INTERNACIONALIZAÇÃO DOS CAPITALISTAS E FRAGMENTAÇÃO DOS TRABALHADORES

III

INTERNACIONALIZAÇÃO DOS CAPITALISTAS
E FRAGMENTAÇÃO DOS TRABALHADORES

Não se deve confundir a mundialização da economia com a mundialização das classes sociais. Há uma defasagem entre as duas questões. A internacionalização e, em seguida, a transnacionalização da economia corresponderam a um desenvolvimento do capitalismo e implicaram, portanto, o reforço dos capitalistas. Em termos sociais, uma classe fortalece-se quanto mais coesa está. Isto significa que os capitalistas aumentaram a sua coesão à escala internacional. Ora, o reforço dos exploradores só se opera mediante a debilitação dos explorados. Trata-se de dois aspectos de uma mesma realidade. A fraqueza dos explorados corresponde à sua fragmentação social e as fronteiras nacionais são uma das formas assumidas por esta divisão. Actualmente temos uma economia transnacionalizada, capitalistas internacionalizados e trabalhadores repartidos por nações.

Nem sempre foi esta a situação. No início do século XX o operariado atingira um elevado grau de homogeneidade social e cultural no pequeno número de países a que então se resumia o capitalismo industrial, ou seja, a Europa e o norte da América. O resto do mundo estava ainda ou numa fase de acumulação primitiva do capital, num quadro predominantemente colonial, ou numa fase já capitalista, mas com escassa industrialização. Assim, durante a primeira guerra mundial, precisamente quando os capitalistas mais divididos se encontravam pelas rivalidades entre nações, os trabalhadores foram capazes de impor a sua solidariedade internacional. Nada unia ou separava as classes dominantes senão as fidelidades e hostilidades nacionais, ou até dinásticas, enquanto os trabalhadores depressa desenvolveram um quadro comum, o socialismo, que ultrapassou todas as fronteiras.

A meio da guerra, em Setembro de 1915, trinta e oito delegados, representando os socialistas internacionalistas de onze países, reuniram-se em Zimmerwald, na Suiça. Uma minoria de 12 votos, entre os quais se contava o de Lenin, propunha uma estratégia que levasse à conversão da guerra em revolução, à transformação da guerra entre nações numa guerra entre classes. Os 19 votos da maioria, os de Kautsky e de Trotsky entre eles, apelavam apenas para que os trabalhadores impusessem a interrupção imediata das hostilidades e uma paz negociada, sem anexações territoriais nem indemnizações económicas entre os países beligerantes. Neste caso a minoria foi profética, e nos anos seguintes alastrou um movimento de contestação nas fábricas e de insurreição nas frentes de batalha.

De 1915 a 1916 o número de dias de trabalho perdidos por greve na Alemanha aumentou de 500%, e de 700% de 1916 a 1917, quando atingiu os dois milhões. Em França, o número de paralisações subiu de 220% de 1915 a 1916, e a quantidade de participantes aumentou neste período mais de 340%, sendo as cifras correspondentes entre 1917 e 1916 de cerca de 120% e de 610%. E na Itália a agitação generalizou-se em 1917 tanto nas fábricas como nos campos. Ao mesmo tempo, na Grã-Bretanha as greves de 1916 e 1917 marcaram o início do movimento dos shop stewards, membros dos sindicatos eleitos pelos trabalhadores no quadro das unidades de produção, e que naquela época defendiam as posições das bases operárias, em frequente conflito com as direcções sindicais.

