ESTADO RESTRITO, ESTADO AMPLO E CORPORATIVISMO

by Velha Toupeira

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ESTADO RESTRITO, ESTADO AMPLO E CORPORATIVISMO

Ao longo deste livro usarei com frequência os conceitos Estado Restrito e Estado Amplo. É por isso preferível defini-los desde já. Quem estiver interessado numa abordagem mais detalhada da questão pode consultar o capítulo 3.2 de uma obra que publiquei na Editora Cortez, com o título Economia dos Conflitos Sociais, ou, numa versão mais rápida e simples, o capítulo I.6 de Estado. A Silenciosa Multiplicação do Poder, publicado pela Escrituras Editora. Bastará agora dizer que chamo Estado Restrito ao conjunto das instituições que compõem o governo, o parlamento e os tribunais, ou seja, aos poderes executivo, legislativo e judiciário. É uso corrente denominar estes três poderes, simplesmente, Estado, e para a maior parte das pessoas é a eles que se limita o aparelho estatal. Por que razão considero eu esse Estado como restrito? O que me leva a admitir que exista no aparelho global do Estado outra esfera, mais ampla?

Em tudo o que diz respeito à organização interna das empresas os patrões e os gestores escolhem os sistemas de administração e organizam a força de trabalho, o que constitui uma forma de poder legislativo. Além disso, eles estabelecem as hierarquias, definindo a amplitude das decisões possíveis de ser tomadas em cada escalão, e impõem as normas de trabalho, o que constitui uma forma de poder executivo. Finalmente, os proprietários das empresas ou os seus administradores avaliam o desempenho de cada trabalhador, concedendo prémios de produtividade ou impondo multas e outros tipos de punição, inclusivamente a demissão, o que constitui uma forma de poder judiciário. E eles fazem-no numa esfera que é em grande medida alheia aos condicionalismos impostos pelo Estado Restrito. O governo, o parlamento e os tribunais reconhecem aos proprietários privados e aos gestores uma enorme latitude na administração, na condução e na punição da força de trabalho, ou seja, reconhecem-lhes uma verdadeira soberania. E qualquer exercício de um poder soberano é, por si só, uma actividade política. Ora, se a organização da economia é ela própria, directamente, um poder político, então o seu âmbito de acção é muitíssimo vasto. Por isso lhe chamo Estado Amplo. Aliás, nas últimas décadas, com a intervenção crescente das empresas nos mais variados aspectos da vida social, o carácter amplo desse Estado aumentou muito.

Na forma como o concebo, o Estado capitalista tem sempre resultado de uma conjugação entre o Estado Amplo e o Estado Restrito. Fala-se muito de corporativismo, e todos sabemos que se trata de um equilíbrio entre os poderes do governo e os dos empresários, com a participação secundária das burocracias sindicais. Os vários tipos de corporativismo, na sua origem e no seu desenvolvimento, ficam esclarecidos mediante a análise da articulação daqueles dois tipos de Estado. Neste quadro o corporativismo é a questão fundamental.

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Numa fase inicial o Estado Amplo teve de lutar para utilizar um Estado Restrito ainda fortemente vinculado a sistemas governativos aristocráticos e senhoriais. Nos primórdios do capitalismo, quando a acumulação e a concentração do capital estavam longe de atingir o nível conseguido mais tarde, as empresas não eram capazes de criar na sua esfera própria as Condições Gerais de Produção de que necessitavam. Chamo Condições Gerais de Produção a todas as infra-estruturas, não só materiais, mas ainda sociais e culturais, indispensáveis para que o capitalismo exista e se expanda, e que vigoram num âmbito superior ao de cada empresa particularmente considerada. As ferrovias, por exemplo, a rede eléctrica, o sistema escolar, os padrões culturais, não se podem confinar aos limites de cada empresa e ultrapassam-nas todas. Sem estas Condições Gerais de Produção o capitalismo não poderia ter começado a desenvolver-se, nem conseguiria hoje deter a hegemonia.

Para criarem as infra-estruturas materiais e sociais de que necessitavam, as empresas, ou seja, os componentes do Estado Amplo, tiveram de reorientar os objectivos e as normas de actuação do Estado Restrito. Foi essa a época das grandes revoluções políticas capitalistas, que se esboçaram primeiro na guerra civil inglesa de 1642-1646, assumiram uma forma clássica na revolução francesa de 1789 e finalmente se generalizaram com a vaga de revoluções que de 1846 a 1849 agitou toda a Europa, da Polónia até Portugal, da Inglaterra até ao sul da Itália. A partir de então entrou-se numa fase em que o Estado Restrito passou a cumprir plenamente o papel de órgão central do capitalismo. A burocracia governamental começou a ser capaz de impor a sua vontade às empresas.

Mas ao mesmo tempo, precisamente a partir dos meados do século XIX, o imperialismo europeu mudou radicalmente de carácter. Deixou de assentar num processo de trabalho escravista e em circuitos comerciais regidos pelas leis do mercantilismo, e adoptou uma produção e uma comercialização de tipo capitalista. Ora, isto permitiu ao Estado Amplo atingir uma nova fase.

Enquanto nas metrópoles o desenvolvimento do Estado Amplo com funções explicitamente políticas estava a ocorrer sob a tutela do Estado Restrito, nas colónias e nos países semicolonizados a emancipação política do Estado Amplo deveu-se à sua própria iniciativa. O colonialismo moderno na Índia e em África não começou com a soberania dos governos metropolitanos, mas directamente com a soberania de empresas. Tratava-se de grandes empresas que administravam territórios, cobravam impostos, emitiam dinheiro e tinham exércitos e burocracias próprios. O mesmo sistema, embora num âmbito muito mais modesto, foi aplicado na América Latina pelas companhias estrangeiras que aí abriram canais ou construíram vias férreas.

