ECOLOGIA DA TERRA E SANGUE

João Bernardo


O mais elucidativo nas ideologias ecológicas, como geralmente em todas as formas de pensamento, são os pressupostos. Todos os ecológicos admitem, implicitamente quando não o fazem explicitamente, dois axiomas fundamentais – o mito da natureza e o mito das raízes.

A ideia de que a civilização industrial rompeu o equilíbrio da natureza baseia-se, como não é difícil entender, na suposição de que esse equilíbrio tivesse alguma vez existido. Não parece incomodar muito os ecológicos o facto de a actividade científica contemporânea, tanto na física como na química e na biologia, adoptar como modelo o desequilíbrio e o restabelecimento de um equilíbrio sempre precário, concebido por sua vez em termos de novo desequilíbrio. A importância assumida desde a revolução quântica pelo conceito de energia, e as repercussões que este conceito tem tido em todos os demais domínios do pensamento, quer nas ciências da natureza quer nas ciências humanas, ilustram as consequências inerentes ao postulado do desequilíbrio. A energia é, ao mesmo tempo, a emanação do desequilíbrio e a condição para o estabelecimento de um patamar de equilíbrio provisório, ele mesmo internamente desequilibrado.

Ao postularem o equilíbrio, e ao demonizarem a indústria por haver introduzido o desequilíbrio, os ecológicos retomam a perspectiva da Física Ariana e da sua visão romântica da natureza. O aspecto talvez fundamental na crítica que Lenard, Stark e os seus seguidores fizeram à física quântica, acusando-a de cosmopolita e, por isso, judaica, dizia respeito aos métodos de experimentação. Contra as técnicas de experimentação dedutivas e inteiramente abstractas introduzidas por Einstein, ou que ele pelo menos elevou a níveis nunca antes alcançados, os partidários da Física Ariana pretendiam que o cientista se colocasse inicialmente em comunhão com a natureza e, a partir daí, como que refizesse no seu cérebro os percursos da natureza. De um lado temos a dissecação mediante o uso da análise e a definição das leis em termos próprios ao cientista, pondo-se inteiramente de lado a preocupação de repetir os processos naturais, considerados agora não só exteriores à actividade científica, mas propriamente incognoscíveis. Do outro lado, a intuição de uma síntese era tida como prévia à formulação de quaisquer análises e a acção do cientista devia preservar a pretendida unidade natural, em vez de a fraccionar e desarticular mediante a inteligência. Enquanto para a postura inaugurada pela física quântica a natureza se destina apenas a ser desestruturada, e a sua reconstituição numa nova estrutura ocorre no plano exclusivamente intelectual, para os sectários da Física Ariana a natureza era uma mãe inviolável e quem quisesse conhecer-lhe os segredos tinha de regressar ao ventre materno. Uns são os destruidores do mito da natureza, os outros eram os seus sumos sacerdotes.

O que sustentava esta dicotomia era uma profunda divergência quanto à concepção de tradição. Para a Física. Ariana a natureza era uma mãe eterna e eternos eram os seus mistérios, independentes do frenesi humano. Partindo de uma comunhão com a natureza, o cientista colocar-se-ia no ponto central de toda a tradição, no fundamento mais sólido das pretensas imutabilidades, E é precisamente uma postura do mesmo tipo que adoptam hoje os ecológicos. Conceber a natureza como caracterizada por um estado originário de equilíbrio e remeter para ela os postulados genéricos de todos os demais equilíbrios é procurar aí a justificação de ilusórias harmonias sociais e, portanto, é alienar da sociedade os seus modos de funcionamento. A naturalização constitui a forma suprema de reificação. A partir do momento em que um dado padrão de ordem é apresentado como natural ele toma-se eterno e indiscutível. A aceitação do mito da natureza corresponde ao triunfo absoluto da tradição.

Porque, com efeito, a natureza é um mito. Quando o filósofo grego definia o homem como um animal social estava realmente a defini-lo como um ser antinatural. A todos os desequilíbrios da natureza devemos somar mais um, o da acção social, que, sendo sempre contraditória, só pode entender-se como um desequilíbrio determinante de desequilíbrios. Não existe natureza senão como objecto da acção humana. Se definisse a natureza, fá-lo-ia exactamente com os termos da coisa em si kantiana, ou seja, daquilo que é exterior à acção humana e portanto é impensável, porque o homem só pensa e conhece a sua própria actuação.

