Velha Toupeira

uma biblioteca comunista

Dez Punhaladas na Política

Dez Punhaladas na Política

A política é a arte da separação. Onde a vida perdeu a sua plenitude, onde os pensamentos e as acções dos indivíduos foram dissecados, catalogados e encerrados em esferas separadas – aí começa a política. Tendo afastado algumas das actividades dos indivíduos (a discussão, o conflito, a decisão em comum, o acordo) para uma zona que por si mesma pretende governar certa da sua independência — todas as outras, a política é ao mesmo tempo uma separação entre separações e a administração hierárquica da existência de separações. Deste modo, a política revela-se como uma especialização, forçada a transformar o problema irresolvido da sua função num pressuposto necessário para resolver todos os problemas. Exactamente por esta razão, o papel dos profissionais na política é inquestionável — e tudo o que se pode fazer é substituí-los de tempos a tempos. De cada vez que os subversivos aceitam separar os vários momentos da vida e mudar — partindo dessa separação— as condições existentes, eles tornam-se os melhores aliados da ordem do mundo. Precisamente quando aspira a ser uma espécie de condição prévia da própria vida, a política espalha o seu hálito mortífero por toda a parte.

A política é a arte da representação. Para governar as mutilações infligidas à vida, a política constrange os indivíduos à passividade, à contemplação do espectáculo montado a partir da própria impossibilidade de agir, a partir da delegação irresponsável das próprias decisões. Então, enquanto a abdicação da vontade de se determinar a si mesmo transforma os indivíduos em apêndices da máquina estatal, a política recompõem numa falsa unidade a totalidade dos fragmentos. O poder e a ideologia celebram desta maneira o seu funesto casamento.   Se a representação é o que tolhe a capacidade de agir dos indivíduos, dando-lhes em contrapartida a ilusão de serem participantes e não espectadores, esta dimensão do  político reaparece sempre onde quer que qualquer organização suplanta o indivíduo e onde qualquer programa os mantém na passividade. Reaparece sempre lá onde uma ideologia une o que na vida é separado.

A política é a arte da mediação. Entre a pretensa totalidade e os indivíduos, e dos indivíduos entre si. Tal como a vontade divina tem necessidade dos seus próprios intérpretes terrestres, assim também a Colectividade tem necessidade dos seus próprios delegados. Tal como na religião não existe relacionamento entre homens mas apenas entre crentes, assim também na política quem se defronta não são os indivíduos mas sim os cidadãos. Os laços de pertença impedem a união porque só na diferença a separação desaparece. A política torna-nos a todos iguais porque na escravidão não existe diversidade — igualdade perante Deus, igualdade perante a lei. Por isso, a política substitui o diálogo real, que recusa a mediação, pela sua ideologia. O racismo é o sentimento de pertença que impede a relação directa entre os indivíduos. Toda a política é uma simulação participativa. Toda a política é racista. Apenas demolindo pela revolta as barreiras de cada um se pode encontrar os outros na sua singularidade. Revolto-me logo somos. Mas se nós somos, adeus revolta.

A política é a arte da impessoalidade. Cada acção é como o instante de uma centelha que escapa da ordem da generalidade. A política é a administração desta ordem. “Que valor tem uma acção face à complexidade do mundo?” Assim argumentam os anestesiados no torpor duplo de um Si[1] que é ninguém e de um Mais tarde que é nunca. A burocracia, criada fiel da política, é o nada administrado para que Ninguém possa agir. Para que ninguém reconheça a sua responsabilidade na irresponsabilidade generalizada. O poder já não diz que tudo está sob controlo, diz pelo contrário: Se nem eu dou conta do recado, imagine-se outro qualquer no meu lugar “. A política democrática está hoje em dia baseada na ideologia catastrófica da emergência (” Ou nós ou o fascismo, ou nós ou o terrorismo, ou nós ou o desconhecido”). A generalidade, mesmo a de oposição, é sempre um acontecimento que não acontece nunca e que apaga todos aqueles que acontecem. A política convida toda gente a participar no espectáculo deste movimento imóvel.

A política é a arte do adiamento. O seu tempo é o futuro, e é por isso que nos aprisiona a todos num presente miserável. Todos juntos, porém amanhã. Aquele que diz ” eu e agora!” arruína, com aquela impaciência que é a exuberância do desejo, a ordem da espera. Espera por um objectivo que escapa da maldição do particular. Espera por um crescimento quantitativo adequado. Espera por resultados mensuráveis. Espera pela morte. A política é a constante tentativa de transformar a aventura em futuro. Mas só se for “eu e agora” quem decide, pode haver um nós que não seja o espaço da renúncia mútua, a mentira que torna cada um no controlador do outro. Aquele que queira agir imediatamente é sempre olhado com suspeição. Se não é um provocador, diz-se, com certeza faz-lhe o jogo. Mas é o instante de uma acção e de um prazer sem amanhã o que nos transporta para a manhã seguinte. Sem os olhos fixos nos ponteiros do relógio.

A política é a arte da acomodação. Sempre à espera de que as condições estejam maduras, acaba-se mais cedo ou mais tarde a formar alianças com os senhores da espera. No fundo, a razão, que é o órgão da dilação e do adiamento, fornece sempre algum bom motivo para se chegar a um acordo, para se minimizar os danos, para se salvar algum detalhe de um todo que se despreza. A razão política tem um olhar aguçado para encontrar alianças. Não são todos iguais, diz. A Rifondazione Comunista não é, com certeza, como essa direita em ascensão e perigosa. (Nas eleições não votamos neles —
nós somos abstencionistas — já colaboração em comités cidadãos, em acções de rua, é diferente). Um sistema de saúde público é sempre preferível à assistência privada. Um salário mínimo garantido é sempre preferível ao desemprego. A política é o mundo do mal menor. E submeter-se ao mal menor leva a aceitar, pouco a pouco, o todo do qual apenas se tinha dado preferência a uma parte. Qualquer um que, pelo contrário, não quer nada com este mal menor é um aventureiro. Ou um aristocrata.

A política é a arte do cálculo. Para que as alianças sejam profícuas, os aliados precisam de conhecer os segredos. O cálculo político é o primeiro segredo. É necessário saber onde se põem os pés. É necessário redigir listas detalhadas de esforços e resultados. E à força de se medir tudo o que se tem acaba-se por se ganhar tudo excepto a vontade de se jogar tudo e de se perder tudo. Assim está-se sempre em si, atento e pronto a pedir a conta. Com o olhar fixo no que o circunda, nunca se esquece a si mesmo. Vigilante como um polícia. Quando o amor de si mesmo se torna excessivo requer oferecer-se. E esta superabundância de vida faz-nos esquecer de nós mesmos, faz-nos perder, na tensão do entusiasmo, a conta. Mas o esquecimento de si é o desejo de um mundo em que valha a pena perder-se, de um mundo que mereça o nosso esquecimento. E é por isto que o mundo está assim, administrado por carcereiros e contabilistas, está destruído — para arranjar espaço para o dispêndio de nós mesmos. A insurreição começa aqui. Superar o cálculo, não pela carência, como recomenda aquele humanitarismo prudente, prudente, mas que acaba sempre por aliar-se ao carrasco, mas sim pelo excesso. Aqui acaba a política.

A política é a arte do controlo. Para que a actividade humana não se liberte dos grilhões do dever e do trabalho revelando-se em todo o seu potencial. Para que os trabalhadores não se encontrem como indivíduos e cessem de se deixar explorar. Para que os estudantes não decidam destruir as escolas para que possam escolher como, quando e o que aprender. Para que os familiares não se apaixonem e deixem de ser pequenos servidores de um pequeno estado. Para que as crianças não sejam outra coisa que cópias imperfeitas dos adultos. Para que a distinção entre (anarquistas) bons e (anarquistas) maus não seja apagada. Para que não sejam os indivíduos os que se relacionem mas sim as mercadorias. Para que não se desobedeça à autoridade. Para que, se alguém atacar a estrutura da exploração do estado, outros se apressem a dizer, “isto não é obra de camaradas”. Para que os bancos, os tribunais e os quartéis não vão pelos ares. Em suma, para que a vida não se manifeste.

A política é a arte da recuperação. A maneira mais eficaz de desencorajar qualquer rebelião, qualquer desejo de uma mudança real, é apresentar um homem de estado como subversivo, ou melhor ainda, transformar um subversivo num homem de estado. Nem todos os homens de estado são pagos pelo governo. Há funcionários que não se encontram no parlamento nem sequer nas divisões adjacentes. Antes, frequentam os centros sociais e conhecem razoavelmente as principais teses revolucionárias. Dissertam sobre o potencial libertador da tecnologia; teorizam sobre esferas públicas não-estatais e sobre a superação do sujeito. A realidade — sabem-no bem — é sempre mais complexa do que qualquer acção. Assim, se aspiram a uma teoria total é apenas para a esquecer totalmente na vida quotidiana. O poder precisa deles porque — como eles próprios nos explicam — quando ninguém o critica, o próprio poder se critica a si mesmo.

A política é a arte da repressão. De qualquer um que não separa os momentos da sua vida e quer mudar as condições existentes a partir da totalidade dos seus desejos. De qualquer um que queira incendiar a passividade, a contemplação e a delegação. Daqueles que não se deixam suplantar por qualquer organização ou imobilizar por qualquer programa. De qualquer um que queira relações directas entre os indivíduos e faça da diferença o próprio espaço da igualdade. De qualquer um que não tenha nenhum nós sobre o qual jurar. De qualquer um que perturbe a ordem da espera pois quer insurgir-se imediatamente, e não amanhã ou depois de amanhã. De qualquer um que se dê sem contrapartidas e se esqueça de si por excesso. De qualquer um que defenda os próprios camaradas com amor e determinação. De qualquer um que ofereça aos recuperadores uma só possibilidade: a de desaparecerem. De qualquer um que recuse tomar lugar nas inúmeras hostes de espertalhões e anestesiados. De qualquer um que não queira nem governar nem controlar. De qualquer um que queira transformar o futuro numa fascinante aventura.

“Il Pugnale”, Maio de 1996

[1] Nota do tradutor: Si refere-se simultaneamente: ao eu, deles, dos anestesiados, ou seja, eles próprios; e a sim, que em italiano coincidem numa só palavra.