Nessa fase, porém, a proletarização da força de trabalho nas colónias era ainda incipiente. As empresas só podiam ser plenamente lucrativas se o capitalismo já estivesse em desenvolvimento, e nas colónias, na segunda metade do século XIX, tratava-se apenas de aplicar as primeiras medidas que pudessem iniciar este desenvolvimento. Os custos foram grandes demais e as companhias coloniais não conseguiram suportá-los. Para a instalação das Condições Gerais de Produção nos espaços colonizados e semicolonizados teve de se fazer apelo à generalidade dos capitais existentes nas metrópoles e de mobilizar capacidades económicas que ultrapassavam a estrita vocação colonial. Mas para isso as grandes empresas coloniais viram-se obrigadas a prescindir da sua soberania e a transferi-la para o Estado Restrito. Aliás, o que ocorreu não foi propriamente uma transmissão de soberania das empresas coloniais para o governo central, mas um processo mediante o qual as administrações de nativos e os exércitos, os bancos emissores e os tribunais coloniais, que se haviam primeiro integrado nas grandes companhias, foram destacados delas e, com os mesmos funcionários e os mesmos chefes, convertidos em instituições oficiais. Mas procedera-se entretanto a uma experiência prática em que o Estado Amplo funcionara durante décadas como o único aparelho governativo existente em vastíssimos territórios, o que foi decisivo para levar em seguida as empresas a assumirem nas metrópoles um papel político cada vez mais proeminente.

Contrariamente ao que julgam aqueles autores que dividem o capitalismo em centro e periferia, atribuindo ao centro todas as novidades e deixando à periferia as imitações tardias, o capitalismo tem desde o início sido um modo de produção integrado e, na verdade, multicentrado, no qual o papel inovador das chamadas periferias não é menos significativo do que o dos centros. Sem o seu estágio de soberania nos espaços coloniais as grandes empresas não teriam podido afirmar tão facilmente nas metrópoles um poder político próprio.

Nas metrópoles a burocracia governamental começou desde a segunda metade do século XIX a intervir no mercado de trabalho e na organização da assistência, embora em formas ainda incipientes. Isto significa que as questões relativas ao trabalho e às condições de vida dos trabalhadores passaram a ser incluídas nas Condições Gerais de Produção. A fase propriamente corporativa não é mais do que a definição das três esferas participantes neste inter-relacionamento – governo, patrões, sindicatos – e a estabilização das suas relações. Em resumo, o Estado Amplo fizera inicialmente surgir nas metrópoles um Estado Restrito capitalista; depois o Estado Amplo atingiu a maturidade nas colónias; e em seguida os Estados Restritos metropolitanos consagraram, nas instituições corporativas, o funcionamento do Estado Amplo enquanto aparelho político.

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O corporativismo é um quadro geral que permite analisar a globalidade do capitalismo, em todas as suas variantes e na sua evolução histórica. A organização corporativa desenvolveu-se tanto nos países economicamente mais evoluídos como nos retardatários. E, na prática, foi adoptada tanto pelas democracias como pelos fascismos e sistemas autoritários, e ainda pelo regime soviético. É certo que os fascismos foram explicitamente corporativistas, enquanto as democracias pretendem que a base da vida política são os indivíduos, na sua função de eleitores, e não os grupos de instituições articulados no corporativismo clássico. Mas o funcionamento real das democracias tem sido assegurado pelas relações tripartidas do corporativismo. Por vezes isto ocorre só informalmente, como nos países de economia liberal; noutros casos o corporativismo está previsto na lei, graças aos governos sociais-democratas. E, ainda que contrariamente à doutrina oficial, o corporativismo prevaleceu também na antiga União Soviética.

Este último aspecto é decisivo para entendermos as importantes transformações ocorridas no Leste europeu. Para a generalidade das pessoas, e mesmo para muitos estudiosos destas questões, a vida política soviética ter-se-ia resumido ao Partido Comunista e a vida económica ao plano central, ou seja, tudo se teria passado no âmbito do Estado Restrito. No entanto, as administrações de empresa e os sindicatos tiveram um papel muito considerável no funcionamento da economia e da sociedade soviéticas. O Partido Comunista, apesar de infiltrado em toda a sociedade, não constituía um quadro organizativo suficiente.

As reformas de Khruchtchev e os ensaios reformadores de Kossygin, em grande parte frustrados, destinavam-se a remodelar as relações entre o governo central e as grandes empresas, dando a estas maior autonomia.

No outro vértice do triângulo, a burocracia sindical soviética começou na década de 1930 a participar na gestão das empresas e a administrar os fundos da segurança social e o conjunto de estabelecimentos de repouso e férias, determinando os critérios da sua utilização. Isto deu aos dirigentes sindicais um enorme poder de controle sobre a classe trabalhadora, tanto mais que eram eles também a decidir as prioridades no acesso a todos os novos apartamentos. E na década de 1950 aumentou ainda a intervenção dos sindicatos na administração corrente das empresas, ao mesmo tempo que se reforçava o seu papel de distribuidores de serviços. Na URSS os serviços eram um componente muito importante – e em acréscimo – do salário familiar real. Enquanto em 1970 os pagamentos realizados pelos fundos de segurança social e outros tipos de serviços representavam 25,8% dos rendimentos totais dos trabalhadores, em 1987 elevavam-se a 29,9%. Isto significa que entre 1/4 e 1/3 do salário real era pago ao trabalhador mediante o sindicato. Os sindicatos soviéticos participavam directamente nas relações de assalariamento e, portanto, os seus dirigentes assumiam funções patronais. Precisamente por esta razão a totalidade da força de trabalho soviética tinha de estar inscrita nos sindicatos, senão perderia o direito a uma fracção substancial do salário. Aliás, uma lei de 1932 estipulou que os trabalhadores não filiados em sindicatos passassem a receber só metade da segurança social. O aparelho sindical era parte integrante do capitalismo de Estado. A burocracia sindical soviética agia como um departamento do governo e, ao mesmo tempo, como um departamento da administração das empresas, estreitando as relações entre o Estado Restrito e o Estado Amplo.

O funcionamento corporativo da economia da antiga União Soviética serviu de quadro para as transformações operadas nos últimos anos, em especial as privatizações e a remodelação do aparelho político central. Também neste aspecto a Rússia não foi diferente do resto do mundo, onde as privatizações vinham desde há muito a ser preparadas pela evolução das relações de força entre o Estado Restrito e o Estado Amplo. Hoje, mais de metade das empresas russas privatizadas está nas mãos de coligações formadas pelos seus administradores, que detêm uma minoria das acções da empresa, e pelos dirigentes sindicais, que controlam na prática a maioria das acções. Ficou assim assegurada uma notável continuidade social entre o antigo regime e o actual. Quanto às restantes empresas, aquelas que não foram adquiridas pelo capital transnacional passaram directa ou indirectamente a ser controladas pelo crime organizado.