Ao longo de 1916 foi cada vez mais comum a fraternização nas trincheiras entre soldados dos Aliados e das Potências Centrais. Em França a deserção tornou-se maciça e passou a ser organizada à luz do dia, até que entre Abril e Setembro de 1917 uma enorme onda de revolta se propagou nas trincheiras, atingindo o auge em Maio e na primeira metade de Junho. Durante estas seis semanas amotinou-se a maior parte do exército francês. Sublevadas contra os seus comandantes e elegendo representantes próprios, cinquenta e quatro divisões hastearam bandeiras vermelhas e ameaçaram marchar sobre Paris para derrubar o governo. Desde o início de Junho de 1917 até ao final de Dezembro, sete meses ao todo, as condenações à morte em conselho de guerra atingiram um número igual ou superior ao registado durante os trinta e quatro meses anteriores, desde que a guerra começara em Agosto de 1914. Escreve nas suas memórias o notável jornalista Pierre van Paassen: «Na Primavera de 191[7] André Maginot», um dos políticos franceses mais ligados aos altos comandos militares, «reconheceu em sessão secreta da Câmara que entre a cidade de Paris e a linha de combate só restava uma divisão em que o governo podia depositar absoluta confiança. […] Um rumor subterrâneo de descontentamento alastrava-se pelo exército. Rebentaram revoltas. De uma feita estiveram envolvidos oitenta e sete regimentos franceses, de outra cento e quinze. Os conselhos de guerra funcionavam noite e dia. Por um simples murmúrio de desagrado dizimava-se uma companhia inteira. Enviavam-se divisões propositadamente à linha de combate, para serem chacinadas, esmagando-se assim o espírito de derrotismo» (Estes Dias Tumultuosos, Porto Alegre: Editora Globo, 1941, pags. 73-74).

A hostilidade dos soldados e dos trabalhadores franceses à guerra teve sérias repercussões nas classes dominantes. Políticos tão importantes como Joseph Caillaux e Louis Malvy, defensores de uma orientação mais conciliatória naqueles conflitos sociais, foram acusados de traição e conivência com o inimigo, e condenados com este pretexto. Ministro do Interior até ser obrigado a demitir-se em 1917, Malvy mantinha relações com pessoas muito próximas do movimento anarquista, entre o quais Miguel Almereyda, pai do grande cineasta Jean Vigo, tão precocemente desaparecido. Almereyda foi preso e assassinado na cadeia, como van Paassen recorda nas suas memórias: «Um dos pacifistas de língua mais solta, Almereyda, cujo depoimento no banco das testemunhas teria revelado o ponto aonde chegava a corrupção na direcção superior da guerra, foi encontrado estrangulado na sua cela» (ibid., pag. 75). Foi uma época de histeria, em que os altos comandos militares viam espiões em todos os adversários da guerra.

Ao mesmo tempo a vaga revolucionária propagou-se entre os militares dos outros países beligerantes. Ocorreram motins na marinha alemã no Verão de 1917 e em Itália as deserções tornaram-se maciças, acabando por atingir um quinto dos soldados. Mas o movimento chegou ao auge quando a frente russa derrocou em 1917.

«Paz e Terra» não foi uma palavra de ordem inventada por Lenin. Ela foi imposta pelas massas camponesas. A particularidade dos bolchevistas consistiu em terem sabido entender o que se passava e aproveitar-se da situação. Os soldados, que na grande maioria eram camponeses, queriam a paz, para poderem regressar às suas aldeias e repartir as terras dos grandes proprietários. De nada valia decretar a reforma agrária sem que fosse estabelecida a paz, porque os camponeses continuariam mobilizados na frente de combate, sem poderem apoderar-se dos campos e cultivá-los. A questão militar e a questão agrária estavam indissoluvelmente ligadas. Por isso os soldados-camponeses russos amotinavam-se e desertavam colectivamente, para ocuparem as terras dos grandes proprietários. Foi esta a primeira forma tomada pelo que viria a ser o Exército Vermelho. Lenin e Trotsky operaram em seguida a burocratização e a transformação social daquele exército, liquidando-lhe a espontaneidade e hierarquizando-o novamente sob o comando de antigos oficiais czaristas, controlados por comissários políticos bolchevistas.

Noutros países as insurreições militares tiveram igualmente consequências políticas e sociais muito profundas. A revolta dos marinheiros alemães no final de Outubro de 1918 estendeu-se em Novembro aos soldados e aos trabalhadores da indústria, iniciando-se a Revolução dos Conselhos, que ressurgiu em repetidas ocasiões nos anos seguintes e deixou na classe trabalhadora alemã marcas muito duradouras, liquidadas apenas com a ascensão dos nazis ao poder. Também a revolução iniciada em Março de 1919 na Hungria e as ocupações de fábricas no norte da Itália em Setembro de 1920 estiveram na imediata sequência do movimento social que pusera termo à guerra.