DOIS TEXTOS DE LOUIS-EUGÈNE VARLIN

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DOIS TEXTOS DE LOUIS-EUGÈNE VARLIN

Louis-Eugène Varlin, operário encadernador de livros, destaca-se como uma figura exemplar do movimento operário. Nasceu em França em 1839, filho de camponeses pobres. Em 1864 e 1865 foi um dos dirigentes da greve dos encadernadores. Na mesma altura foi nomeado secretário da secção francesa da Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional, que havia acabado de ser fundada, e contou-se depois entre os redactores dos seus estatutos. Infatigável criador e animador de associações operárias e de cooperativas, experimentou na prática os princípios de organização defendidos nos dois textos que aqui apresento. Em 1869 conseguiu formar uma união de todas as organizações sindicais francesas. Foi preso, perseguido, obrigado a exilar-se durante algum tempo. Em Março de 1871, na altura da proclamação da Comuna de Paris, Varlin ocupou o estado-maior da Guarda Nacional. Foi eleito para o Conselho da Comuna, nomeado para a Comissão das Finanças, passando em seguida para a Comissão das Subsistências, e dirigiu os abastecimentos militares. Era ele quem assegurava a ligação entre a Comuna e as associações operárias. Combateu na última barricada da Comuna, onde acabou por ser preso pelas tropas governamentais e espancado e desfigurado a tal ponto que, incapaz já de se manter de pé, foi sentado que tiveram de o fuzilar. Varlin reuniu muitos tipos de heroísmo – do organizador, do agitador, do pensador lúcido, do combatente.

Em termos despretensiosos, os dois artigos que aqui traduzo* esclarecem, com notável antecipação, as principais contradições que haveriam de debilitar o movimento operário a partir da revolução russa, as suas promessas, os lamentáveis fracassos, o ponto de recomeço. Louis-Eugène Varlin concebia a luta como uma pedagogia prática. Por isso só acessoriamente lhe importavam as reivindicações pontuais, e insistia sobretudo na necessidade de desenvolver formas de organização que permitissem a máxima participação de todos os trabalhadores. Gerir as lutas era, na sua opinião, o único treino para gerir, mais tarde, a sociedade e a economia. Sem isso os trabalhadores limitar-se-iam a substituir uns patrões por outros, uns administradores por outros, renovando as classes dominantes e reforçando, portanto, o capital. Não se pode duvidar que as teses de Varlin mantenham hoje uma plena actualidade.

GREVE E RESISTÊNCIA

(artigo publicado em Le Travail, nº 22, 31 de Outubro de 1869)

«A greve, a resistência do trabalho contra o capital, é a grande preocupação actual de todos os trabalhadores.

Por todo o lado, em todas as profissões, em todos os países, surgem greves com proporções enormes. Que significa este movimento? Onde nos conduz?

Será que aqueles trabalhadores que desde há alguns anos se agruparam, criaram sociedades de solidariedade, de resistência, câmaras sindicais e, para organizarem as reivindicações do proletariado moderno, fazem um supremo esforço para aconselhar, guiar e ajudar os que hoje se deixam arrastar como por uma corrente irresistível, sem estarem previamente preparados, sem terem calculado as probabilidades de êxito nem reflectido nas consequências do seu acto – será que eles conseguirão dominar esta situação?

De qualquer modo, os esforços que lhe dedicam provam a importância que dão a esse movimento.

O povo anseia por uma repartição mais justa da produção geral; quer participar nas vantagens que a ciência pôs ao serviço da indústria e de que uma minoria da população se apoderou e pretende conservar apenas para si. Numa palavra, a questão social impõe-se e quer ser resolvida.

Caberá à greve a resolução? Não, pelo menos na sua forma actual. Mais tarde veremos.

Hoje, perante a obstinação com que os detentores dos capitais defendem os seus privilégios, a greve não passa de um círculo vicioso, no qual os nossos esforços parecem não levar a parte nenhuma. O trabalhador pede um aumento de salário para responder à carestia causada pela especulação; os especuladores respondem ao aumento do preço da mão-de-obra mediante uma nova subida do valor dos produtos. E assim por diante, os salários e os [preços dos] produtos aumentando sem parar.

Por que razão operários dedicados, activos e inteligentes consagram toda a sua energia, toda a influência que são susceptíveis de exercer sobre os seus companheiros, a prosseguir este movimento que sabem não ter saída? É que para eles a questão prévia a qualquer reforma social é a organização das forças revolucionárias do trabalho.

Em todas as greves o que nos preocupa não é tanto o insignificante aumento salarial, a pequena melhoria das condições de trabalho. Tudo isso é apenas secundário; são paliativos que servem enquanto se espera por alguma coisa melhor. Mas o supremo objectivo dos nossos esforços é o agrupamento dos trabalhadores e a sua solidariedade.

Até agora fomos maltratados e explorados impiedosamente porque estávamos divididos e sem força. Hoje já se começa a contar connosco, já podemos defender-nos. É a época da resistência. Em breve, quando todos estivermos unidos, quando nos pudermos apoiar uns aos outros, então, como somos os mais numerosos e como, afinal, toda a produção resulta do nosso esforço, poderemos exigir, tanto na prática como legalmente, a totalidade do produto do nosso trabalho, como é justo.

Nessa altura os parasitas deverão desaparecer da superfície da terra. Se querem viver, deverão transformar-se em produtores, em pessoas úteis.

Acima de tudo, o mais importante é que os trabalhadores estejam organizados. O movimento está no bom caminho, a união prossegue em todos os sectores da actividade humana. Os operários industriais já não são os únicos a sentir essa necessidade de organização. Os empregados do comércio começaram a seguir o nosso exemplo, e parece quererem segui-lo também os empregados da administração: telégrafo, correios, ferrovias, etc.

Para que possamos encarar sem medo um futuro tempestuoso é necessário que todos os trabalhadores se sintam solidários.»

AS SOCIEDADES OPERÁRIAS

(artigo publicado em La Marseillaise, nº 81, 11 de Março de 1871)

«Enquanto os nossos estadistas procuram substituir o regime do governo pessoal por um governo parlamentar e liberal (estilo Orléans), esperando assim desviar o avanço de uma revolução que ameaça os seus privilégios, nós, os socialistas, que sabemos por experiência que todas as velhas formas políticas são impotentes para satisfazer as reivindicações populares, nós devemos, aproveitando os erros e deslizes dos nossos adversários, apressar a hora da libertação. Devemo-nos dedicar activamente à preparação dos elementos de organização da sociedade futura, de modo a tornar mais fácil e mais certeira a obra de transformação social que se impõe à Revolução.

Até agora, os Estados políticos mais não têm sido do que a continuação do regime de conquista que presidiu ao estabelecimento da autoridade e à opressão das massas. O que sempre tem existido é a autoridade encarregada de manter as populações no respeito da lei estabelecida em benefício de alguns. Essa autoridade pode ser mais ou menos rígida, mais ou menos arbitrária, mas isto não altera a base das relações económicas e os trabalhadores continuam sempre na dependência dos detentores do capital.

Para ser definitiva, a revolução que se avizinha não deve limitar-se a uma simples mudança do rótulo governamental e a algumas reformas de detalhe. A sociedade não pode continuar a deixar a riqueza pública à disposição dos privilégios arbitrários do nascimento ou do êxito. Produto do trabalho colectivo, a riqueza pública só pode ser empregue em proveito da colectividade. Mas esta riqueza social só pode assegurar o bem-estar da humanidade se estiver nas mãos do trabalho.

Portanto, se o capitalista, industrial ou comercial, deve deixar de dispor arbitrariamente dos capitais colectivos, quem os fará frutificar em benefício de todos?

Se não quisermos converter tudo num Estado centralizador e autoritário, que nomearia os directores das fábricas, das manufacturas, dos estabelecimentos de distribuição, os quais por sua vez nomeariam os subdirectores, os contramestres, etc., organizando-se assim hierarquicamente o trabalho de alto a baixo e deixando-se o trabalhador como uma mera engrenagem inconsciente, sem liberdade nem iniciativa, se não quisermos nada disto temos de admitir que os próprios trabalhadores devem dispor livremente dos seus instrumentos de trabalho, possui-los, com a condição de trocarem os seus produtos ao preço de custo, para que exista reciprocidade de serviços entre os trabalhadores das diferentes especialidades.

É esta ideia que tendem a apoiar em grande parte os trabalhadores que desde há alguns anos prosseguem energicamente a emancipação da sua classe. É ela que tem prevalecido nos diferentes congressos da A. I. T. [Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional].

Mas não se julgue que uma tal organização possa improvisar-se facilmente. Para isso não bastam alguns homens inteligentes, dedicados, enérgicos. É sobretudo necessário que os trabalhadores, convocados assim para trabalhar em conjunto, livremente e em pé de igualdade, estejam já preparados para a vida social.

Uma das maiores dificuldades com que se têm debatido os fundadores de todos os tipos de sociedades, tentadas nos últimos anos, é o espírito de individualismo, desenvolvido em excesso na maior parte das pessoas, mesmo entre aquelas que compreendem que só pela associação os trabalhadores podem melhorar as suas condições de vida e esperar a sua emancipação.

Pois bem, as sociedades operárias, quaisquer que sejam as formas em que hoje existam, têm já o imenso mérito de habituar os homens à vida em sociedade e de os preparar assim para uma organização social mais ampla. Habituam-nos, não só a porem-se de acordo e a compreenderem-se, mas também a ocuparem-se dos seus problemas, a organizarem-se, a discutirem, a discorrerem acerca dos seus interesses materiais e morais, e isto sempre sob o ponto de vista colectivo, porque o seu interesse pessoal, individual e directo, desaparece a partir do momento em que fazem parte de uma colectividade.

Juntamente com as vantagens que cada uma dessas sociedades pode conferir aos seus membros, o facto de desenvolverem a sociabilidade faz com que todas elas devam ser recomendadas pelos cidadãos que aspiram pelo triunfo do socialismo.

Mas as sociedades corporativas (de resistência, de solidariedade, sindicatos) são dignas sobretudo do nosso encorajamento e das nossas simpatias, porque são elas que formam os elementos naturais da edificação social do futuro. São elas que se poderão facilmente transformar em associação de produtores. São elas que poderão pôr em funcionamento a utensilagem social e a organização da produção.

Sucede com frequência que, de início, muitos dos seus membros não tenham consciência do papel que essas sociedades desempenharão no futuro. Primeiro preocupam-se apenas em resistir à exploração do capital ou em obter algumas melhorias de detalhe. Em breve, porém, os grandes esforços que têm de fazer, sem conseguirem mais do que paliativos insuficientes, ou chegando por vezes mesmo a resultados negativos, conduzem-nos fatalmente em busca das reformas radicais que podem emancipá-los da opressão capitalista. Passam então a estudar as questões sociais e fazem-se representar nos Congressos operários.»


* Ambos os artigos vêm reproduzidos em J. Rougerie, «Les Sections Françaises de l’Association Internationale des Travailleurs», em La Première Internationale. L’Institution, l’Implantation, le Rayonnement, Colloque International, Paris, 16-18 de Novembro de 1964, Paris: Centre National de la Recherche Scientifique, 1968.

