa contra os indivíduos, manipulam e monopolizam a informação e o poder revela-se cada vez mais concentracionário.

Perante o esmagamento real dos indivíduos, venerados e proclamados livres, e na incapacidade de resolver esta contradição, multiplicam-se os curandeiros de todo o gênero: gurus, profetas, chefes religiosos, psicólogos, sociólogos, filósofos, que propõem a cada um a forma de encontrar o verdadeiro caminho ou o verdadeiro Deus, salvar a alma, libertar os seus impulsos; ou então exige-se à sociedade que eduque, proteja e humanize os indivíduos. Sob este amálgama esconde-se apenas, como mostraremos, uma ideologia impotente.

Maio de 68 foi disso viva demonstração. Foi, da parte da juventude, um vasto movimento de contestação a certas pressões sociais (familiares, hierárquicas, estatais, etc.) de cuja abolição se esperava a libertação dos indivíduos. Os «desejos verdadeiros» eram postos em confronto com as satisfações artificiais da «sociedade de consumo», as pulsões do eu foram proclamadas como única verdade, face ao embuste da sociedade mercantil. A repressão começava «dentro de nós mesmos», nos comportamentos aceites, e por isso a autolibertação estava ao alcance de todos os contestatários: bastava decidir ser livre. Just do it.

Esta afirmação das qualidades pessoais contra o domínio das coisas foi com certeza uma revolta moderna, soberba e muito rica. Só que os desejos dos indivíduos, presos nas malhas das relações sociais capitalistas, não podem espontânea e facilmente ser libertados das determinações, representações e comportamentos que essas relações necessariamente criam. Os indivíduos e as suas aspirações são também o produto dessas relações. Quem não é capaz de contestar o indivíduo (e só o proletariado, em determinadas circunstâncias, está em condições de o poder fazer totalmente) não é capaz de contestar a sociedade. Quem não vê que são produtos um do outro, quem opõe o indivíduo à sociedade que o sufoca do mesmo modo que opõe o bem ao mal ou reciprocamente fica necessariamente amarrado a idéias impotentes sobre a Vida, o Desejo, o Eu, ou sobre a sociedade ideal, sábia representante do interesse geral, grande educadora e garante dos direitos do homem civilizado.

Opondo o indivíduo à sociedade, os desejos de um contra as opressões da outra, o seu livre arbítrio contra o autoritarismo, a sua liberdade contra a burocracia, os estudantes de Maio de 68 permaneceram no terreno da separação indivíduos/sociedade, próprio das relações mercantis. Não foram radicais; limitaram-se a manifestar a hostilidade permanente indivíduos/sociedade que estas relações engendram necessariamente. Como pequeno-burgueses que eram, estes indivíduos só realizaram, salvo raras exceções, desejos bem banais e limitados. A integração desembaraçada de alguns deles no carreirismo político-mediático é disso um bom exemplo. Nessa época o proletariado mostrou, bem ou mal, ao aceitar os acordos de Grenelle, que também ele manifestava desejos determinados pelas suas relações sociais específicas, neste caso, a relação salarial alienante da venda da força de trabalho.

Enfim, Maio de 68 ensina-nos que nenhuma revolução poderá colocar a idéia de indivíduo, como se fosse um ser, uma natureza, um eu, tendo desejos inatos e especificamente pessoais. Apenas pode, a menos que seja algo diverso, criar durante um longo processo outros indivíduos concretos, estabelecendo outro tipo de relações entre eles, ou seja, organizando de outro modo a sua comunidade e a sua sociedade.

Mostraremos que o individualismo moderno, assim como a sociedade democrática que é o seu alter ego, está, na verdade, em contradição com o livre desenvolvimento dos indivíduos. E que, pelo contrário, os homens, seres sociais determinados, só podem enriquecer a sua individualidade se criarem outro tipo de sociedade, outro tipo de comunidade que substitua a atual sociedade democrática.

Os ideólogos modernos tomam o indivíduo abstrato como seu herói, sujeito único, movido por interesses e desejos desligados da história, mais ou menos distintos em cada um, mas cujo fundo seria uma racionalidade estática que os leva a maximizar a realização desses interesses e desejos privados. Nesta perspectiva, a sociedade só pode ser vista como um freio que impede a plena realização do indivíduo ou então como a expressão de um interesse geral superior que a favorece, um meio ao serviço do indivíduo e não a sua comunidade, eles próprios.

Diremos também que os indivíduos e a sociedade atual são produtos criados simultaneamente pela história e que a sua oposição, que é de fato real nos nossos dias, existe de forma transitória. Como produto das relações de separação próprias das sociedades mercantis, desaparecerá com a destruição destas. Mas enquanto subsistir este tipo de relações, esta sociedade e estes indivíduos estarão constantemente em oposição, debilitando-se e prejudicando-se mutuamente em cada dia que passa.

I. DOS HOMENS PRIMITIVOS AOS INDIVÍDUOS

II. OS INDIVÍDUOS NAS SOCIEDADES MERCANTIS

III. AS FORMAS DE UMA COMUNIDADE ILUSÓRIA

IV. RELAÇÕES SOCIAIS E IDEOLOGIAS

V. SOBRE O MOVIMENTO

VI. CONCLUSÃO. EU E OS OUTROS

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