Não menos importantes, pelas suas repercussões, foram os levantamentos militares ocorridos durante a guerra civil russa, na qual os Aliados participaram ao lado das tropas contra-revolucionárias. Em 1918 os destacamentos norte-americanos recusaram-se a combater, o que obrigou à sua retirada. No ano seguinte os expedicionários britânicos negaram-se a embarcar para a Rússia, exigindo a sua desmobilização, e ao mesmo tempo surgiram motins e levantamentos entre as tropas britânicas estacionadas no norte da Rússia. E, também em 1919, sublevaram-se os marinheiros franceses da frota que actuava no Mar Negro, o que levou as tropas estrangeiras a evacuar o sul da Ucrânia. Estes movimentos e insurreições fizeram com que os governos aliados desistissem da intervenção, ficando decisivamente facilitada a vitória dos bolchevistas. A guerra civil russa foi, na realidade, uma revolução internacionalista. O seu último episódio marca o fim da guerra civil e também o encerramento da revolução. Em Março de 1921, e em apoio das greves e manifestações que entretanto eclodiam entre os operários, a guarnição da base naval de Kronstadt revoltou-se e pronunciou-se contra a burocratização da actividade política e contra o regime de partido único. Os insurrectos de Kronstadt exigiam o regresso ao sistema originário dos sovietes, enquanto genuínos conselhos deliberativos de base, e a instauração de uma democracia dos trabalhadores, com liberdade de expressão para todas as forças operárias de esquerda, bem como a liberdade de organização sindical e o direito de controle dos trabalhadores sobre as unidades de produção. Além disso, reivindicavam a liberdade económica dos camponeses que não empregassem assalariados. Os bolchevistas reprimiram a revolta com uma terrível matança, confirmando a plena instauração de um poder de classe dos gestores e de uma economia capitalista de Estado.

Em suma, o que sucedeu de 1916 até 1921 foi um processo revolucionário único, à escala europeia e com repercussões nos Estados Unidos, que opôs o internacionalismo dos trabalhadores ao nacionalismo das classes dominantes. A insurreição bolchevista foi um mero episódio, que se distinguiu apenas por um detalhe – ter vencido. Mas o declínio do movimento internacionalista e a evolução posterior das lutas sociais converteram numa profunda derrota aquela vitória inicial dos trabalhadores russos. Aliás, o facto de uma revolução que começara ultrapassando as fronteiras ter triunfado apenas num país contribuiu decisivamente para desarticular o movimento. Ao ocuparem o poder de Estado e implantarem uma economia estatal, os bolchevistas abandonaram muito rapidamente a perspectiva do internacionalismo e passaram a defender interesses nacionais russos. A inversão da revolução e a desagregação do impulso internacionalista são as responsáveis pela deturpação dos acontecimentos daquela época, já que geralmente a revolução bolchevista é apresentada pelos historiadores como exclusivamente russa, e as insurreições militares são reduzidas a episódios isolados e votadas a um esquecimento tanto mais deliberado quanto é ajudado pelo segredo dos arquivos. Mas o constraste com os anos que se seguiram só pode ser entendido por quem tiver em conta o carácter internacional do processo ocorrido entre 1916 e 1921.

A crise económica que eclodiu em 1929 alterou completamente o panorama. Geraram-se então as condições para a internacionalização dos capitalistas e para o recomeço da fragmentação nacional dos trabalhadores. A guerra civil espanhola, de 1936 a 1939, que por um lado foi o ensaio geral da segunda guerra mundial, por outro constituiu a derradeira manifestação do antigo internacionalismo operário. Logo em seguida a guerra mundial confirmou de maneira dramática o nacionalismo dos trabalhadores e a internacionalização dos capitalistas.

De todos os lados do conflito, a acção das classes dominantes ultrapassou os limites nacionais. O nazismo não foi um nacionalismo, mas um supranacionalismo. Os SS forneceram o quadro supranacional para a promoção de uma «raça nórdica», mediante um recrutamento operado por critérios «rácicos» e casamentos sujeitos a autorização prévia, de maneira a produzir-se uma «raça de senhores». Das mais de 900.000 pessoas que até ao final de 1944 integraram as Waffen SS, as tropas de elite, menos de metade eram originárias do Reich. Também o fascismo italiano se preocupou com uma visão global, esboçando a constituição de uma esfera mediterrânica. No outro lado do globo, o militarismo nipónico formou a Esfera da Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental. Ao mesmo tempo, os Aliados imprimiram um carácter supranacional ao que inicialmente havia sido um mero acordo militar, e a Declaração das Nações Unidas, assinada em Janeiro de 1942 por vinte e seis países, explicitava tais objectivos. A partir de 1944 foram tomadas medidas para converter as Nações Unidas numa organização de carácter permanente. Noutro plano, a Conferência de Bretton Woods, realizada em Julho de 1944, estabeleceu o sistema monetário e financeiro que viria a reger o mundo após o conflito, projectando a formação do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento e do Fundo Monetário Internacional. Qualquer que tivesse sido o vencedor, a paz assentaria em instituições supranacionais. Mas ainda mais significativos do que a internacionalização no interior de cada um dos blocos beligerantes foram os interesses comuns que os uniram a todos e os contactos que entre eles tiveram lugar.