CRISE DO SOCIALISMO NO MUNDO

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CRISE DO SOCIALISMO NO MUNDO

[Notas para uma palestra realizada no Espaço Cultural Helena Greco, do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Contagem, em 12 de Julho de 1995.]

«O socialismo morreu. Falar dele é fazer a sua oração fúnebre». Esta frase, que podia ter sido publicada na Folha de São Paulo de hoje, foi escrita por um obscuro jornalista francês, Louis Reybaud, em 1854. O socialismo estava então morto no sentido literal da palavra. A repressão à insurreição dos operários de Paris de 23 a 26 de Junho de 1848 fizera de 4.000 a 15.000 cadáveres.

Neste sentido, o socialismo nunca deixou de estar em crise. Se a sua razão de ser é a instauração de uma nova organização social, em que deixe de haver exploração e, portanto, classes sociais e opressão política, o mero facto de o socialismo não triunfar constitui uma crise do socialismo.

A primeira grande crise resultou da derrota na vaga de revoluções que agitou a Europa de 1846 a 1848. Fracassaram então as tentativas do proletariado para se emancipar da burguesia radical.

A segunda crise resultou do esmagamento da Comuna de Paris de 1871. Fracassou a primeira tentativa do proletariado para instaurar uma sociedade socialista.

A terceira crise resultou da derrota e da desagregação do grande surto insurreccional dos soldados e dos trabalhadores das fábricas e dos campos na Europa de 1916 a 1921. Numa fase em que o capitalismo era já imperialista, o socialismo só podia ser internacional. Mas o movimento foi derrotado pelas armas na Hungria e na Alemanha, desagregou-se nos outros países e degenerou rapidamente na Rússia.

A quarta crise resultou da maneira como se operaram as independências dos povos colonizados, desde a segunda guerra mundial até à década de 1970. Ficou manifesta a incapacidade dos trabalhadores para converterem o processo de independência numa revolução social. Os trabalhadores serviram de base para a instauração de capitalismos autóctones.

A quinta crise resultou da desagregação e da recuperação dos movimentos de luta autónoma, que proliferaram e se desenvolveram desde o final da década de 1950 até aos primeiros anos da década de 1980 na Europa de Leste e na Europa ocidental, na América do Norte, na China e em países da América do Sul. A autonomia de que os trabalhadores deram mostras na direcção das suas lutas e no controle exercido sobre muitas empresas ocupadas foi recuperada pelos capitalistas mediante a introdução de novos sistemas de administração e de organização dos processos produtivos.

A história do movimento socialista tem sido a história das crises do socialismo. A crise mais grave do socialismo é o facto de o capitalismo continuar a existir.

No entanto devem observar-se dois aspectos:

1) O movimento nunca foi retomado no ponto inicial. De crise para crise tem-se avançado para novos limiares, em que os trabalhadores visam mais alto. Não é um círculo vicioso, mas uma espiral ascendente. Isto deve-se ao facto de cada grande surto de luta dos trabalhadores obrigar os capitalistas a reorganizarem-se e a remodelarem o sistema de exploração. E é neste sistema renovado que os trabalhadores recomeçam o combate.

2) Mas todos nós temos a noção de que alguma coisa diferente se passou nos últimos anos e que a derrocada dos regimes de tipo soviético foi mais marcante ainda do que qualquer das fases anteriores. Com efeito, é possível apercebermo-nos de que o fim do bloco soviético marcou o epílogo de um ciclo de crise muito longo, que inclui todas as outras crises que acabei de enumerar.

Existem duas grandes tradições no socialismo, uma libertária e a outra paternalista e autoritária. Ambas datam do início do movimento e com frequência a demarcação entre elas não tem sido nítida. A obra de muitos socialistas pode ser interpretada como casos específicos de conjugação de uma e outra corrente.

A tradição paternalista e autoritária propõe as relações sociais existentes no quadro das empresas como modelo da sociedade futura. Pode fazê-lo explicitamente, quando enaltece a organização do trabalho e a disciplina de empresa, ou implicitamente, quando concentra todas as preocupações na tomada do aparelho de Estado central, admitindo portanto que a organização do trabalho não constitui um problema significativo.

Esta tradição paternalista e autoritária é responsável pela relutância que existe nos meios de esquerda em analisar as empresas enquanto aparelho de poder. Isto não impediu, porém, que a crítica prática dos trabalhadores ao sistema empresarial se manifestasse desde muito cedo.

Robert Owen, o primeiro dos socialistas ditos utópicos, fundou em 1825 a comunidade de New Harmony. A terra e as oficinas eram propriedade comum, a agricultura era colectiva e a remuneração era igual para todos. A experiência foi um insucesso, e nas condições económicas de então não podia deixar de o ser. Mas o importante é que se malogrou antes de se terem manifestado os impedimentos económicos mais gerais. A razão imediata do fracasso deveu-se à insatisfação dos pioneiros que participavam na comunidade perante a gestão autoritária de Owen. Em 1826 a comunidade cindiu-se em várias facções e a ruptura tornou-se definitiva em 1827.

Em New Harmony as relações jurídicas de propriedade haviam sido remodeladas, mediante a instauração da propriedade comum e o igualitarismo dos salários. Mas as relações sociais de produção permaneceram inalteradas, pois a gestão continuava a ser autoritária e, portanto, os trabalhadores continuavam despossuídos do controle do processo de trabalho. Os pioneiros que haviam acorrido ao apelo de Owen eram insatisfeitos sociais, experimentadores de formas novas, iluminados, e deparavam-se com quê? Com o autoritarismo inerente às relações de exploração. A coberto do Novo Mundo, era o velho mundo que lhes aparecia. Foi esta a razão interna do fracasso.

O mesmo sucedeu com as outras comunidades inspiradas por Owen, dezasseis nos Estados Unidos e sete na Grã-Bretanha. Em todas surgiu a discórdia entre, por um lado, os operários, que trabalhavam, e, por outro, os filantropos burgueses, que subsidiavam e geriam. Talvez fosse pelos mesmos motivos que a tentativa de Owen de se apoderar da incipiente organização sindical britânica e de aproveitá-la para a generalização dos mecanismos cooperativos de produção e de troca, que pareceu ter tanto êxito entre 1832 e 1834, redundou afinal num novo insucesso.

Robert Owen pretendeu transformar as relações de propriedade, mas deixou intactas as relações de produção, as relações de trabalho. A distinção entre relações de propriedade e relações de produção, que demorou tanto tempo e custou tantos esforços teóricos até começar a ser compreendida e formulada no quadro do marxismo heterodoxo, presidira já, na prática, aos antagonismos sociais que rasgaram por dentro as comunidades fundadas por Owen e pelos seus discípulos. Sob este ponto de vista, a fase iniciada em 1826 com a desagregação de New Harmony só se encerrou na última década do século XX, com a extinção do comunismo soviético.

Se esta perspectiva de síntese estiver correcta, concluímos que ao longo de cento e setenta anos se generalizou na classe trabalhadora a experiência da distinção entre as relações jurídicas de propriedade e as relações sociais de trabalho. Esta distinção foi primeiro feita em 1825, logo no início do movimento operário, pela própria prática de um grupo de trabalhadores mais activos. No entanto, passaram muitas décadas até que aquela distinção fosse formulada teoricamente. Em 1900, no exílio siberiano, Makhaisky foi o primeiro autor a pensar de maneira sistemática a distinção entre relações de propriedade e relações sociais de produção, e a reflectir sobre as implicações desta distinção segundo um ponto de vista revolucionário. A revolução russa de 1917 representou, no quadro marxista, o choque entre o partido bolchevista, que remodelou apenas as relações políticas e jurídicas, e um movimento de massas trabalhadoras, que pretendia levar a reestruturação às próprias relações sociais de trabalho. O mesmo choque se observou, no interior do anarco-sindicalismo, durante a guerra civil de Espanha, entre 1936 e 1939. Mas o triunfo do fascismo em Espanha dificultou a compreensão desta experiência, ou pelo menos a sua difusão. A União Soviética, e depois os outros países do seu bloco, elucidaram os resultados práticos do conflito entre a mera reforma das relações de propriedade e as tentativas de revolucionar as relações de trabalho. A crítica prática dirigida pelos trabalhadores contra o modelo soviético de socialismo foi demonstrada em inúmeras ocasiões, desde o próprio começo da guerra civil na Rússia, em 1918, até ao colossal movimento do sindicato Solidariedade, na Polónia, em 1980 e 1981. Nesta vaga de lutas a crítica teórica revelou um atraso menor do que aquele que a havia caracterizado no século XIX, e durante as décadas de 1920 e 1930, como de novo nas décadas de 1960 e 1970, floresceram as oposições de esquerda ao comunismo de tipo soviético.

É curioso ver que muitos intelectuais e militantes políticos só recentemente acordaram para o fracasso daquilo a que ainda há poucos anos chamavam «socialismo real». O que os preocupa não é o facto de os regimes de tipo soviético não terem aberto oportunidades para a remodelação das relações de trabalho. Só lamentam o facto de aqueles regimes terem deixado de servir de modelo para a tomada do poder político, devido às transformações entretanto operadas no capitalismo. E tanto assim que essas pessoas procuram fazer esquecer que a crítica prática e teórica do comunismo soviético vinha a ser feita desde 1918. As repetidas lutas da classe trabalhadora contra os regimes de tipo soviético não são hoje referidas nem analisadas na grande imprensa e na obra dos intelectuais em voga, e os autores que as relataram ou analisaram não são traduzidos nem editados, ou reeditados.

Mas as angústias dos intelectuais e políticos que só deram conta do fracasso do «socialismo real» depois de toda a gente o ter entendido não fazem parte da crise do socialismo. Fazem parte da crise do reformismo. A social-democracia reformista perdeu o seu programa próprio e tem hoje de converter-se apressadamente ao neoliberalismo.

E isto deve deixar-nos optimistas. Já não é mau, para encetar um novo ciclo do movimento anticapitalista, que o reformismo esteja hoje numa situação tão melindrosa.


DESEMPREGO OU REORGANIZAÇÃO DO PROLETARIADO?

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DESEMPREGO
OU REORGANIZAÇÃO DO PROLETARIADO?

Ter-se-á o trabalho humano tornado dispensável, pelo menos nas economias mais evoluídas? Esta questão encontra uma resposta afirmativa por parte de muitos desiludidos de esquerda, que deduzem daqui que já não há classe trabalhadora e, por conseguinte, que deixou de ser possível a luta pelo socialismo. Sem me preocupar muito com as decepções da antiga esquerda, vejamos esta tese tal como foi formulada por um dos mais notáveis economistas.