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Um elemento importante na passagem à actual fase de supremacia do Estado Amplo é a economia paralela, ou economia informal. Sob este ponto de vista, ela pode definir-se como a economia que escapa não só à vigilância, mas inclusivamente à própria avaliação do Estado Restrito. Trata-se da economia exterior à contabilidade oficial. Ao mesmo tempo, porém, a economia informal é indispensável à economia oficial, encontrando-se para com ela numa situação real comparável à dos subcontratantes perante as grandes empresas.

Uma parte considerável da economia informal relaciona-se com o crime organizado. A ligação entre a economia criminal e a oficial é tanto mais estreita quanto, e desde há bastante tempo, os especialistas têm dificuldade em distinguir entre a passagem de capitais da esfera do crime organizado para a esfera da economia oficial e, em sentido contrário, o uso de meios ilegais e por vezes francamente criminosos por empresas situadas na economia oficial.

É neste contexto que se deve apreciar a posição de enorme importância ocupada pelo crime organizado na economia dos países que sucederam à União Soviética. Enquanto a URSS ainda existia, os planos centrais só funcionavam na prática porque havia um sector não reconhecido oficialmente que se encarregava, mediante um lucro ilegal, de fazer com que empresas que necessitavam de dados bens os obtivessem de empresas que os tinham em excesso. A economia paralela era tolerada pelo regime soviético, porque sem ela não se poderiam ir remediando as insuficiências do plano central. Dispondo de uma vastíssima rede de contactos e de grandes somas acumuladas clandestinamente, esse sector encontrou-se em posição privilegiada para aproveitar as facilidades abertas aos investimentos privados e, em seguida, para participar nas privatizações. Vemos que também aqui se verificou uma elevada continuidade social entre o capitalismo de Estado soviético e o actual capitalismo russo. A partir dessa base inicial o crime organizado pôde passar a interferir na totalidade da economia russa. Segundo cálculos governamentais, referidos em The Economist (19 de Fevereiro de 1994) e na Business Central Europe (Julho de 1994), 70% ou 80% das empresas privadas são obrigadas pelas organizações criminais a pagar-lhes entre 10% e 20% dos seus ganhos. O presidente da Comissão de Assuntos de Segurança do parlamento russo afirmou, segundo The Economist (9 de Julho de 1994), que o crime organizado controlava 81% das acções com direito de voto nas empresas privatizadas. E o Banco Central russo, a crer numa correspondência publicada em The Economist (13 de Maio de 1995), calcula que pelo menos 160 bancos são controlados pelo crime organizado. Segundo a mesma fonte, no ano de 1994 foram assassinados 35 banqueiros às ordens do crime organizado, ou seja, uma média de um em cada dez dias, se admitirmos duas semanas de férias para os assassinos.

E, tal como as economias legais que compunham a antiga esfera soviética se internacionalizaram, ligando-se às suas congéneres transnacionais, também a economia criminal se internacionalizou, juntando-se ao crime organizado mundial. Hoje a Rússia é provavelmente a principal base económica do crime organizado. Como as autoridades não levantaram nenhum obstáculo sério à legalização daqueles capitais acumulados ilegalmente, pode afirmar-se que o crime organizado mundial oficializou a sua actividade empresarial na Rússia e nos demais países procedentes da antiga União Soviética. Trata-se de um aspecto decisivo para o estudo do Estado Amplo contemporâneo.

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Na forma clássica do corporativismo era o Estado Restrito a exercer a hegemonia no triângulo governo + empresas + sindicatos. Na fase actual, porém, mesmo quando este triângulo se mantém, inverte-se a hierarquia e é o Estado Amplo a prevalecer. Para a compreensão destes aspectos os formalismos jurídicos não são só inúteis, mas contraproducentes. Embora as instituições pareçam frequentemente inalteradas e as vias do seu relacionamento também se afigurem as mesmas, modificou-se substancialmente a forma como este relacionamento se concretiza e a maneira como são usadas as instituições. Em todos os casos em que foram privatizadas empresas e administrações públicas, antes de serem formalmente vendidas ao sector privado já elas estavam desde há muito a ser geridas de maneira completamente privada. Ou então, se se preferir outra formulação, o sector privado pode adquirir empresas e administrações que até aqui haviam sido públicas porque a função de coordenação política central do Estado Amplo é cada vez mais acentuada. As chamadas privatizações estão na convergência destas duas linhas de explicação; trata-se de duas perspectivas para encarar o mesmo processo.

E assim se passou de um corporativismo caracterizado pela dominância do Estado Restrito para um corporativismo sujeito à dominância do Estado Amplo. O Estado Amplo adquiriu hoje a hegemonia relativamente ao Estado Restrito. Para entender esta transformação é necessário recordar, por um lado, que as oportunidades de contacto directo entre as empresas aumentaram muitíssimo, devido à transnacionalização do capital e à multiplicidade das suas formas de concentração; e, por outro lado, deve destacar-se o papel dos grupos de pressão enquanto reprodução informal, a partir do Estado Amplo, dos canais oficiais de relacionamento instituídos a partir do Estado Restrito. As grandes empresas podem já inter-relacionar-se directamente, sendo-lhes cada vez menos necessária a mediação do Estado Restrito.

Igualmente na Rússia contemporânea se assiste ao declínio do Estado Restrito e ao reforço do Estado Amplo. Já vimos que na sua esmagadora maioria, e excluindo as filiais das companhias transnacionais, a actual economia russa se pode caracterizar como sindical-criminal. O ridículo em que caiu a vida política daquele país é a expressão mais visível desta decadência da autoridade do Estado Restrito, e o procedimento completamente discricionário das instituições decorre da importância assumida pelo crime organizado no interior do Estado Amplo.

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A hegemonia adquirida pelo Estado Amplo levou o corporativismo a entrar numa crise grave. No triângulo corporativo os sindicatos eram o vértice com menos peso e a sua importância devia-se ao jogo de forças entre o governo e as empresas. Perante a subalternização do Estado Restrito restam duas opções à burocracia sindical.

Uma dessas opções consiste em apoiar o mais possível a capacidade de iniciativa dos governos, procurando encontrar neles um aliado nas negociações com os patrões. E chega-se então ao ridículo de ver os governos, reconhecendo o declínio da esfera estatal que representam, defenderem uma orientação neoliberal, enquanto a burocracia sindical pretende persuadi-los de que eles continuam a ser importantes. No Brasil esta situação foi bem ilustrada com o exemplo das Câmaras Sectoriais, em que os sindicatos se esforçaram por convencer o governo federal a assumir, perante os empresários, um papel que ele não é já capaz de desempenhar. Parece que as situações se inverteram e que a burocracia sindical, habituada tradicionalmente a amparar-se no Estado Restrito, se oferece agora como muleta. Fraco recurso.