Os interesses sociais convergentes do campo aliado e do campo fascista são revelados pela estratégia seguida pelos bombardeamentos aéreos aliados. Nos comentários ao diário da sua irmã, referente aos anos de guerra (The Berlin Diaries 1940-1945 of Marie «Missie» Vassiltchikov, Londres: Folio, 1991, pag. 71), escreve George Vassiltchikov: «[…] em Fevereiro de 1942 o Marechal do Ar Arthur Harris recebeu o comando dos bombardeiros da RAF [força aérea britânica] com instruções do Gabinete de Guerra para iniciar uma ofensiva sistemática contra as cidades alemãs “tendo como alvo principal o moral da população civil e especialmente dos operários da indústria”. […] Nos dois anos seguintes todas as grandes cidades da Alemanha e da Áustria e várias outras no resto da Europa ocupada foram reduzidas a escombros. O custo em vidas de civis: cerca de 600.000 […]». As consequências desta estratégia foram descritas com incomparável frieza por André Piettre, um especialista da economia alemã, numa obra monumental (L’Économie Allemande Contemporaine (Allemagne Occidentale) 1945-1952, Paris: M. Th. Génin, 1952, pags. 65-67): «Com efeito, é um facto de importância capital, e que domina toda a economia alemã de hoje, que os bombardeamentos tivessem sido muito mais sensíveis sobre as cidades e os nós de comunicação do que sobre as forças produtivas. […] Assim – constatação primordial e novo paradoxo da Alemanha do pós-guerra – a indústria pesada, base essencial da indústria de guerra, saía do conflito menos atingida do que qualquer outra. Calcula-se até que a Alemanha possuía ainda em 1945 o segundo equipamento mundial em máquinas-utensílios, logo a seguir ao dos Estados Unidos […] Esta situação das estruturas de produção, que foram relativamente poupadas, contrastava com as destruições muito mais graves dos meios de comunicação. […] Mas nenhumas ruínas se comparavam às das grandes cidades. […] viu-se que era sobretudo eficaz, para atingir uma indústria, visar o pessoal, mais do que o material». Os altos comandos aliados conduziram a guerra numa estrita perspectiva de classe, poupando quanto possível as instalações fabris dos capitalistas inimigos e tomando como alvo o moral, o espírito de resistência, do operariado alemão, tal como estipulou o governo britânico, ou seja, para empregar a fórmula concisa e cínica de André Piettre, visando «o pessoal, mais do que o material».

Com base nestes interesses sociais comuns aos capitalistas de ambos os lados teceram-se, apesar do conflito, e para além das clivagens militares, políticas e ideológicas, contactos institucionais permanentes, no âmbito do Banco de Pagamentos Internacionais. Este Banco fora estabelecido em Basileia, na Suíça, em 1930, para permitir a cooperação técnica entre os bancos centrais dos vários países, e o seu Conselho de Administração ainda hoje é composto em parte por governadores de bancos centrais. Per Jacobsson, que desde 1956 até ao seu falecimento em 1963 estaria à frente do Fundo Monetário Internacional, entrou em 1931 para o Banco de Pagamentos Internacionais como conselheiro económico e chefe do Departamento Económico e Monetário, situação em que se manteve durante a guerra. Escrevinhador impenitente, deixou um volumosíssimo diário, recheado de informações importantes, que a sua filha, Erin E. Jacobsson, utilizou como base para uma biografia (A Life for Sound Money. Per Jacobsson. His Biography, Oxford: Clarendon, 1979). Ela chama a atenção (na pag. 141) para «a harmonia em que todos os funcionários internacionais do BPI [Banco de Pagamentos Internacionais] conseguiam viver lado a lado, no mais estreito contacto, sem discórdia, apesar de entre eles se contarem beligerantes de ambas as partes. Quando começou a guerra todos os funcionários receberam indicações dos seus próprios bancos centrais para trabalharem amigavelmente em conjunto, de maneira a que o BPI pudesse continuar a funcionar».