A Business Week (7 de Novembro de 1983) resumia um artigo de Wassily Leontief publicado na Population and Development Review: «Leontief considera que o “aumento explosivo” verificado no output global e no bem-estar geral em virtude da revolução industrial dependeu não só do funcionamento de um sistema de preços competitivos estimulado pela procura do lucro, mas também do carácter específico da tecnologia do século XIX. A substituição da força muscular pela força mecânica, observa ele, aumentou na realidade a função do trabalho enquanto o mais importante factor de produção. “A procura de trabalhadores qualificados, necessários para manter em funcionamento máquinas complexas, mas estúpidas, substituiu a procura de trabalho físico não-qualificado”. Em consequência disto aumentou a parte do rendimento nacional que cabia ao trabalho […] Na era da electrónica, porém, “não só as funções físicas, mas também as funções de controle ‘mental’ necessárias à produção de bens e serviços podem ser executadas sem a participação do trabalho humano”. Além disso, enquanto o sector dos serviços não pode continuar indefinidamente a compensar a perda de empregos na agricultura e na indústria, “a substituição do trabalho por máquinas cada vez mais eficientes parece não ter limites”. Assim, Leontief prevê que a função do trabalho enquanto factor de produção indispensável diminua progressivamente, levando a um desemprego crescente e a efeitos socialmente nocivos quanto à distribuição dos rendimentos».

A argumentação de Wassily Leontief é interessante porque deixa patente a sua principal limitação. Se a electrónica permite que as máquinas se tornem inteligentes, isto não leva à substituição da força de trabalho por máquinas. É certo que a curto prazo essas máquinas lançam no desemprego trabalhadores capazes unicamente de executar operações menos inteligentes do que aquelas a que a máquina está habilitada. A longo prazo, porém, a tendência é muito diferente e a introdução de máquinas inteligentes pressiona a formar uma força de trabalho com qualificações intelectuais cada vez maiores, capaz de lidar com essas máquinas. O processo tecnológico descrito por Leontief não leva ao desemprego, mas ao aumento da qualificação da força de trabalho. Para os patrões, trata-se de explorar a capacidade mental dos trabalhadores, obrigando-os a uma actividade sempre mais complexa, o que significa mais intensiva e, ao mesmo tempo, mais qualificada. É exactamente este o processo de desenvolvimento da mais-valia relativa, que constitui o quadro natural e previsível da evolução da classe trabalhadora e da reprodução ampliada do capital. É no modelo da mais-valia relativa que mais flagrantemente se confirma a capacidade revelada por Karl Marx de entender o âmago do modo de produção capitalista e o eixo do seu desenvolvimento.

A linha de raciocínio que oponho à de Leontief não tem um mero fundamento teórico. A General Motors aprendeu, à sua custa, como são erradas as teses daqueles que julgam que as máquinas inteligentes tornam dispensáveis os trabalhadores. Em The Economist (10 de Agosto de 1991) analisa-se um caso muito instrutivo. Na década de 1980 a General Motors despendeu 80 biliões de dólares para automatizar as suas linhas de produção em todo o mundo. «Grassava então pelo país [Estados Unidos] uma febre de alta tecnologia. Não só se presumia que a introdução de robôs havia de reduzir o número de trabalhadores industriais, que saem caros e são por vezes desordeiros, mas pensava-se também aproveitar deste modo a superioridade dos Estados Unidos relativamente ao Japão em computadores e software». Mas com que resultados? A fábrica Hamtramck, em Detroit, concebida para demonstrar as maravilhas da nova tecnologia, depressa se tornou uma tragédia, segundo o ponto de vista de uns, ou, para outros, uma farsa. Erros de programação levavam as cadeias de montagem a parar durante horas, robôs desmembravam-se uns aos outros, ou espatifavam peças de automóveis, ou espalhavam a tinta em redor, e por vezes os veículos automáticos que deviam transportar os componentes ficavam sem se mover. Estes e outros problemas do mesmo género reproduziram-se em outras fábricas. «Segundo alguns cálculos, cerca de 20% das despesas realizadas pela General Motors em nova tecnologia foram gastos em vão». Para tentar corrigir a sua estratégia e aprender experimentalmente as formas de produção japonesas, a General Motors chegou em 1983 a um acordo com a principal rival, Toyota, para fundarem uma empresa joint venture denominada New United Motor Manufacturing Inc. (NUMMI), sendo o capital dividido a meias entre as duas companhias, mas encarregando-se a Toyota de toda a gestão. O funcionamento da nova empresa foi um êxito. As lições desta experiência, porém, revelaram-se tão contrárias às ideias correntes na época que a administração da General Motors se recusou durante vários anos a aceitá-las e, entretanto, a sua posição no mercado automóvel norte-americano desceu de cerca de metade das vendas para pouco mais de um terço em 1990. Por fim, a administração da General Motors acabou por aprender que «eram evidentes duas coisas. Os robôs não eram seguramente a chave do sucesso. E agora que o processo de fabrico japonês estava a ser exportado com êxito para os Estados Unidos tornava-se evidente que trabalhadores japoneses fanáticos e mal pagos não se comportavam como robôs. […] É certo que o grau de automatização nas fábricas de propriedade japonesa é ligeiramente superior ao existente nas de propriedade norte-americana ou europeia. Mas isto deve-se ao facto de os Japoneses terem descoberto que é mais fácil automatizar quando primeiro se insiste muito na qualidade. Só a partir do momento em que a produção está a decorrer sem problemas é que os Japoneses automatizam ou introduzem novos modelos. O que realmente distingue as fábricas geridas por Japoneses são coisas como a formação da força de trabalho e a classificação do emprego. […] tornou-se evidente que a verdadeira chave do sucesso para uma indústria automóvel competitiva não era a alta tecnologia, mas o modo como os trabalhadores eram treinados, geridos e motivados. É com estes “assuntos pessoais” que a General Motors, embora tardiamente, se está agora a ocupar. […] A lição custou caro, mas a General Motors acabou por aprender que o seu bem mais importante e mais valioso não eram os robôs, mas a sua própria força de trabalho».

É curioso que tantas pessoas da esquerda arrependida insistam em não aprender com os gestores das grandes empresas a importância da classe trabalhadora!

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O desemprego não se deve à introdução de máquinas. É claro que a substituição de pessoas por máquinas num dado ramo de produção gera desemprego neste ramo. Até agora, porém, as pessoas assim desempregadas têm servido para alimentar outros, ou novos, ramos de produção. A economia capitalista no seu conjunto tem crescido precisamente porque os seus ramos mais antigos vão necessitando de um número relativamente menor de trabalhadores. Nada ilustra melhor este processo do que o sucedido na agricultura. Sendo de início o sector esmagadoramente maioritário, que empregava a grande parte da força de trabalho, a agricultura passou hoje a ocupar, nos países desenvolvidos, uma percentagem ínfima da população activa. E, apesar disso, a utilização de máquinas, de produtos químicos e de todo um conjunto de instalações permitiu um enorme aumento da produção agrícola. Se nos satisfizermos com uma estatística muito simplificada, podemos afirmar que, antes do arranque do capitalismo industrial, mesmo nas regiões onde a economia artesanal atingira maior desenvolvimento era necessária a actividade de mais de 95% da população para alimentar uma população urbana constituída por menos de 5% do total; enquanto hoje, nos países mais industrializados, basta uma percentagem inferior a 5% da população total para produzir os alimentos necessários ao sustento de mais de 95% da população. No capitalismo, os progressos mais espectaculares da produtividade não ocorreram nas cidades, mas no campo. E sem a colossal diminuição da percentagem de trabalhadores necessários à produção de alimentos e de matérias-primas agrícolas não teria sido possível encontrar mão-de-obra para expandir o capitalismo industrial.

O trabalho não é uma quantidade fixa, que se reparta entre os trabalhadores disponíveis. Nos últimos cem anos a produtividade do trabalhador médio norte-americano aumentou cinco vezes, e isto não impediu a expansão da procura de emprego. Até agora tem-se verificado que a produção de bens em grande escala e com baixo custo criou, e depois desenvolveu, mercados de massas, o que teve por efeito estimular a produção noutros ramos da economia, criar ramos novos e ampliar o emprego. Se um dado ramo industrial estiver em expansão, os aumentos de produtividade que introduzir nos seus processos produtivos não levarão a nenhum declínio do emprego. Mas se não estiver em expansão, ou se a economia em geral se retrair?

Segundo The Economist (21 de Outubro de 1978), a taxa de desemprego nessa data, apesar de elevada, seria muito superior se a produtividade tivesse progredido ao mesmo ritmo que nas décadas anteriores. Em 1978 as sete maiores economias da esfera norte-americana (Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, República Federal Alemã e Reino Unido) tinham 13,2 milhões de desempregados. Teriam 41,5 milhões se o aumento real do Produto Nacional Bruto verificado de 1973 a 1977 se tivesse efectuado consoante a taxa de crescimento da produtividade média verificada no período de 1960 a 1977.

Noutro artigo, e referindo-se à Europa, The Economist (30 de Agosto de 1986) considerava que aquele declínio da produtividade, acompanhado por um nível salarial relativamente elevado, criara por sua vez um quadro de desemprego para o futuro. «Diz-se que os salários reais são rígidos se os salários em dinheiro reagem aos preços, mas não ao desemprego. […] Durante a década de 1970, o facto de os salários reais na Europa não terem diminuído paralelamente à baixa da produtividade desencorajou os investimentos promotores de emprego. Em consequência disto, verifica-se agora uma defasagem entre o montante de capital e a força de trabalho; mesmo que fosse plenamente usada a capacidade instalada, o desemprego permaneceria elevado». O desemprego fica assim colocado no seu verdadeiro contexto. Trata-se do aspecto humano de um problema geral de produtividade.

The Economist (27 de Setembro de 1986) sintetiza as conclusões de um inquérito por amostragem realizado pela Comissão Europeia, na linhagem de muitos outros que de então em diante, e por todo o mundo, têm insistido na mesma tecla. «Um novo inquérito realizado pela CEE [a actual União Europeia] calcula que se criariam empregos para cerca de metade dos 13 milhões de desempregados existentes na Europa ocidental se desaparecessem os impedimentos à reestruturação da semana de trabalho. […] Se a “flexibilidade” […] permitisse aos patrões ajustar as horas de trabalho às suas necessidades de produção, os custos laborais reduzir-se-iam e a procura de trabalho aumentaria». É esta a visão patronal.

Mas atenção – a relação entre a produtividade e o emprego não se deve calcular apenas no âmbito de cada empresa. Hoje o aumento da produtividade implica igualmente a terceirização, de maneira que um dado volume de produção (tanto bens materiais como serviços) obtido numa dada empresa não resulta apenas dos trabalhadores assalariados nessa empresa, mas de todos os outros (ou de uma parte das horas de trabalho de outros) em empresas subcontratantes.