Outro caso ilustra também a necessidade que muitos dirigentes sindicais sentem de se apoiar no Estado Restrito. A Informação Bancária (nº 226, Abril de 1995), editada pelo Sindicato dos Bancários de Catanduva, publicou um artigo reproduzido na Quinzena CPV (30 de Abril de 1995): «A MP 955/95, reedição da 794/94, é uma tentativa de golpe na organização dos trabalhadores. Coloca o patrão e o empregado (sozinho, sem garantia legal) frente a frente para “discutir” (ditar as regras do jogo) a participação nos lucros, ao invés de Sindicato/empregado-empresário-governo. […] A MP pode agradar, é claro, à Fiesp e a grandes sectores empresariais, na medida em que reduz o poder dos sindicatos, estabelecendo uma relação directa patrão-empregado […]». Este artigo revela uma mentalidade muito corrente entre os dirigentes sindicais, que só com o respaldo do Estado Restrito se sentem fortes perante os patrões. Como se os governos estivessem menos vinculados ao capitalismo do que os empresários!

Ainda dentro da estratégia que consiste em privilegiar a aliança com o Estado Restrito está a luta dos sindicatos contra as privatizações. Mas os trabalhadores só se mobilizam nestas lutas quando sentem que os seus empregos ficam ameaçados pela privatização. Ora, as privatizações, antes de serem formalizadas no texto da lei, já haviam sido postas em prática na realidade, na medida em que tais empresas vinham a ser geridas como privadas, consoante os mesmos critérios e finalidades. Por isso, até naqueles casos em que continuam públicas, as empresas passam a adoptar sistemas de gestão que põem igualmente em causa a estabilidade do emprego. Além disso, ainda que existam todas as garantias legais e até constitucionais, o desemprego e a economia informal servem, à revelia do quadro oficial, para flexibilizar o mercado de trabalho. Este conjunto de razões leva os trabalhadores, na generalidade dos países, a mobilizar-se cada vez menos contra as privatizações, deixando os sindicatos bastante isolados nesta estratégia.

Perante o declínio do Estado Restrito, a outra opção para os dirigentes sindicais consiste em estreitar a ligação ao vértice hegemónico do triângulo corporativo, ou seja, às empresas, ao Estado Amplo. Mas como podem então os sindicatos evitar que a sua esfera tradicional de acção seja absorvida pelos departamentos de pessoal das empresas? Com efeito, os trabalhadores não vêem nenhuma diferença entre um sindicato burocrático e um departamento de pessoal; e os patrões preferem dispor de um departamento integrado no seu organograma do que lidar com uma instituição que, apesar de burocratizada, tem uma margem de independência e cujos dirigentes possuem interesses próprios. Hoje, muitas grandes empresas preferem regular directamente o mercado de trabalho do que recorrer para isso à burocracia sindical.

Se são os próprios sindicatos reformistas a apresentar como sua única razão de ser a conquista de salários mais elevados, então é perfeitamente lógico que os trabalhadores se desinteressem dos sindicatos quando eles não conseguem assegurar nem sequer esta função. Vejamos o exemplo dos Estados Unidos, consoante um artigo de Jerold L. Kellman no 1985 Britannica Book of the Year (pags. 288-289), o anuário da Encyclopædia Britannica: «Com o declínio do número de sindicalizados, diminuiu também o poder de negociação dos sindicatos. Na primeira metade de 1984 os contratos colectivos de trabalho concederam aos trabalhadores sindicalizados aumentos salariais anuais médios no montante de 2,8%, menos de metade do que os sindicatos haviam conseguido obter três anos antes. Na verdade, os salários dos trabalhadores não-sindicalizados aumentaram a uma taxa superior à dos sindicalizados. […] os dirigentes sindicais admitiram em privado que estava encerrada a época das grandes conquistas salariais. A preocupação principal consiste agora em garantir os postos de trabalho e – no caso de um pequeno número de empresas – conseguir a representação dos trabalhadores nos conselhos de administração». Com esta inflexão da sua estratégia, ao procurarem tornar-se membros de conselhos de administração, os dirigentes sindicais substituem a perda da base trabalhadora por um aumento da base capitalista. De gestores do mercado de trabalho, esforçam-se por se converter em gestores directos do capital. É este um dos aspectos do processo que denomino capitalismo dos sindicatos.

Estes dilemas têm no Brasil algumas repercussões curiosas. Na Quinzena CPV (15 de Abril de 1995) reproduz-se um artigo, publicado originariamente em Debate Sindical (nº 18, Abril-Junho de 1995), da autoria de Altamiro Borges, Presidente do CES, Centro de Estudos Sindicais. O autor defende a imposição legal da unicidade sindical e a contribuição sindical obrigatória com o argumento de que, sem isso, cair-se-ia nos sindicatos de empresa. Altamiro Borges parece conhecer suficientemente bem os sindicatos para pôr de parte qualquer hipótese de eles se apoiarem na classe trabalhadora, excluindo que se chegue a uma unidade sindical baseada na solidariedade das lutas e que se obtenham fundos mediante quotizações voluntárias. Com efeito, reduzidos a uma instituição burocrática, só resta aos sindicatos ou apoiarem-se no Estado Restrito ou no Estado Amplo. Involuntariamente, o autor daquele artigo desvenda as contradições da própria orientação que defende.

Neste contexto os dirigentes sindicais têm ainda uma possibilidade de manter os seus privilégios sociais. Se a aliança com os governos já não lhes garante força política e se grande parte das empresas já não está interessada no aparelho sindical enquanto regulador do mercado de trabalho, os sindicatos convertem-se então eles próprios em empresas capitalistas tanto investindo os seus fundos na aquisição de empresas produtoras de bens industriais ou de serviços como manipulando os fundos de pensões em cuja direcção participam e tornando-se assim empresas financeiras. Num livro publicado em 1987 pela editora Vértice, com o título Capital, Sindicatos, Gestores, procurei descrever em termos simples, e dando bastantes exemplos, aquilo que denomino capitalismo dos sindicatos. Desde então a minha análise só se tem confirmado e o facto de os sindicatos verem diminuir o número de filiados parece levá-los a reforçar o seu empenho na esfera empresarial. Com efeito, se a ampliação da base de apoio entre os trabalhadores era considerada sobretudo como uma forma de aumentar as receitas, nada de mais natural do que compensar o declínio das quotizações através de uma participação crescente nos benefícios do capital.