Todas as novas tecnologias, enquanto materialização de dados sistemas de relacionamento social, surgiram não só para solucionar desequilíbrios humanos, criando desequilíbrios novos, mas igualmente para resolver desequilíbrios mais ou menos agudos resultantes da apropriação social da natureza, e para inaugurar formas de desequilíbrio inovadoras. A civilização industrial limitou-se, inicialmente, a resolver os desequilíbrios insustentáveis que haviam resultado das tecnologias anteriores e das formas de exploração que â precederam, e a partir de então tem encontrado resposta aos novos desequilíbrios que ela própria criou, avançando para modalidades novamente contraditórias e, por isso, desequilibradas. Nem sequer se deve julgar que a civilização industrial atingiu uma potencialidade destruidora superior. Bem pelo contrário, pode definir-se como regra que, quanto mais rudimentares forem os meios técnicos empregues por uma sociedade, tanto mais vastas serão as repercussões da sua acção sobre a natureza, por comparação com os resultados obtidos em termos de produção material. Os grupos sociais nómadas que usavam instrumentos de pedra não os aguçavam, de novo quando o gume estava embotado, mas punham-nos de lado e talhavam outros instrumentos. Em prazos muitíssimo breves, pequenos agrupamentos humanos conseguiam esgotar completamente pedreiras consideráveis, estabelecendo-se então junto a outra fonte de abastecimento, até que a tivessem consumido também, e assim sucessivamente. Em pouco tempo se produzia a depredação de enormes territórios. Podia somar interminavelmente exemplos, todos eles demonstrativos de uma regra única, a de que, proporcionalmente ao nível de produção pretendido, as tecnologias mais toscas são as que ocasionam efeitos secundários mais consideráveis e que perturbam áreas mais vastas. O mito da natureza é inseparável do mito do bom selvagem, em harmonia com o meio circundante.

A própria concepção de selvagem, elaborada por uma sociedade europeia possuidora já de algumas técnicas de produção bastante avançadas, resultou de uma significativa distorção da capacidade de observação dos navegantes e colonizadores, que não conseguiam ver a considerável sofisticação das técnicas próprias daquela humanidade que abordavam pela primeira vez. Procurando nos outros apenas aquilo que eles mesmos possuíam, os Europeus chegaram, evidentemente, à conclusão de que os outros nada tinham, ou muito pouco. Difundiu-se assim, para o bem e para o mal, a noção da existência de pessoas em comunhão com a natureza, em vez de se entender que essas pessoas actuavam também sobre a natureza, destruíam-na e recriavam-na em moldes sem dúvida diferentes dos Europeus, mas nem por isso menos carregados de consequências.

O mito do bom selvagem, no entanto, continuado por numerosos antropólogos que curiosamente, no panorama político actual, se apresentam como progressivos, tem sido indispensável para transportar para o âmbito social as implicações conservadoras do mito da natureza. Se a terra, mãe comum, é a fonte inesgotável de uma tradição perene e imutável, então os homens pretensamente desprovidos de técnica são os actores de uma vida exemplar. Os racistas europeus da segunda metade do século XIX e do século XX introduziram uma alteração neste mito, entronizando como modelo da tradição não a gente de outras peles e outros narizes, mas aquela parte da população europeia que havia sido relegada para o emprego de instrumentos considerados arcaicos. Pouco importava, evidentemente, a estes entusiastas da tradição que desde as pesquisas de Lefebvre des Noëttes e depois, noutra perspectiva, de Marc Bloch e dos seus seguidores, se soubesse que as técnicas rurais, longe de se manterem imutáveis, haviam desde sempre vindo a sofrer numerosas adaptações e mesmo, por vezes, remodelações muitíssimo profundas e relativamente rápidas. É de mitos que aqui se trata, e esses são tanto mais sólidos quanto mais cegamente resistem às demonstrações que os invalidam. Seria uma grande ingenuidade imaginar que o exercício da crítica contribui para pôr em causa os mitos alheios. Pelo contrário, reforça nos outros a solidez das convicções. Se a fé é cega, parece que a cegueira é a condição prévia das crenças irracionais. Os camponeses europeus foram considerados pelos racistas como estando imemorialmente apegados a técnicas que, por comparação com as velocíssimas mutações difundidas na indústria, eram apresentadas como neutras, efectivamente não-técnicas. Criou-se assim o mito da harmonia do camponês com a natureza ou, em termos mais drásticos e exactos, da própria integração do camponês na natureza, enquanto elemento natural. Cultivador de raízes, ele mesmo seria uma raiz, fundamente implantada na terra mãe. Mas que sedução podem os contemporâneos da sociedade industrial encontrar nesta ficção idílica de um mundo rural imutável?