Note-se ainda que a passagem de certos ramos de produção dos países mais industrializados para os países em desenvolvimento faz com que nestes últimos, onde a produtividade é menor, o mesmo volume de produção exija um maior número de trabalhadores. Este foi um factor de aumento do emprego à escala mundial.

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Uma parte do desemprego actual deve-se à profunda remodelação operada nos sistemas produtivos, que exigem mais trabalhadores com qualificações superiores, ou seja, aptos a laborar com as novas tecnologias. Por exemplo, segundo The Economist (9 de Junho de 1979), na República Federal Alemã, no final de Maio de 1979, havia 775.000 desempregados, aliás o número mais baixo desde Outubro de 1974; porém, os empresários afirmavam que mais de 600.000 postos de trabalho estavam vagos, devido à falta de trabalhadores suficientemente qualificados. Neste caso a introdução de novas tecnologias parece ser um fautor de emprego, e não de desemprego. Do mesmo modo, a propósito da situação no Reino Unido, The Economist (26 de Julho de 1986) observa que «grande parte dos desempregados tem as habilitações erradas e está nos lugares errados. […] Os trabalhadores qualificados em ramos de produção em declínio podem não ser capazes de mudar facilmente de qualificações e, assim, podem ter de se juntar ao grande número de trabalhadores mais jovens e não-qualificados, em busca de empregos não-qualificados, que são cada vez menos frequentes».

À medida que a produção se torna mais complexa, aumenta a percentagem ocupada pelos trabalhadores qualificados na força de trabalho total. Max Geldens, um dos administradores da McKinsey na Holanda, escrevia em The Economist (28 de Julho de 1984): «O sector da informação está a crescer muito rapidamente. Segundo os cálculos de Daniel Bell, os trabalhadores da informação representavam 17% da força de trabalho norte-americana em 1950 e podem ter subido agora a 65%. Usando critérios diferentes, Marc Porat afirma que 53% do rendimento pessoal nos Estados Unidos é desenvolvido hoje pelo trabalhador da informação. A Europa acabará por seguir o mesmo caminho. Na década de 1970 foram criados 19 milhões de novos empregos nos Estados Unidos. Destes, só 5% diziam respeito à manufactura, 11% surgiram em indústrias produtoras de bens, aproximadamente 12% no sector de serviços tradicional. Cerca de 72%, representando perto de 14 milhões de empregos, foram criados no sector da informação […]». Mas esta transformação das qualificações não é imediata e depara-se quer com os obstáculos suscitados pela inadequação das instituições de ensino quer com as resistências erguidas pelos trabalhadores em vias de desqualificação. As dificuldades na adequação da oferta de trabalho às exigências empresariais explicariam boa parte do problema do desemprego actual. Ainda segundo Max Geldens, em ibid., na Europa ocidental a principal defasagem entre a oferta efectiva de trabalho e a procura potencial resultava do «insucesso na adaptação do sistema educacional às habilitações funcionais que agora são necessárias […] 75% dos empregos administrativos deviam hoje ser executados com a ajuda de computadores, mas apenas 25% dos europeus que ocupam este tipo de empregos são capazes de manejar computadores, mesmo que de maneira rudimentar». E o mesmo autor observa que «não parece que os empregos no sector da informação venham a absorver os operários da indústria com a mesma facilidade com que os empregos industriais absorveram os trabalhadores agrícolas no século passado. São necessários programas de formação maciços». Aliás, sem pôr em causa o essencial do argumento, recorde-se que há um século a inserção dos rurais nos processos industriais não se fez com simplicidade e exigiu toda a colossal disciplina do taylorismo.

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Esta tese, que insiste nos obstáculos com que se depara a necessária requalificação da força de trabalho, é lógica e seria inteiramente aceitável se não fosse precisamente o facto de os jovens formarem uma percentagem muito elevada dos actuais desempregados. Segundo o modelo teórico tradicional, numa fase inicial da crise é natural que o emprego dos jovens diminua mais rapidamente do que o dos adultos, o que significa que se suspende a admissão de novos empregados. Na fase seguinte, quando a crise se aprofunda, o desemprego dos adultos começa a aumentar mais rapidamente do que o dos jovens, porque começam a ser despedidos os antigos empregados. Numa última fase, com a recuperação da crise, é normal que o desemprego total diminua e que o desemprego dos jovens diminua mais rapidamente ainda. Isto deveria verificar-se sobremaneira nas épocas de inovação tecnológica, quando as pessoas mais idosas não possuem as novas qualificações requeridas, as quais são apanágio da geração mais recente. Com a crise iniciada em 1974, porém, tal não sucedeu e o desemprego dos jovens continuou. Esta crise manifestou-se numa forma de desemprego estrutural com especial incidência sobre a juventude. As estatísticas mostram que desde há vinte e cinco anos a percentagem do desemprego entre os jovens é superior à média e que esta diferença se tem mantido, ou mesmo aumentado.

Poderia propor uma hipótese teórica para explicar o desemprego dos jovens, mediante a conjugação de dois aspectos: primeiro, a associação entre os processos de qualificação crescente das sucessivas gerações da força de trabalho e de desvalorização das gerações em exercício mediante a entrada em actividade de cada nova geração; e, segundo, a crise económica entendida enquanto destruição de valores. Quanto à associação entre aqueles processos recordo o que escrevi acerca da produção de trabalhadores mediante trabalhadores, e quanto a esta perspectiva de encarar a crise económica remeto para o capítulo 2.6 da Economia dos Conflitos Sociais. A aceitar-se esta hipótese, o desemprego maciço e por longo prazo da geração mais nova, em princípio dotada de maiores qualificações, corresponderia a um holocausto do valor desse «capital humano», como os ideólogos do capitalismo gostam de lhe chamar. E os efeitos deste tipo de desemprego sobre as gerações mais velhas que se mantêm activas seriam de duas ordens. No caso de os membros da nova geração caírem no desemprego antes ainda de terem começado a trabalhar, ficaria atrasado o momento da desvalorização das gerações anteriores; e como, ao mesmo tempo, o desemprego a longo prazo acarreta a perda de qualificações das pessoas que lhe estão submetidas, abrandar-se-ia também o ritmo da inovação tecnológica, ou seja, estaria precisamente a fazer-se aquilo que caracteriza uma crise económica. No caso de os membros da nova geração entrarem no desemprego pouco depois de terem começado a trabalhar, eles teriam já desencadeado os mecanismos de desvalorização da força de trabalho das gerações anteriores, sem que, por outro lado, deixassem de abrandar o ritmo do progresso tecnológico.

Todavia, não creio que este modelo de análise explique satisfatoriamente o actual fenómeno do desemprego juvenil, porque tal situação não atinge igualmente todos os jovens. É necessário diversificarmos o que se passa na nova geração da força de trabalho e vemos, então, que a categoria particularmente sacrificada pelo desemprego tem sido a dos jovens menos qualificados. As elevadíssimas proporções assumidas pelo actual desemprego juvenil não se explicariam, assim, no âmbito das relações entre o processo de qualificação e o processo de desvalorização, porque a maioria dos jovens desempregados ter-se-ia formado fora das principais vias de qualificação.

Poder-se-á admitir que a incidência do desemprego juvenil se verifique sobretudo naquela parte da população cuja miséria material se perpetua, sem ser arrancada a tal situação pelo desenvolvimento geral da economia? Certas análises estatísticas parecem confirmar a hipótese, mostrando que quanto mais elevado é o nível de escolaridade de um jovem, mais rapidamente ele encontra emprego e mais facilmente obtém empregos qualificados e melhor remunerados. Para se entender esta questão é necessário ter em conta que uma percentagem considerável de estudantes, depois de muitos anos de ensino obrigatório, se mantém num prático analfabetismo. Nos Estados Unidos, há uma dezena de anos atrás, entre 18 e 64 milhões de pessoas, consoante as estimativas, eram analfabetos funcionais, incapazes de ler mesmo uma pequena frase muito simples; hoje a situação não melhorou, e talvez se tenha mesmo deteriorado. Calcula-se também que em certas regiões da Europa o problema seja ainda mais grave.

Segundo esta hipótese, então, os ramos de produção estagnantes ou em declínio satisfar-se-iam com os trabalhadores já formados e empregariam um número decrescente de jovens. E os novos ramos de produção, que exigem o conhecimento de tecnologias avançadas e, em geral, um grau superior de qualificação, empregariam apenas uma percentagem relativamente reduzida dos jovens que em cada ano chegam ao mercado de trabalho, porque grande parte não corresponde às habilitações requeridas. Isto significaria que a causa da manutenção de elevadas taxas de desemprego entre os jovens não se encontra na esfera económica, mas na educacional.

Como é possível, porém, que países tão desenvolvidos, com tantos anos de escolaridade obrigatória, não consigam incutir nos jovens as qualificações consideradas necessárias? A defasagem não se pode dever a nenhum alheamento das instituições escolares relativamente aos requisitos do mercado de trabalho, pois os empresários têm hoje todos os meios directos e indirectos para orientar os programas e a formação no sentido que lhes parecer mais conveniente. Vejo uma única razão de fundo para tal defasagem – as condições de marginalização em que vive, nos países mais avançados, a parte da população proveniente do sector da mais-valia absoluta. Esta marginalização constitui uma verdadeira prisão social e quem nasce nesse meio raramente consegue fugir dele. A situação em que vegeta uma porção considerável da juventude da classe trabalhadora é bem visível na forma material assumida pelas condições sociais, ou seja, no quadro urbanístico, estando os bairros degradados claramente isolados do resto da cidade. Assim, o desemprego estrutural de jovens resultaria da dualidade estrutural do capitalismo desenvolvido, em que os progressos da mais-valia relativa não têm permitido absorver e liquidar a esfera da mais-valia absoluta. Mais do que uma questão económica, seria uma questão social.

Os efeitos destas condições sociais sobre o mercado de trabalho são acentuados por toda uma cultura juvenil, originada especialmente nos meios condenados à mais-valia absoluta, mas que a partir daí se divulga também entre o resto da juventude. Nos textos que escrevi acerca da produção de trabalhadores mediante trabalhadores procurei fornecer um modelo explicativo das atitudes contemporâneas de resistência ao sistema escolar. Na realidade, para sabotarem uma qualificação da força de trabalho que termina sempre numa desvalorização, aqueles jovens estão a recusar a sua própria qualificação e, portanto, a desvalorizar-se de imediato. O desemprego estrutural entre os jovens seria, assim, agravado por uma rebeldia profunda e generalizada que leva a rejeitar todas as formas de disciplina que não venham do interior do próprio grupo de jovens. Trata-se de um movimento de conversão da juventude, de camada etária, em soma de gangs de bairro. Entre eles reina o absoluto desinteresse por tudo o que saia de um universo marcado por quatro ruas e uma praça. Esta massa de jovens está destinada a tornar-se adulta, a viver e a morrer fora do mercado oficial de trabalho.