Um processo inesperado de capitalismo dos sindicatos pode agora ser observado no Brasil. As somas muito consideráveis disponibilizadas pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador têm servido para vincular as centrais sindicais à tutela financeira do governo, assegurando assim a sua docilidade e a sua dependência. Numa nova modalidade de assistencialismo, e em estreita colaboração com os chefes de empresa, os sindicatos dedicam-se a arranjar colocação para os numerosos trabalhadores despedidos e em ministrar cursos de micro-empresário a trabalhadores terceirizados. Esta tentativa de gestão das economias falidas tem mesmo sido apresentada como um exemplo de solidariedade económica e há quem, com toda a seriedade, pretenda que o socialismo se poderia desenvolver através da articulação entre as empresas capitalistas, cada vez mais concentradas e produtivas, e aquele sector débil e precário. Seria difícil encontrar um exemplo mais flagrante de colaboração dos sindicatos com o capital, procurando remendar superficialmente alguns dos efeitos mais nocivos da actual reestruturação económica, em vez de aproveitarem precisamente tais efeitos para mobilizar os trabalhadores contra o capitalismo. Quando levanto estas questões junto a dirigentes de sindicatos da CUT ouço invariavelmente a réplica de que, se eles não se candidatassem às verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador, todas essas somas iriam para a Força Sindical. E, assim, a concorrência económica entre as centrais sindicais tem como efeito homogeneizar as suas orientações políticas.

Outro caso, o da antiga União Soviética, que também não mencionei no livro Capital, Sindicatos, Gestores, merece ser visto com certo detalhe, pois as suas repercussões continuam a sentir-se na Rússia actual. Vários especialistas se espantam pelo facto de o desemprego na Rússia ser muito reduzido. Mesmo as pesquisas feitas directamente no mercado de trabalho, apesar de revelarem um número de desempregados maior do que o registado pelas estatísticas oficiais, mencionam apenas 6,5% de desemprego. Richard Layard, um economista britânico exercendo funções de consultor do governo russo, atribui esta taxa relativamente baixa ao facto de que, como sintetiza The Economist (18 de Fevereiro de 1995), «os assalariados preferem aceitar uma grande diminuição dos salários reais a perder os empregos». E a mesma revista explica o motivo desta preferencia: «Como as pensões de desemprego são muito baixas e os serviços sociais, tais como escolas e hospitais, estão frequentemente ligados às fábricas, compreende-se que os trabalhadores queiram permanecer nas empresas». As dimensões desta situação avaliam-se quando sabemos que, segundo Guy Standing, referido no mesmo número de The Economist, se contarmos como desempregados todos os que estão com um horário de trabalho reduzido ou na disponibilidade e sem receber salários, a taxa de desemprego na Rússia, excluindo o sector agrícola, é de 35%. Ora, vimos há pouco que eram os sindicatos soviéticos a administrar os fundos de segurança social e a determinar o acesso aos serviços hospitalares, desportivos e culturais relacionados com as empresas. Na Rússia actual manteve-se a importância sócio-económica dos sindicatos, o que explica que uma percentagem muito considerável da força de trabalho continue vinculada às empresas, em boa parte mediante fundos e serviços administrados pelos dirigentes sindicais, em vez de depender do governo central, mediante pensões de desemprego. Nestas condições confirma-se o papel dos sindicatos enquanto distribuidores de rendimentos salariais, ou seja, enquanto patrões capitalistas.

Compreendemos melhor, assim, a razão por que tantas empresas russas foram adquiridas por coligações dos seus gestores e dos seus trabalhadores, relativamente a quem os sindicatos exercem as funções de representantes naturais. Lê-se em The Economist (18 de Fevereiro de 1995): «A primeira fase [das privatizações] começou em 1992, quando o Estado vendeu pequenas empresas, tais como lojas e restaurantes. Na fase seguinte, que começou em Dezembro de 1992 e terminou dezoito meses mais tarde, foram leiloadas, em troca de senhas, 15.000 médias e grandes empresas, empregando no total 86% da força de trabalho industrial russa. Na maior parte dos casos os leilões mediante senhas deram aos trabalhadores e aos gestores a participação dominante nas suas empresas». E a mesma revista observa em 5 de Novembro de 1994: «Com as privatizações, os assalariados e os gestores acabaram geralmente por ficar com uma participação de 51% nas suas empresas. Eles estão interessados em salários elevados e garantia de emprego […]». Os trabalhadores, que em cada caso tiveram de votar para aprovar a compra das acções, garantem uma certa estabilidade do emprego e a possibilidade de continuar a ter acesso a bens e serviços através da empresa. Os sindicatos, além de representarem os trabalhadores na gestão da firma, consolidam a sua posição enquanto instituição que organiza aqueles serviços e lhes regulamenta o acesso. E os gestores permanecem na direcção da empresa. Reproduz-se assim a conjugação de interesses sociais que caracterizou a era soviética.

Quem parece perder em todo este processo é a burocracia do Estado central. Trata-se de um declínio do Estado Restrito e de um reforço do Estado Amplo, entendido aqui como uma coligação de gestores de empresas e de gestores sindicais no quadro das empresas. A expressão política desta situação consiste no facto de o governo presidido por Tchernomyrdin, até hoje o mais duradouro, não ter nunca tido, nem procurado, qualquer apoio parlamentar. Ele emanava directamente das administrações das grandes empresas, em especial do aparelho militar-industrial, e dos dirigentes sindicais que participaram activamente nas privatizações.

Perante a inoperância da aliança política entre os sindicatos e o Estado Restrito, o exemplo russo esclarece alguns aspectos da outra via que se abre à sobrevivência das burocracias sindicais e dos seus privilégios, a transformação em proprietários colectivos capitalistas. Mas não haverá, além dessa estratégia empresarial dos seus dirigentes, nenhum outro caminho para os sindicatos?

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Talvez exista para os sindicatos uma alternativa, oposta politicamente às outras duas, que consistiria no abandono do quadro corporativo e na adopção de uma orientação inteiramente diferente da que tem sido seguida, tornando-se – ou voltando a ser – órgãos de luta contra o capitalismo, em vez de se resumirem a instâncias negociadoras de medidas de carácter capitalista. Mas isto não pode dever-se à iniciativa das burocracias sindicais, que seriam as primeiras a perder com tal transformação. Uma mudança tão radical só poderá ser provocada pelos próprios trabalhadores, quando se difundir um novo surto generalizado de lutas. Nada garante, porém, que o recomeço da ofensiva pela classe trabalhadora venha a insuflar um espírito novo nos sindicatos. Pode ser que os destrua ou os relegue para um plano meramente secundário. Na última fase revolucionária, desde a década de 1960 até ao começo da década de 1980, assistimos ao choque entre as estruturas de tipo sindical e outro tipo de estruturas, democráticas e abertas aos anseios da base, as comissões de trabalhadores.