Durante a guerra Per Jacobsson foi um intermediário incansável entre as autoridades monetárias dos países beligerantes e relacionou-se mesmo com diplomatas e agentes secretos. «Dois dos seus visitantes mais ilustres», escreve a filha (na pag. 163), «foram Allen Dulles e Emil Puhl, o vice-governador do banco central alemão. Este último estava particularmente interessado em conhecer a atitude dos Estados Unidos relativamente à Alemanha». Allen Dulles foi, entre 1942 e 1945, o chefe da secção de Berne, na Suíça, do Office of Strategic Services, o serviço secreto norte-americano, e a partir de 1948 seria um dos principais dirigentes da espionagem dos Estados Unidos, sendo nomeado em 1953 director da CIA, à frente da qual se manteve até 1961.

A biografia de Per Jacobsson fornece indicações igualmente preciosas acerca de algo que se mantém praticamente desconhecido, a participação indirecta dos banqueiros alemães nas conversações prosseguidas pelos Aliados acerca do futuro sistema monetário mundial. Desde 1942 que os Aliados vinham a discutir dois planos monetários, um apresentado por Harry D. White, assessor do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, e o outro pelo célebre economista britânico John Maynard Keynes. Foi destas discussões que resultou a Conferência de Bretton Woods, onde se adoptou em grande parte o plano White. Lê-se (pag. 166) na obra que tenho vindo a citar: «Apesar de P[er] J[acobsson] ter ido novamente a Berlim em Maio de 1943, durante três dias, para discutir os Planos Keynes e White, em breve o preveniram de que passaria a correr riscos se atravessasse o território controlado pelos Alemães e, por isso, ficou confinado à Suíça até Março de 1945». A biografia de Jacobsson mostra (pags. 178-180) os resultados obtidos por esta intermediação. «Em 1943 as opiniões de P[er] J[acobsson] acerca dos Planos Monetários anglo-americanos estavam a ser discutidas tanto em Berlim como em Washington. […] Os Alemães, em especial, pretendiam obter informações e opiniões. O seu interesse era tão grande que uma pequena delegação de banqueiros, chefiada por Emil Puhl, o vice-governador do banco central alemão, encontrou-se discretamente com P[er] J[acobsson] e com Hechler [membro alemão do Conselho de Administração do Banco de Pagamentos Internacionais] em Zurique, a 1 de Maio de 1943. […] Depois de se ter reunido mais uma vez na Suíça, aquele grupo, através do seu presidente, conseguiu que P[er] J[acobsson] fizesse um discurso aos directores de bancos comerciais em Berlim, a 1 de Junho. Este discurso foi repetido várias vezes na Suíça […] O texto definitivo […] foi traduzido pela Legação Americana e telegrafado na íntegra para Washington. […] Em breve P[er] J[acobsson] começou a desenvolver a noção de “um sistema de colaboração internacional que permitisse a outros países exercer influência não só sobre a política do país mais poderoso, os EUA, mas também sobre a de outros grandes países. Esta influência seria uma condição absolutamente necessária para iniciar uma política relativamente equilibrada; os EUA teriam mesmo todo o interesse em favorecer tal influência, pois os EUA teriam dificuldade em conceber e aplicar uma política apropriada a um papel dirigente nas questões mundiais. Portanto, seriam necessárias organizações internacionais – não uma única, mas muitas – de maneira a não colocar todos os ovos no mesmo cesto. E para os Alemães seria mais fácil conseguir influência num organismo de carácter técnico do que num conselho político”». Dois anos antes de terminar o conflito, e em resultado das suas conversações com os representantes da alta finança alemã, Jacobsson previu claramente a posição que a Alemanha veio com efeito a ocupar no pós-guerra.