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Vejamos, antes de mais, as dimensões assumidas pelo desemprego de longo prazo nas economias mais evoluídas. Segundo The Economist (27 de Setembro de 1986), no total de desempregados, a percentagem dos que estavam nesta situação há um ano ou mais era, em 1985: Itália 47,9%; França 46,8%; Reino Unido 41,0%; República Federal Alemã 31,0%; Japão 15,2%; Canadá 10,3%; Estados Unidos 9,5% (para a Itália e o Japão os valores referem-se a 1984). Estes números não revelaram, em geral, tendência para melhorar. Em The Economist (11 de Junho de 1994), vemos, sobre o total dos desempregados, as percentagens dos que em 1992 estavam sem trabalho há um ano ou mais: Bélgica 59,0%; Itália 58,2%; Holanda 44,0%; França 36,1%; Reino Unido 35,4%; Austrália 34,5%; República Federal Alemã (ocidental) 33,5%; Japão 15,4%; Canadá 11,2%; Estados Unidos 11,2%; Suécia 8,0%. Segundo a mesma fonte (30 de Julho de 1994): «Mais de 40% dos 17 milhões de desempregados da União Europeia estão sem trabalho há pelo menos um ano; um terço nunca trabalhou». Na Europa de Leste, à excepção da República Checa, sempre seguindo os dados fornecidos por The Economist (9 de Julho de 1994), mais de 30% dos desempregados estavam sem trabalhar há um ano ou mais. A situação parece ter-se deteriorado rapidamente, pois ibid. (18 de Fevereiro de 1995) indica que mais de metade dos desempregados da Europa de Leste está sem trabalho há mais de um ano.

Uma das consequências sociais mais graves do desemprego de longa duração é pôr em risco a possibilidade de ter um lugar de residência. Se isto suceder, fica definitivamente afastada qualquer esperança de assalariamento, mesmo que precário. Apareceu assim, nos países mais desenvolvidos, uma nova camada de pessoas sem habitação fixa, socialmente diferentes dos antigos mendigos que povoavam as ruas. Segundo Loïc Wacquant, citado por The Economist (30 de Julho de 1994), «até à década de 1970 a expansão da economia repercutia-se em melhorias nas camadas sociais inferiores. […] Agora, quando a situação económica se agrava, as áreas marginalizadas pioram. Mas quando a economia progride, estas áreas não se juntam ao movimento». É neste quadro que se deve analisar o problema do desemprego estrutural de longa duração.

Um especialista destes assuntos, Guy Standing, observava («Towards Economic Democracy and Labour Flexibility? An Era of Experimentation», em Guy Standing (org.), In Search of Flexibility. The New Soviet Labour Market, Genebra: International Labour Office, 1991, pag. 367) que nos últimos anos ocorreu «um enorme crescimento do desemprego a longo prazo, ou seja, daqueles que estão sem trabalhar há um ano ou mais, o que agravou a “exclusão social” e comprometeu uma das funções macroeconómicas da reserva de trabalho em economias de mercado, já que os desempregados a longo prazo, pelo facto de estarem afastados da oferta efectiva de trabalho, exercem poucos efeitos directos sobre os salários». É este o círculo vicioso do desemprego estrutural. Quando os desempregados ficam efectivamente excluídos da procura no mercado de trabalho, a sua existência, mesmo em números muito elevados, deixa de suscitar pressões sobre os salários e sobre as condições de laboração dos trabalhadores empregados. Geram-se assim entre os desempregados duas categorias distintas, consoante o tempo em que permanecem nesta situação. Os desempregados recentes, que dispõem ainda de qualificações e fazem parte da procura efectiva de emprego, exercem por isso influência no sentido da baixa dos salários. Eles constituem aquele «exército de reserva» referido tradicionalmente, que serve aos patrões para manter a pressão sobre os trabalhadores empregados. Pelo contrário, a existência do desemprego de longa duração já não tem este efeito. Portanto, se as medidas destinadas a reduzir o número de desempregados beneficiarem sobretudo aqueles que caíram recentemente nesta situação, o nível salarial aumentará, com riscos inflacionistas para o capitalismo. Se os governos tomarem medidas em favor dos desempregados a longo prazo, a taxa de desemprego reduzir-se-á e apesar disto manter-se-ão pressões que evitam a subida dos salários e a aceleração da inflação.

Mas que motivos levariam à adopção de medidas destinadas a reduzir o desemprego de longa duração? Escreve Guy Standing na obra referida (pag. 370): «Os políticos chegaram à conclusão de que podem viver com uma taxa de desemprego elevada se só estiver seriamente ameaçada uma minoria de talvez 20% da população». Não se trata de uma percentagem deduzida por qualquer método científico, mas de maneira absolutamente empírica, em virtude das pressões sociais. A situação actual dos países mais desenvolvidos parece mostrar que 1/5 da população pode ser posto definitivamente à margem do mercado oficial de trabalho sem que isto provoque riscos de explosão violenta. Isolados do resto da sociedade pelas condições de marginalização em que vivem, os desempregados a longo prazo não são considerados, dentro daquele limite, como um perigo para a ordem dominante.

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Os desempregados a longo prazo só conseguem voltar a encontrar trabalho em profissões sem estabilidade de emprego nem segurança social. No melhor dos casos poderão laborar no quadro da terceirização. De resto, irão alimentar a economia informal, enquanto trabalhadores eventuais nas tarefas mais rudes, e poderão constituir uma mão-de-obra para o crime organizado. Vemos assim que, através da força de trabalho, a economia informal, incluindo a economia criminal, revela-se estruturalmente indispensável ao funcionamento da economia oficial.

A considerável importância assumida pela terceirização e pela economia informal deve ajudar-nos, aliás, a reduzir o desemprego à sua verdadeira dimensão. Segundo Max Geldens, que já citei várias vezes, escrevendo em The Economist (28 de Julho de 1984), «as pessoas que trabalham por conta própria e que trabalham não-oficialmente contribuem talvez com um terço da totalidade do trabalho realizado nos países da OCDE [os países mais desenvolvidos da antiga esfera norte-americana]». A consequência imediata deste fenómeno é de ordem estatística. O número de trabalhadores activos é na realidade muito superior àquele que se encontra registado oficialmente e, por conseguinte, a percentagem dos efectivamente desempregados é bastante menor do que a indicada nas estatísticas oficiais. Muitos dos oficialmente desempregados trabalham na economia informal.

E é aqui que começamos a ver as implicações profundas daquele fenómeno que na sociedade contemporânea aparece superficialmente como desemprego. Trata-se, antes de mais, de uma reorganização global da força de trabalho, reservando-se a estabilidade de emprego e a segurança social para uma minoria de profissionais altamente qualificados, e por isso mais produtivos, e condenando-se os restantes a uma actividade instável ou a tempo parcial, em boa medida excluída do quadro legal. Ou seja, aquilo que as estatísticas apresentam como uma força de trabalho desempregada é, em grande parte, uma força de trabalho que labora em situação de inferioridade ou de franca marginalização.

As consequências e as implicações do crescimento da economia paralela são muitíssimo graves. Junto com a terceirização, à qual aliás serve frequentemente de base, a economia informal revela-se hoje como um perigoso factor de diferenciação na classe trabalhadora. Além das rivalidades nacionais está a generalizar-se um novo tipo de divisão, que afecta os trabalhadores não só mundialmente, mas em cada país, repartindo-os entre: 1) um núcleo de profissionais altamente qualificados e, por isso, muito produtivos, o que lhes permite receber salários relativamente elevados e, sobretudo, gozar de estabilidade no emprego e de direitos sociais; 2) uma vasta franja de trabalhadores empregados em empresas subcontratantes, ou laborando em regime de terceirização ou de part-time, e que, além de ganharem menos, têm uma situação sempre precária; 3) um sector socialmente marginalizado e condenado às formas mais degradadas da mais-valia absoluta. É nestes segundo e terceiro sectores que hoje se difunde a economia informal.

Em conclusão, o desemprego estrutural a longo prazo não anuncia qualquer declínio do papel central desempenhado pela classe trabalhadora. Pelo contrário, confirmamos a plenitude deste papel, pois a realidade que se oculta por detrás do desemprego não é o fim do trabalho, mas a reestruturação da força de trabalho.

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Uma peculiaridade da situação contemporânea é que as grandes empresas, ao mesmo tempo que se reforçam enquanto Estado Amplo mediante a marginalização a que condenam o Estado Restrito, reduzem muitas das suas funções relativamente à força de trabalho. A subutilização da mão-de-obra não era só uma forma de ocultar a taxa real de desemprego. Era também uma maneira de manter o maior número possível de pessoas inseridas no principal quadro de disciplina social, o trabalho assalariado, com as suas hierarquias, as suas normas e os seus critérios morais. Ao assumirem para com uma boa parte da força de trabalho o compromisso de lhe garantir o emprego, os empresários estavam a ter em conta os interesses gerais da sociedade capitalista, e portanto a comportar-se responsavelmente, enquanto dirigentes de um aparelho de Estado. Nos últimos anos, porém, parece que a estratégia empresarial já não se guia por objectivos globais em nada do que diga respeito à força de trabalho. Isto reflecte-se de maneira elucidativa nas estatísticas, pois os indicadores respeitantes à vida de cada grande empresa podem revelar uma melhoria crescente, ao mesmo tempo que os indicadores económicos gerais estão em contínua deterioração. Quando as microeconomias prosperam e a macroeconomia sofre, conclui-se que as partes somadas não resultam no todo. Esta diferença é sinónimo da ausência de responsabilidade com que, no neoliberalismo, as grandes empresas se têm comportado enquanto poder soberano. Nos assuntos internos dos capitalistas, porém, as grandes empresas não deixaram de se manter atentas e intervenientes, tomando directamente em mãos os canais de informação, os meios de decisão e os principais veículos de execução, e enfeitando a festa com os subsídios que sustentam uma multiplicidade de manifestações culturais da elite.