O último destes exemplos é a Polónia em 1980 e 1981. Embora se refira sempre o papel desempenhado pelo sindicato Solidariedade, Cláudio Nascimento mostrou a importância decisiva que as comissões de trabalhadores tiveram naquele movimento (vejam-se os seus livros Movimento pela Autogestão na Polónia, Lisboa: Base, 1983 e Rosa Luxemburgo e Solidarnosc. Autonomia Operária e Autogestão Socialista, São Paulo: Loyola, 1988).

O Brasil fornece também uma boa ilustração do conflito entre as duas estruturas, dos sindicatos e das comissões de trabalhadores. As comissões de trabalhadores estiveram na génese do grande surto de lutas que levou posteriormente à fundação da CUT, e já naquela altura ficou claro o embate entre os dois tipos de instituição. Este problema foi analisado na tese de doutorado de Valdemar Pedreira, Comissões de Fábrica: Um Claro Enigma (São Paulo: Entrelinhas, [Natal]: Cooperativa Cultural da UFRN, 1997). A estrutura sindical prevaleceu na fundação da CUT, e que sucedeu em seguida às comissões de trabalhadores? Lê-se na Chave Geral/O Transformador (6 de Setembro de 1994), transcrito pela Quinzena CPV (31 de Outubro de 1994): «[…] a estrutura orgânica torna-se um gigante dos pés de barro se não se pode contar com a organização dos trabalhadores no local de trabalho. E aí talvez esteja, depois de uma década de existência, o calcanhar de Aquiles da Central [CUT]. Com as conhecidas excepções dos metalúrgicos e dos bancários, as categorias urbanas ainda não se conseguiram organizar da porta da empresa para dentro». Aliás, o que se passou com o chamado «novo sindicalismo» no Brasil foi exactamente o contrário. Primeiro surgiram as organizações no local de trabalho, que asseguraram ao movimento uma dinâmica ascendente. Esta dinâmica foi institucionalizada mediante o processo de criação de uma nova central sindical. Em seguida os sindicatos, para assegurarem a sua hegemonia burocrática, esforçaram-se por desarticular as comissões de trabalhadores. Finalmente, lastimam-se por não terem base. Mas as direcções sindicais desejam uma base que seja construída a partir do topo, não vá suceder que a base, se se reconstruir a ela própria, decida mudar de topo, ou mesmo não ter topo nenhum.

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As principais empresas, que empregam tecnologias avançadas, exploram hoje cada vez mais as aptidões intelectuais dos trabalhadores. Aproveitam não só a sua capacidade de raciocinar no processo de trabalho, mas igualmente a sua competência organizativa. Estas novas formas de exploração difundiram-se velozmente, em geral sob os nomes de Toyotismo e Qualidade Total. Mas qual a origem deste surto reorganizativo do capital?

A partir dos últimos anos da década de 1950, mais cedo ainda em alguns países da esfera soviética, e até ao começo da década de 1980, a classe trabalhadora desencadeou em todo o mundo uma fase ofensiva com características inteiramente inovadoras. Antes de mais, estas lutas eram decididas e conduzidas fora das instituições sindicais e dos mecanismos de negociação legalmente instituídos, por isso começaram a ser denominadas greves «selvagens», ficando depois conhecidas pelo nome de movimento autónomo. A própria base, em assembleias de empresa e em comissões de trabalhadores, decidia o encaminhamento das lutas. Ao exercerem assim na prática o controle sobre o movimento, os trabalhadores apontaram a solução de um dos problemas mais dramáticos do socialismo, que levara ao fracasso de todas as experiências revolucionárias, sem excepção alguma. O socialismo clássico limitou-se a pôr fim à propriedade privada do capital, atribuindo a direcção de toda a economia, e portanto também de toda a sociedade, a uma classe de gestores. Ou seja, a apropriação privada do capital acabara, mas os gestores, na medida em que detinham o controle absoluto dos mecanismos económicos, converteram-se em proprietários colectivos de todo o capital. Os trabalhadores, pela sua própria iniciativa, haviam mudado de patrões, continuando a ser explorados.

Nestas condições, ao exercerem um controle directo sobre as lutas, os trabalhadores nas décadas de 1960 e 1970 mostraram que a questão decisiva não diz respeito à mera propriedade formal do capital, mas à posição ocupada por cada um de nós na actividade económica. Por outras palavras, não se trata de um problema circunscrito às relações de propriedade, mas da forma como são organizadas as relações sociais de trabalho. Em numerosíssimos casos os trabalhadores, naquelas décadas, prosseguiram a sua luta ocupando as empresas, e mantiveram-nas eles mesmos em funcionamento, prescindindo dos patrões e dos principais administradores. Mas como o controle do movimento era directamente assegurado pela base, os trabalhadores, ao tomarem decisões sobre a actividade produtiva, necessariamente violaram a disciplina instituída e começaram a remodelar as hierarquias no interior da empresa. Durante os períodos em que estiveram nas mãos dos trabalhadores, as empresas alteraram as suas formas de funcionamento e reorganizaram-se internamente. Os trabalhadores não se haviam limitado a reivindicar o fim da propriedade privada. Mostraram na prática que eram capazes de levar o processo revolucionário até um nível muito mais fundamental, alterando as próprias relações sociais de trabalho e de produção.

Esta foi uma inovação sem precedentes, e de consequências decisivas. Em primeiro lugar, aquelas lutas prosseguiram fora do consenso estabelecido entre os dirigentes sindicais e os patrões, no qual assentava o chamado Estado de Bem-Estar Social. Assim, não foram os capitalistas quem nos últimos anos tomou a iniciativa de desmantelar os mecanismos da previdência social, para inaugurar o neoliberalismo. Foram os próprios trabalhadores, e desde há várias décadas atrás, quem marginalizou os sindicatos e contestou a convergência de interesses que constituía a base desse Estado do Bem-Estar. Em segundo lugar, ao remodelar, em numerosos casos, as relações de trabalho e a disciplina de empresa, o movimento operário pôs em causa a legitimidade da versão clássica do socialismo, que se havia limitado a alterar as formas de propriedade, mas mantendo no essencial as relações de produção capitalistas. Ao mesmo tempo que o movimento de lutas autónomas superou o sistema vigente nos países ocidentais, superou igualmente o capitalismo de Estado soviético.