Perante as alterações profundas suscitadas permanentemente pelo capitalismo moderno, a constituição de novas classes dominantes e a precipitação das antigas no esquecimento, a renovação das elites através da mobilidade social, a ameaça obscura e difusa de revoltas e perturbações de um novo tipo, face a todo um mundo de intimidantes inovações, a calma rural parecia conter lições de humildade, de modéstia e de respeito. O capitalismo é o único modo de produção a exigir a instabilidade, quando todos os outros regimes pressupuseram a conservação do existente como condição de funcionamento. Só o capitalismo não pode funcionar sem permanentes crises económicas sectoriais e regionais, sem a ininterrupta adaptação a novas técnicas e novos sistemas organizativos, sem que estejam sempre a ser lançadas no desemprego massas de trabalhadores enquanto outros são absorvidos por novos ramos de actividade, sem a contínua deslocação de volumes muito consideráveis de capital e a migração de enormes vagas humanas. Mas um modo de produção que, para assegurar a vitalidade dos seus fundamentos, não pára de pôr em causa as suas formas episódicas e de substituí-las por outras parece correr um risco grave. Será que os explorados, educados para considerarem a mutabilidade de todos os meios de vida e de todas as condições de existência, acabarão afinal por admitir a precariedade do próprio regime de exploração? Foi neste quadro que surgiu a necessidade do mito da estabilidade rural Não poderemos entender esse mito sem nos apercebermos de que ele existe a um nível estritamente ideológico, sem nunca se ter realizado em modalidades económicas ou sequer sociais. Foram regimes promotores da industrialização, ou mesmo francamente tecnocráticos, a propor a pretensa harmonia camponesa como padrão de comportamento geral. Enraizar a ordem e a obediência às hierarquias numa sociedade em mudança contínua, conseguir o milagre de enxertar a estabilidade dos modos de vida e de pensamento sem comprometer a necessária instabilidade da economia e os ritmos acelerados da produção -eis a ambição de quem promove o mito do campesinato e das suas raízes.

Este paradoxo caracterizou sem excepção todos os tipos de fascismo, que sempre fizeram a industrialização ser acompanhada pela romantização do mundo rural A regra era, até, que quanto mais uma se desenvolvia no plano económico e social, tanto mais se afirmava a outra na esfera ideológica. Por isso o país fascista que possuía a infra-estrutura mais avançada e as técnicas produtivas mais inovadoras foi também aquele onde o mito camponês atingiu as proporções mais delirantes. Quem observe a pintura executada no Terceiro Reich e promovida pelo gosto oficial tem de fazer um verdadeiro esforço para recordar que se estava numa das nações mais industrializadas do mundo e que o nazismo fora posto no poder para atingir taxas superiores de crescimento económico. Não só a indústria era geralmente excluída da representação pictórica, identificando-se o mundo do trabalho com o meio rural, mas além disso os próprios camponeses eram mostrados a manejar apenas instrumentos arcaicos, nunca usando a maquinaria agrícola, sem a qual a exploração dos campos teria sido impossível numa economia moderna (1). Se bastava o lugar ocupado pelo campesinato na pintura do Terceiro Reich para mitificar a sociedade da época, a forma como o camponês era figurado constituía uma mitificação suplementar. Tratava-se aqui estritamente de processos ideológicos. Ter-se-á hoje esquecido que «Sangue e Terra», o lema que existe em filigrana em todas as correntes ecológicas, foi adoptado como padrão da sua política por Walter Darré, o Führer dos Camponeses do Reich? «Sangue e Terra» – as raízes da raça assentando na imutabilidade dos ciclos da sementeira e da colheita, o solo regado pelo sangue dos antecessores alimentando por seu turno as novas gerações com a memória do passado, a estabilidade mítica da natureza inspirando a ordem perene do Reich dos Mil Anos, a obediência à hierarquia apresentando-se como um fenómeno natural, tal como os elementos da natureza se sujeitam às suas próprias leis, a tradição remetida para os ritmos invioláveis da terra mãe, tudo isto atingiu um nível superior de formulação na ideologia nacional-socialista.

E tudo isso constitui hoje o quadro último de referências do pensamento ecológico. Nas décadas de 1920 e de 1930 ninguém ignorava o contexto em que era invocado o mito das raízes. Tratava-se de afirmar, contra o internacionalismo e o cosmopolitismo, a necessidade de inscrever imutavelmente as pessoas num território e num Estado, ou numa raça. O internacionalismo político dos trabalhadores era visto, não sem razão, como uma consequência perigosa decorrente da internacionalização do capital. E o capital cosmopolita era considerado, com razão também, como uma ameaça aos grupos económicos de âmbito estritamente nacional. Ambos estes processos eram denegridos pelo fascismo, e foram conceptualizados pelo racismo nacional-socialista como expressões do Judaísmo. Na sua génese ideológica, a afirmação do mito das raízes foi uma das condições da tentativa de exterminar o judeu errante. Entre o culto da natureza, enquanto apologia da autoridade e da tradição, e a invocação das raízes, enquanto justificação do massacre rácico, a ecologia contemporânea encontra o seu quadro inspirador.

notas:

(1) B.Hinz(1980) , Art in the Third Reich, Oxford: Basil Blackwell.110.

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