As grandes empresas levam em consideração os interesses globais no que diz respeito às relações entre capitalistas e não os consideram a propósito das relações com os trabalhadores. Será esta a grande vulnerabilidade do capitalismo na fase actual? Na realidade a situação pode manter-se porque os trabalhadores estão a lutar fraccionados, tantas vezes individualizados, e não colectivamente. A actuação paradoxal do Estado Amplo explica-se simplesmente pela situação fragmentária da classe trabalhadora. Por isso o Estado Amplo não tem tomado os trabalhadores em conta enquanto globalidade. Guy Standing, um especialista destas questões, que há pouco citei, comenta friamente na mesma obra (pag. 373): «Enquanto que na década de 1960 e no começo da de 1970 os patrões, para evitar riscos de interrupção da produção, antecipavam-se frequentemente às regulamentações e tomavam a iniciativa de introduzir sistemas que aumentavam a segurança dos trabalhadores, na década de 1980 encabeçaram a “desregulamentação”, certos de que a porta estava aberta, de que outros seguiriam o mesmo caminho e de que a resistência dos trabalhadores tinha enfraquecido. A insegurança no trabalho tornou-se o principal incentivo, ao mesmo tempo que a intensificação do trabalho garantia o aumento da produtividade». O neoliberalismo só poderá ser ultrapassado quando os trabalhadores obrigarem o capital a reconhecer-lhes a existência colectiva.

Se for exacta a afirmação de Guy Standing, de que actualmente a ordem capitalista pode suportar sem riscos um desemprego que ameace 20% da população, então a estratégia adequada será a de mobilizar estes 20% na luta contra o desemprego e contra a precarização do trabalho. Em última análise, a terceirização, a economia informal e o desemprego diminuirão quando aqueles que sofrem estas situações obrigarem os empresários a aumentar o número de postos de trabalho e a conferir-lhes estabilidade.

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Mas poderão os sindicatos lutar contra a terceirização e o desemprego, ou será que a sua integração nos mecanismos capitalistas – quando não mesmo a sua conversão em empresas capitalistas – os faz serem eles próprios um factor de desemprego e de trabalho precário? Leio na Chave Geral/O Transformador (27 de Outubro de 1994), reproduzida na Quinzena CPV (31 de Outubro de 1994), a seguinte informação: «Um exemplo da força das comissões de fábrica foram greves contra a terceirização, realizadas em empresas como a Mercedes-Benz e Elevadores Otis. São as comissões de fábrica que buscam mapear e estabelecer o controle local do processo de terceirização. Na Volkswagen e Ford os metalúrgicos conquistaram o direito à negociação prévia de qualquer transferência de actividade para terceiros». Ao meditar sobre esta notícia surgiu-me uma dúvida. Será que os membros das comissões de fábrica se irão incluir a eles próprios entre os trabalhadores que se destinam a ser terceirizados?

Negociar o ritmo a que se processam as demissões e a terceirização é uma coisa. Outra, muito diferente, é mobilizar os desempregados e os terceirizados. Decerto as hesitações dos sindicatos relativamente a este problema explicam-se pelas próprias relações de trabalho no interior dos sindicatos, onde a demissão e a terceirização são práticas correntes. A Quinzena CPV (31 de Janeiro de 1995) reproduz um artigo publicado em Inverta (16 de Janeiro de 1995): «A Central Única dos Trabalhadores começa a demitir seus funcionários para enxugar a máquina que fechou o caixa em 94 com R$300 mil de prejuízo. Na primeira leva foram demitidos 35 trabalhadores de um total de 117, o que reduzirá em 30% as despesas da CUT, segundo seu tesoureiro Todeschini. A receita da CUT Nacional depende em mais de 40% dos dólares vindos da CIOSL – Confederação Internacional da Organização dos Sindicatos Livres, ligada ao sindicalismo norte-americano, que diminuiu a remessa de verba, e das contribuições dos sindicatos filiados. Dos 2.400 sindicatos filiados, apenas 900 contribuem regularmente e a orientação da direcção nacional é terceirizar os serviços, vender os prédios faraónicos, diminuir a frota e demitir trabalhadores, como aconteceu com a fusão dos Químicos com Farmacêuticos e Plásticos, demitindo 60 funcionários. Demissões deverão ocorrer no Sindicato dos Motoristas e Bancários de São Paulo que tem 350 funcionários». Ainda na Quinzena CPV (30 de Abril de 1995) transcreve-se um artigo de Edson Monteiro, «PT se Defronta com a tal Modernidade», publicado originariamente em O Grito (nº 2, Abril de 1995): «A central [CUT], que tinha 132 funcionários, conseguiu 27 demissões voluntárias e deu as contas, até Dezembro, para outras três pessoas. “Tínhamos mais pessoas do que o necessário”, afirmou o presidente da CUT, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho».

O problema consiste, precisamente, no critério pelo qual se define a necessidade das pessoas.


DESEMPREGO OU CRESCIMENTO DO PROLETARIADO?

IV

DESEMPREGO
OU CRESCIMENTO DO PROLETARIADO?

Se alguma coisa deve impressionar ao longo de mais de dois séculos de capitalismo não é o desemprego, mas exactamente o contrário, a capacidade deste modo de produção para absorver força de trabalho. Nunca poderemos apreciar o fenómeno na sua verdadeira dimensão se nos limitarmos a contabilizar o aumento do número de empregos de ano para ano. A questão básica é a expansão do sector capitalista no interior da economia globalmente considerada. Há cerca de dois séculos atrás, quando começou o capitalismo industrial, o proletariado constituía uma fracção mínima da população naquele punhado de países onde o capitalismo existia e, relativamente à população mundial, representava uma percentagem desprezável. Mesmo nos países e regiões onde o sector capitalista mais se desenvolvia, continuavam a ser muito numerosos os trabalhadores que exerciam a actividade em oficinas artesanais. Além disso, grande parte da economia agrária era pré-capitalista, prosseguindo no âmbito das unidades familiares, onde o assalariamento de força de trabalho não só era esporádico, como assumia formas arcaicas. E a totalidade do comércio varejista realizava-se também consoante um sistema familiar. As grandes lojas de departamentos só começaram a surgir na segunda metade do século XIX e eram muito poucas as que então existiam.

Num período bastante curto, se o virmos com os olhos de um historiador, à escala da evolução da humanidade, o capitalismo deixou de ser um sector económico minoritário e converteu-se na totalidade da economia mundial. Liquidou ou assimilou todos os outros regimes económicos e, portanto, integrou na classe proletária os trabalhadores que antes laboravam exteriormente ao capitalismo. Jornaleiros rurais pré-capitalistas, detentores de pequenas terras que asseguravam com elas o sustento das suas famílias, profissionais liberais, prestadores de serviços independentes, trabalhadores no quadro doméstico – todos eles desaparecem na voragem da proletarização. Este colossal crescimento da força de trabalho, esta extensão do proletariado a todo o planeta, constitui um dos elementos mais notáveis do capitalismo, que foi capaz de criar, no seu interior, emprego para centenas de milhões de pessoas. Aliás, mesmo recentemente o número de empregados continuou a aumentar. Nos países da OCDE, ou seja, os países mais desenvolvidos da antiga esfera norte-americana, durante a década de 1970, que foi a mais atingida pela crise, o número de empregos aumentou de 28 milhões, só menos 1 milhão do que durante a década de 1960. E The Economist (22 de Maio de 1993) indica que «em 1992, 66% da população da OCDE com idades compreendidas entre os 16 e os 64 anos estava empregada, enquanto a percentagem equivalente era só de 64% em 1982, o que representa um acréscimo de 40 milhões de pessoas a trabalhar». Só neste quadro devemos analisar os actuais problemas do desemprego.

Além desta extensão numérica da proletarização ocorreu outro processo igualmente significativo, a sua intensificação. Uma das modificações sociais mais importantes verificadas durante o século XX, e estimulada pelas duas guerras mundiais, foi a generalização do assalariamento feminino. Aparentemente tratar-se-ia apenas de um dos aspectos da extensão da força de trabalho. Mas se considerarmos a família como unidade de trabalho, e portanto o salário como salário familiar, vemos que onde a subsistência era assegurada só pelo elemento masculino ela passou a ser assegurada por ambos. Intensificou-se, portanto, o assalariamento da unidade familiar. É certo que se deve tomar aqui em conta a proibição do emprego infantil nos países economicamente mais desenvolvidos. Mas não creio que isto ponha em causa a minha tese, porque nos países mais desenvolvidos verifica-se ao mesmo tempo o declínio da taxa de natalidade.

Mas a intensificação da proletarização tem outro aspecto, mais importante ainda pelas suas potencialidades. Por um lado, aquilo que se denomina desenvolvimento do capitalismo consiste, sob o ponto de vista da força de trabalho, exclusivamente na conjugação de dois processos, o aumento da intensidade do trabalho e o aumento da sua qualificação. Aumentar a intensidade do trabalho significa realizar uma maior quantidade das mesmas operações durante um dado número de horas. Aumentar a qualificação do trabalho significa realizar operações de novo tipo, que exijam maior destreza manual ou, na época actual, mais instrução e superior capacidade de raciocínio e de organização. Estes dois processos articulam-se em ciclos. Proponho denominar trabalho complexo aquele que é ao mesmo tempo mais intensivo e mais qualificado. Um aumento decisivo na qualificação do trabalho permite entrar numa fase nova que, de então em diante, prossegue sobretudo mediante o aumento da intensidade, até que estas possibilidades se esgotem, avolumando-se as pressões para a passagem a uma nova fase na qualificação. Por outras palavras, o desenvolvimento da qualificação abre um novo quadro de complexidade, e o desenvolvimento da intensidade explora as possibilidades internas deste quadro.

Ambos estes processos implicam um maior tempo de trabalho despendido durante o mesmo horário de trabalho. No capitalismo não existe um tempo único, e o lucro dos patrões resulta da defasagem que eles são capazes de introduzir entre esses vários tempos. Se durante as mesmas oito horas a intensidade do trabalho duplicar, quer dizer, se a pessoa executar o dobro das operações dentro dos mesmos limites extremos, o tempo de trabalho despendido duplica também; a jornada passa a corresponder a duas das anteriores, ou seja, em oito horas de relógio a pessoa executa o equivalente a dezasseis horas do trabalho anterior. O mesmo se passa com o trabalho qualificado, que equivale a vários trabalhos elementares; durante uma dada jornada o tempo de trabalho real aumenta na mesma proporção em que o trabalho se tornar mais qualificado.

Note-se que na prática essas medições são difíceis de fazer com exactidão, porque a generalidade dos especialistas não tem mostrado interesse em estudar as técnicas que as tornariam possíveis. Isso só poderá suceder numa perspectiva crítica da exploração capitalista. Mas basta a colocação do problema para vermos como é inteiramente errado pretender que o tempo de trabalho se tem reduzido, com o argumento de que diminuiu o horário de trabalho. Um trabalhador contemporâneo, cuja actividade seja altamente complexa e que cumpra um horário de sete horas por dia, trabalha muito mais tempo real do que alguém de outra época, que estivesse sujeito a um horário de catorze horas diárias, mas cujo trabalho tinha um baixo grau de complexidade.