Por isso o movimento se desenvolveu à escala mundial. Lutas deste tipo ocorreram na Europa ocidental, especialmente na França, na Itália e em Portugal, mas também na Grã-Bretanha, na Espanha e ainda noutros países. A condução autónoma das lutas e a formação de comissões de trabalhadores tiveram igualmente enorme importância na Europa de Leste. Em Junho de 1953 a insurreição operária de Berlim, que se estendeu a muitas outras cidades e instalações fabris da Alemanha oriental, eclodiu espontaneamente e teve como alvo imediato os organismos sindicais. Comités revolucionários espontâneos e conselhos operários formaram-se na grande insurreição húngara de 1956 e só foram liquidados pela invasão das tropas soviéticas. Embora de maneira mais atenuada, também as lutas de facções no interior do Partido Comunista checoslovaco, em 1968, reflectiram as pressões dos trabalhadores por uma auto-organização no âmbito das empresas. E na Polónia, depois das importantes revoltas operárias de 1956, de 1970 e de 1976, a constituição de comissões de trabalhadores à margem do sindicalismo oficial explica a extraordinária difusão do processo revolucionário em 1980 e 1981. Os temas e a prática da autonomia marcaram ainda uma presença significativa nos Estados Unidos e no Canadá, bem como em diversos países da América do Sul, nomeadamente no Brasil. E o movimento autónomo inspirou a mais vasta e profunda experiência de luta de classes daquele período, ocorrida na China, no contexto da chamada Revolução Cultural, em 1966 e 1967. Pela primeira vez na história do movimento operário um mesmo tipo de lutas se desenvolveu praticamente por todo o mundo, revelando que a classe trabalhadora atingira globalmente um estágio de formação idêntico.

A capacidade de auto-organização demonstrada pelos trabalhadores perturbou muito seriamente o funcionamento do capitalismo, sendo talvez o factor mais importante no desencadear de uma gravíssima crise económica em 1974. Mas os capitalistas conseguiram reorganizar-se e, ao fazê-lo, criaram um quadro social diferente, introduzindo novos problemas e desafios, o que impediu aquelas formas de luta de prosseguirem da mesma maneira. As classes dominantes readquiriram assim um vasto espaço de manobra e retomaram o ascendente. É esta fase que estamos hoje a atravesar.

A reorganização capitalista assumiu, como aliás sempre acontece, a forma de uma recuperação dos temas que haviam sido propostos pela classe trabalhadora e de uma assimilação das instituições criadas naquelas lutas. Os trabalhadores haviam-se mostrado capazes de controlar directamente não só o movimento reivindicativo, mas o próprio funcionamento das empresas. Eles demonstraram, em suma, que não possuem apenas uma força bruta, sendo dotados também de inteligência, iniciativa e capacidade organizacional. Os capitalistas compreenderam então que, em vez de se limitarem a explorar a actividade muscular dos trabalhadores, privando-os de qualquer iniciativa e mantendo-os enclausurados nas compartimentações estritas do taylorismo e do fordismo, podiam multiplicar o seu lucro explorando-lhes a imaginação, os dotes organizativos, a capacidade de cooperação, todas as virtualidades da inteligência. Foi com este fim que se desenvolveram a tecnologia electrónica e os computadores e que se remodelaram os sistemas de administração de empresa, implantando-se o toyotismo, a qualidade total e outras técnicas similares de gestão.

No final do século XIX e no começo do século XX, o taylorismo destinara-se a integrar no processo produtivo uma classe trabalhadora cujos membros, na sua grande maioria, haviam sido proletarizados só muito recentemente. Milhões e milhões de camponeses abandonavam então as suas terras de origem e estabeleciam-se nas cidades, tanto nos centros urbanos mais próximos como, do lado de lá do oceano, nas grandes metrópoles da América do Norte e do Sul. Sem qualquer habituação aos ritmos da indústria e mesmo ao tipo de vida urbano, estas pessoas tinham de ser ensinadas de maneira muito rápida a trabalhar com a maquinaria mais moderna e tinham de ser integradas de modo maciço na disciplina da empresa. Isto foi conseguido através do taylorismo. Destinado a massas proletárias sem uma verdadeira experiência da actividade industrial, o taylorismo pressupunha que os trabalhadores fossem incapazes de compreender mais do que uma operação de trabalho. Tratava-se de uma técnica de gestão adequada a uma situação em que cada um dos agentes conhecia apenas o seu âmbito de laboração imediato.

Mas o facto de um trabalhador só saber executar as operações que correspondiam ao posto por ele ocupado acarretava grandes inconvenientes para os capitalistas. Especialmente grave foi a dimensão colossal atingida pelas empresas onde o taylorismo era aplicado. Com efeito, não podendo aproveitar economias de escala humanas – já que cada trabalhador se limitava a um único tipo de operação – essas empresas tiveram de se concentrar nas economias de escala materiais. Sucede, porém, que as economias de escala materiais têm rendimentos decrescentes, e a partir de um dado limiar os benefícios convertem-se em custos. A recuperação da capacidade de auto-organização manifestada pelos trabalhadores permitiu aos capitalistas superar este impasse. Um trabalhador que raciocina no acto de trabalho e que conhece mais dos processos tecnológicos e económicos do que os aspectos estritos que estão no seu âmbito imediato é um trabalhador que pode ser tornado polivalente. É este o fundamento das economias de escala humanas. Cada trabalhador pode realizar um maior número de operações, substituir outros e coadjuvá-los. A cooperação fica reforçada no processo de trabalho, aumentando por isso as economias de escala, em benefício do capitalismo.

Em conclusão, as características assumidas hoje pela reestruturação capitalista resultam do desvirtuamento e da recuperação de formas de luta prosseguidas pelos trabalhadores em todo o mundo nas décadas de 1960 e 1970. Os trabalhadores, que se haviam mostrado capazes de se organizarem nas lutas, foram depois levados a auto-organizar a sua submissão ao capital.

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A reestruturação da classe explorada implicou uma remodelação das classes dominantes. A partir do momento em que os trabalhadores se auto-organizam sob a égide do capital, tornam-se dispensáveis vários níveis intermédios de chefia. Ou seja, encarregando-se da sua própria fiscalização, os trabalhadores permitem aos patrões reduzir os custos de vigilância.