Enquanto os mais altos gestores de um e outro lado se punham de acordo quanto à forma de reorganizar a economia mundial, nos países ocupados pelos nazis a resistência da população, quando ocorria, fazia-se sob uma forma exclusivamente nacionalista. Os trabalhadores activos na resistência aceitaram a divisão em fronteiras e seguiram a orientação política das facções anti-alemãs das classes dominantes. Em França houve uma única – e minúscula – organização de resistência aberta a militares alemães antinazis. E na Polónia as várias organizações de resistência guerrearam entre elas, divididas por diferentes tradições étnicas e preconceitos raciais, para regozijo do ocupante nazi.

A paz prolongou e consolidou esta situação. A partir de 1945 começou a viver-se numa economia internacionalizada, com capitalistas unidos mundialmente e trabalhadores divididos.

O panorama modificou-se nos últimos anos, devido à tendência para a desagregação das nações, sensível sobretudo na antiga esfera soviética, mas também noutros lugares. Os órgãos de informação e mesmo alguns intelectuais pretendem que se vive hoje uma nova época de nacionalismos, quando na verdade se trata de regionalismos, o que é inteiramente diferente. O nacionalismo do século XIX era expansionista e agregativo. Agora o que se verifica é, pelo contrário, a fragmentação crescente de alguns territórios nacionais. Este é mais um aspecto da superação das fronteiras pelo desenvolvimento económico. Os espaços nacionais são ultrapassados, por cima, pelas grandes companhias transnacionais; e são desarticulados, por baixo, pelos regionalismos e micronacionalismos.

*

Neste contexto de transnacionalização da economia é ridícula qualquer pretensão de os sindicatos, tal como hoje estão organizados, conceberem uma estratégia global de luta anticapitalista. É completamente impossível travar um combate fraccionado por fronteiras nacionais contra um capitalismo que se organiza não só coordenando os diversos centros nacionais de acumulação do capital, mas passando por cima de todas as divisões geográficas. Aliás, os capitalistas evitam deliberadamente que a livre circulação de capitais e mercadorias se reflita numa livre circulação das pessoas. A União Europeia fornece bons exemplos desta dualidade, a tal ponto que têm sido levantados obstáculos à internacionalização das burocracias sindicais mesmo no estrito âmbito europeu. Apesar de os sindicatos na Europa ocidental serem perfeitamente inócuos, o capitalismo não quer correr o risco de que eles possam vir a alargar o quadro de reivindicações. Os organismos sindicais internacionais e os departamentos de relações exteriores das centrais sindicais só não são uma farsa para quem lucra com as suas benesses.

No entanto, o mais comum é que a esquerda radical, quando reclama contra a exploração dos trabalhadores, defenda ao mesmo tempo, e como se fossem a mesma coisa, os interesses do capitalismo nacional contra o capitalismo estrangeiro. Posições deste tipo são hoje completamente afastadas da realidade porque, como tive já oportunidade de mostrar, as grandes companhias transnacionais não constituem uma arma do país onde residem as matrizes contra aqueles onde se implantam as filiais. As transnacionais, sempre que lhes convém, passam por cima das decisões dos governos de qualquer país, tanto daqueles onde se estabelecem as filiais como daqueles onde estão sediadas as matrizes. E, através da atracção de capitais locais, das encomendas e da subcontratação, as transnacionais tornam os seus interesses convergentes com os do empresariado mais dinâmico de cada país. A distinção entre capital estrangeiro e capital nacional é hoje inteiramente obsoleta. O que vemos é sectores dinâmicos, onde se conjugam as transnacionais e os seus satélites locais, e sectores em declínio, dos quais as transnacionais retiram os investimentos e que, por isso mesmo, são remetidos para o quadro nacional – para aí morrerem. Não deixa de ser curioso que a esquerda radical defenda os capitalistas desses sectores em declínio, precisamente os que pagam piores salários e mantêm as condições de trabalho mais degradadas, com o consequente aumento do número de acidentes.

Mas a principal crítica a esse tipo de posições deve ser outra. Estas posições não se limitam a não corresponder à realidade actual. Pior do que isto é confundirem o problema da exploração, o único quadro onde se podem defender os interesses dos trabalhadores, com o problema da desigualdade na repartição dos benefícios entre capitalistas. Tomando como pretexto as contradições entre capitalistas, essa esquerda, aparentemente tão radical, esforça-se por perpetuar a vinculação dos trabalhadores a certos grupos de capitalistas e, portanto, por tornar mais estreita a integração dos trabalhadores nas relações sociais vigentes, contribuindo, afinal, para consolidar todo o sistema de exploração.

A incapacidade dos sindicatos e destas correntes de esquerda para contribuírem para uma solidariedade mundial da classe trabalhadora não se observa apenas no âmbito internacional. Ela é patente também no quadro nacional, o que é mais grave ainda. Dentro da classe trabalhadora existem hoje vários tipos de divisões. Por um lado, continuam a verificar-se as velhas rivalidades nacionais, agravadas pelo recente surto de regionalismos e micronacionalismos. Já vimos que os sindicatos se mostram incapazes de fazer o quer que seja para ultrapassar tais cisões. Mas, por outro lado, a própria transnacionalização da economia alterou o perfil da classe trabalhadora, internacionalizando uma parte dela, que se diferencia da restante por ter uma situação de emprego relativamente privilegiada.

Os trabalhadores que laboram nos ramos tecnologicamente mais atrasados, ou em declínio, dependentes de quadros económicos nacionais, ficam sujeitos à demagogia dos nacionalismos e dos micronacionalismos. Os trabalhadores que têm revelado uma tendência para assumir a postura internacionalista são os mais qualificados, com emprego estável em grandes companhias transnacionais. Estes podem defender os imigrantes, porque os imigrantes são pouco qualificados e não concorrem com eles. Mas a mão-de-obra autóctone pouco qualificada assume facilmente uma atitude hostil aos imigrantes. Hoje, nos países economicamente mais evoluídos, a questão central do racismo consiste na imigração. É a esta luz que devemos avaliar o que actualmente se chama racismo. Isto confirma, uma vez mais, que não se trata de uma questão de etnias, entendidas como blocos populacionais homogéneos, mas acima de tudo de uma questão de divisões no interior da classe trabalhadora. E tais divisões devem-se directamente a problemas laborais, visto que só neste contexto tem sentido a noção de migração.

Reside aqui o segundo grande fracasso do sindicalismo contemporâneo. Mesmo no âmbito nacional os sindicatos têm-se revelado incapazes de conceber e aplicar uma estratégia que ultrapasse o racismo, centrado na questão dos migrantes. Em países como o Brasil este problema coloca-se até relativamente às correntes migratórias internas, por exemplo nas que partem do Nordeste. Os sindicatos da CUT, porém, mesmo quando abordam a questão do racismo insistem em considerá-lo exteriormente aos conflitos de trabalho e em remetê-lo para o plano da cidadania, como se ele dissesse respeito a todas as camadas sociais, quando o racismo é hoje precisamente a questão central da solidariedade na classe trabalhadora. Não parece que a maioria dos sindicatos tenha entendido claramente a estreita conjugação entre a questão do racismo e a da migração.

Os exemplos que conheço de lutas efectivas e maciças contra o racismo têm-se devido a mobilizações no quadro dos bairros, sobretudo a acções de juventude. Mas os grandes órgãos de informação desvirtuam completamente o sentido destas lutas. Ou lhes chamam revoltas raciais, como no caso de Los Angeles em Abril e Maio de 1992, quando, pelo contrário, os motins e pilhagens juntaram pessoas de todos os tons de pele contra a afronta a que haviam sido submetidos os direitos de um negro. Ou consideram-nas mera violência de adolescentes, quando em França os jovens de todas cores se têm mobilizado porque a polícia mata um deles, negro ou de origem árabe, que estava eventualmente a cometer qualquer pequeno delito. Tem sido nestes movimentos, apesar de tantos aspectos contraditórios e ambíguos que eles apresentam, que uma solidariedade anti-racista encontra hoje expressão. Mas os sindicatos mantêm-se de costas voltadas para as acções deste tipo, quando não as denigrem mesmo, apelidando-as de desordens.

Assim, os capitalistas estão não com uma, mas com duas etapas de avanço. Mesmo que os trabalhadores consigam, nas próximas décadas, pôr eficazmente em causa as divisões nacionais, deparar-se-ão com o problema das profundas clivagens que os separam em vários estratos.

As divisões entre trabalhadores que estão agora a criar-se à escala mundial resultam, em boa parte, da imigração vista como uma ameaça ao emprego. Ora, este problema remete para outra divisão, mais fundamental, que distingue a força de trabalho qualificada da pouco qualificada. O problema central desta problemática é o desemprego.


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