As burocracias sindicais foram igualmente atingidas pela reorganização da classe trabalhadora. Os sindicatos surgiram no século passado para encabeçar lutas que os trabalhadores não conseguiam dirigir eles próprios. Um movimento operário cheio de elementos recém-proletarizados, vindos do campo, sem noção de conjunto dos processos técnicos e económicos, era incapaz de comandar directamente as lutas. Teve para isso de se criar uma burocracia – os dirigentes sindicais. Os sindicatos foram sempre burocráticos. Desde que as bases se mantenham passivas, ou pelo menos sejam incapazes de assumir elas próprias a condução dos processos, inevitavelmente as direcções se burocratizam. O carácter revolucionário do primeiro sindicalismo vinha do facto de não ser cooptado pelos patrões e se destinar mais à luta do que à negociação, mas isto não significa que não fosse burocrático. Tratava-se de uma burocracia com uma actuação radical.

Um bom exemplo destes problemas é a transformação operada nos sindicatos anarquistas espanhóis pela guerra civil de 1936-1939. Até então os dirigentes anarco-sindicalistas, embora formassem indubitavelmente uma burocracia, pois perpetuavam-se em funções de que assumiam o controle exclusivo, desempenhavam ao mesmo tempo um papel revolucionário, sujeitando-se a todo o momento a ser assassinados pelo exército ou pelos pistoleiros dos patrões e a ser torturados nas cadeias. A partir de 1936, porém, com a entrada desses mesmos dirigentes anarquistas para as instituições governativas da zona republicana, desenharam-se duas tendências no movimento sindical: a nível das empresas e no âmbito das aldeias, os sindicatos procuraram levar a cabo uma colectivização autogerida; em sentido contrário, porém, as instâncias sindicais centrais, nomeadamente na Catalunha, prosseguiram uma forma de organização da economia próxima do capitalismo de Estado, aplicando uma modalidade de capitalismo dos sindicatos. O carácter burocrático da direcção anarco-sindicalista revelou então plenamente os seus efeitos negativos.

Os dados do problema alteraram-se, todavia, nas décadas de 1960 e de 1970, quando as lutas dos trabalhadores, em vez de levarem à constituição de burocracias sindicais, manifestaram a presença de formas de auto-organização. Sob o ponto de vista da base social que tem tradicionalmente sustentado os sindicatos, isto significa que eles ficaram duplamente condenados. Na época de plenitude do movimento autónomo os sindicatos foram ultrapassados enquanto quadro de luta contra o capital. E hoje os sindicatos aparecem marginalizados enquanto quadro de negociação com os capitalistas. Com efeito, se os trabalhadores se organizam em equipas no interior das empresas que aplicam as técnicas de gestão mais modernas, e se estas equipas são reconhecidas pelos patrões enquanto unidades básicas do processo produtivo, então as negociações podem ser feitas entre as equipas e a administração da empresa, sem necessidade de intervenção dos sindicatos. Além disso, as relações entre os trabalhadores no interior de tais equipas são mais democráticas do que as relações existentes no interior dos sindicatos entre os meros filiados e as direcções – o que aliás não é difícil. Difícil, nos dias de hoje, é encontrar instituições mais hierarquizadas e antidemocráticas do que os sindicatos. Assim, aqueles trabalhadores nem necessitam da intervenção dos sindicatos no seu relacionamento com os patrões, nem se reconhecem na forma de funcionamento dos sindicatos.

A remodelação dos sistemas de gestão capitalistas, porém, só atinge uma percentagem reduzida de trabalhadores, aqueles que têm emprego estável em grandes companhias onde são aplicadas as tecnologias mais modernas. Os trabalhadores terceirizados ficam alheios a este quadro e mais excluída ainda é aquela mão-de-obra que sobrevive, ou morre, entre o desemprego e o trabalho altamente precário. Os trabalhadores deste tipo não se encontram inseridos num processo de laboração que sirva ao mesmo tempo de quadro negocial com os patrões, e podia pensar-se que, em princípio, estivessem dispostos a apoiar os sindicatos, ou mesmo precisassem deles. Mas não é o que sucede, porque tanto os trabalhadores terceirizados como os marginalizados estão de tal maneira dispersos e fragmentados que é muito difícil conseguir a sua reunião mediante as formas usuais de organização sindical. E isto torna ainda mais delicada a situação das burocracias sindicais.

Em suma, os trabalhadores beneficiando de emprego estável e tendo interesse em defender a continuidade dos seus postos de trabalho, e que por isso poderiam constituir a base social dos sindicatos, estão hoje inseridos em formas de organização social e profissional que lhes torna os sindicatos, não só dispensáveis, como antipáticos. Os restantes trabalhadores, que poderiam ver uma utilidade nos sindicatos e cuja fragmentação lhes tornaria mesmo necessária a existência de burocracias sindicais, estão de tal modo dispersos que escapam aos moldes habituais de organização sindical.

Nos nossos dias a crise do movimento operário afecta mais directamente os reformistas do que os anticapitalistas. A realização dos objectivos mais radicais pode parecer muito distante, mas o movimento autónomo das décadas de 1960 e 1970 deixou o seu conteúdo muito claro e traçou as grandes linhas de um programa positivo. Trata-se de acabar com a exploração económica e a opressão política mediante o controle directo exercido sobre as lutas, em primeiro lugar e, depois, sobre os processos de trabalho. Para os reformistas, porém, foi o próprio conteúdo da sua política que deixou de ter significado: o Estado Restrito, que constituía a sua principal base de operações, perdeu o vigor; os mecanismos negociais do Estado de Bem-Estar Social foram ultrapassados pelos trabalhadores, e os capitalistas instauraram em seu lugar o neoliberalismo; declinou o sistema corporativo de regulamentação do mercado de trabalho; e acabou a especificidade da social-democracia. Por isso a única perspectiva que hoje se oferece ao reformismo é a neoliberal. Mas o neoliberalismo caracteriza-se precisamente por reduzir cada vez mais o lugar dos sindicatos. Na perspectiva neoliberal o futuro que se apresenta aos dirigentes sindicais, não sendo já o de organizadores do mercado de trabalho, é o de proprietários colectivos de empresas e manipuladores de fundos públicos. A alternativa parece ser, ou uma recriação do movimento operário anticapitalista, ou um desenvolvimento do capitalismo dos sindicatos.


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