A redução formal do horário de trabalho tem correspondido a um aumento real do tempo de trabalho despendido durante esse período. Mas por que razão ocorre este processo, aparentemente contraditório, de redução dos limites e de aumento em profundidade? O mecanismo motor são as lutas sociais. A classe trabalhadora impôs sucessivas reduções da jornada de trabalho, que os capitalistas de cada vez recuperaram, aumentando a complexidade das tarefas executadas no interior do novo horário.

Este processo adquire, por sua vez, uma dinâmica própria, na medida em que o aumento das qualificações e a capacidade de laborar com maior intensidade exigem uma formação cada vez mais demorada. Para que a qualificação e a intensidade do trabalho possam aumentar, têm de se multiplicar também as horas dedicadas à instrução e à preparação da força de trabalho. Por isso, o acréscimo do período passado pelo trabalhador fora da empresa, em vez de representar qualquer redução do peso do trabalho na sociedade, decorre directamente das próprias necessidades do processo de trabalho. Fica assim colocado numa perspectiva nova o problema do ócio.

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Na sociedade contemporânea os trabalhadores produtivos deixaram de passar as suas horas de ócio fora do âmbito da economia capitalista. Procurei fornecer o quadro de análise da questão no meu modelo da produção de trabalhadores mediante trabalhadores («O Proletariado como Produtor e como Produto», Revista de Economia Política, vol. 5, nº 3, Julho-Setembro de 1985; «A Produção de Si Mesmo», Educação em Revista, ano IV, nº 9, Julho de 1989; capítulo 2.2 de Economia dos Conflitos Sociais, São Paulo: Cortez, 1991; capítulo I.5 de Estado. A Silenciosa Multiplicação do Poder, São Paulo: Escrituras, 1998) e, embora este modelo diga directamente respeito ao sistema escolar e aos profissionais da educação, ele pode sem dificuldades de maior ser aplicado aos ócios.

De início os trabalhadores gozavam o seu lazer num quadro económico exterior ao capitalismo ou que, pelo menos, não era directamente capitalista. Nessa fase os bens e serviços consumidos nas horas de folga eram produzidos no âmbito doméstico ou em pequenas empresas de carácter familiar. Hoje, porém, nos países e regiões economicamente mais desenvolvidos a reconstituição da força de trabalho e a produção de novos trabalhadores passou a fazer-se inteiramente, ou quase inteiramente, dentro da esfera do capitalismo. Por um lado, recorre-se para isso ao serviço de empresas, tais como escolas, restaurantes de fast food, centros comerciais, casas de jogos e muitíssimas outras. Trata-se ainda de um dos aspectos da extensão da proletarização, porque serviços que antes eram executados por membros de profissões liberais ou pela criadagem encontram agora um equivalente nos serviços prestados por empresas cujos trabalhadores obedecem em tudo aos critérios da proletarização. O capitalismo apoderou-se das grandes oportunidades de mercado oferecidas pelos ócios.

A integração dos ócios no capitalismo, porém, ocorreu em planos ainda mais profundos, e com repercussões sociais decisivas, na medida em que o tempo de lazer se converteu num tempo de formação da força de trabalho. Se observarmos bem, deparamo-nos com algo de aparentemente paradoxal. Por um lado, o aumento das qualificações do trabalhador implica o acréscimo do tempo de trabalho despendido durante a mesma jornada de trabalho e, portanto, requere períodos de descanso mais longos, para que a força de trabalho não se extenue e não deteriore as suas potencialidades. Por outro lado, porém, o aumento das qualificações só pode ocorrer se se prolongar o tempo de formação dos trabalhadores, ou seja, se se ampliar o prazo necessário para eles obterem as novas qualificações. Estas duas exigências são incompatíveis, a não ser que se sobreponham. E foi assim que os lazeres ficaram convertidos numa oportunidade de qualificação da força de trabalho. A tecnologia electrónica fornece o exemplo mais flagrante, pois sem a difusão súbita e maciça de variadíssimos jogos electrónicos teria sido impossível formar num tão curto período toda uma enorme quantidade de jovens aptos a laborar com a nova tecnologia. Resumindo, quanto mais qualificada é a força de trabalho, mais demora a ser produzida e reproduzida e, por isso, tem de se diminuir o tempo em que está a produzir outras coisas dentro da empresa, para se aumentar o tempo em que está, fora da empresa, a reproduzir-se a si própria. Ou, por outras palavras, quanto mais um trabalhador for capaz de executar, na empresa, um trabalho complexo, conjugando a intensidade e a qualificação, tanto mais ele necessita de tempo para reconstituir as suas capacidades e adquirir capacidades novas. Ao tempo gasto na empresa continua vulgarmente a chamar-se tempo de trabalho e, ao restante, ócio. Mas, na realidade, tornaram-se ambos tempo de trabalho e distinguem-se apenas pelo objecto deste trabalho que, dentro da empresa, é algo exterior à pessoa e, fora da empresa, é o próprio trabalhador.

Mas os ócios são hoje mais do que isso. Não se trata apenas de contribuir para que o trabalhador adquira novas qualificações. Trata-se de produzi-lo, globalmente, como um produto do capitalismo. Os bens e serviços que o trabalhador consome durante o ócio resultam dos mais estritos critérios da produtividade capitalista, o que significa que o próprio trabalhador, ao consumir estes bens, está a ser produzido como um produto do capitalismo. Na Europa ocidental, nos Estados Unidos e no Japão a esmagadora maioria dos trabalhadores passa as suas férias em viagens organizadas ou em campos de férias. Ora, tanto umas como outros, nos seus ritmos e nas suas hierarquias internas, em nada se diferenciam da estrutura vigente nas modernas empresas fabris ou de serviços. E, assim, os turistas das excursões e das outras modalidades de vilegiatura concentracionária são convertidos em mero objecto de produção. Nos ócios, tal como na escola, os trabalhadores são produzidos como mercadorias. Mais do que um mero controle ideológico, trata-se já de uma verdadeira produção do trabalhador no interior de um dado quadro ideológico.

Por outro lado, a partir do momento em que os ócios começaram a ser geridos consoante os critérios capitalistas de produtividade, os trabalhadores, directamente, passaram a ter um papel cada vez mais activo em vários aspectos da reprodução da sua própria força de trabalho, para os quais recorriam antes a serviços prestados por terceiros. Aquilo a que se chama sociedade de consumo consiste, em grande parte, na aquisição de maquinaria que permite às pessoas trabalharem directamente na reconstituição delas mesmas. O proprietário de um automóvel transporta-se a si próprio, quando antes viajava num transporte público mediante o cuidado de funcionários especializados. A proprietária de uma máquina de lavar roupa cuida ela própria da lavagem da roupa, quando antes talvez a levasse à lavandaria ou a desse a uma lavadeira, e assim por diante. Ou, se a mulher fosse uma dona de casa e se ocupasse unicamente com as lides domésticas, ao proletarizar-se ela tem menos tempo para estas tarefas e vê-se levada a adquirir electrodomésticos; e assim as fainas da casa deixam também de ser feitas por uma não-proletária, na medida em que a dona de casa se proletarizou. Não só os trabalhadores reconstituem directamente uma parte crescente da sua própria força de trabalho, como fazem-no cada vez mais consoante os princípios da produtividade capitalista. Na disposição do mobiliário e das máquinas, nos materiais usados, nas próprias cores e na iluminação, uma cozinha moderna obedece aos mesmos critérios de produtividade de qualquer instalação fabril ou de uma moderna empresa de serviços. Até o desempenho de uma televisão ou da aparelhagem de som é anunciado na propaganda comercial, ou avaliado nas revistas de consumidores, consoante critérios de produtividade, como qualquer outra máquina. E quanto mais produtivos forem os electrodomésticos e as restantes máquinas que ajudam a produzir e reproduzir a força de trabalho, tanto mais intensamente os trabalhadores reconstituirão as suas capacidades e, por isso, mais intensa e qualificadamente serão capazes de laborar na empresa. Os critérios da produtividade capitalista dominam as vinte e quatro horas do dia de um trabalhador.

É neste quadro, em que se conjuga o desenvolvimento da proletarização e a assimilação capitalista dos ócios, e em que por conseguinte aumentou avassaladoramente a esfera do trabalho, que devemos analisar os problemas do desemprego actual.

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Os sindicatos têm-se revelado incapazes de dar uma resposta ao conjunto de problemas resultante da grande ampliação da classe trabalhadora e da inclusão dos ócios no processo de trabalho. Precisamente quando a proletarização assume uma extensão e uma intensidade sem precedentes, os sindicatos parece já não saberem encontrar os trabalhadores. Ouvi mesmo a presidente de um sindicato da CUT declarar, em Florianópolis, que a classe trabalhadora já não existe – embora esta senhora não tivesse deduzido a conclusão óbvia de tal afirmação, que era a de se demitir do seu cargo, já que teria desaparecido a base que ela se comprometera a representar.

A proletarização de ramos profissionais que até há bem pouco tempo laboravam num quadro exterior ao capitalismo trouxe grandes problemas de ordem social e cultural. Esta força de trabalho recém-proletarizada tem experiências e comportamentos muito diferentes do operariado fabril tradicional. Isto torna urgente a fusão dos vários sectores componentes da classe trabalhadora. Ora, como a organização capitalista da sociedade implica a fragmentação dos trabalhadores, a sua união só pode efectivar-se na luta contra o capital.

Os sindicatos não têm servido de quadro a essa fusão. E assim, enquanto os capitalistas tudo fazem para dividir social e culturalmente os trabalhadores, os sindicatos mostram-se incapazes de uma actuação em sentido contrário. Só uma estratégia que tenha como objectivo unificar a classe trabalhadora poderá constituir uma base sólida para a luta contra o desemprego.

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Um dos aspectos da acumulação capitalista primitiva, quer dizer, da preparação histórica do capitalismo, consistiu em impor à força de trabalho a obrigação de se assalariar continuamente. Com este objectivo usaram-se não só mecanismos económicos, mas também repressivos, nomeadamente as leis contra a vadiagem. O jornaleiro ambulante, assalariado eventual e desprovido de obrigações familiares, foi convertido num trabalhador fixo, chefe de família e assalariado durante a vida inteira. Esta transformação foi indispensável ao fortalecimento do capitalismo, que teve inicialmente de competir com outros regimes económicos e que depois, mesmo quando era já hegemónico, se articulava ainda com uma importante produção de tipo doméstico. Se não se esforçasse por vincular a força de trabalho, o capitalismo podia perdê-la em benefício dos sectores pré-capitalistas e das unidades económicas de âmbito familiar.

Nas últimas décadas, porém, nos países mais desenvolvidos, o capitalismo liquidou o que restava de regimes económicos anteriores e assimilou quase completamente a pluralidade de unidades domésticas. Até há algum tempo atrás os ócios eram para o trabalhador uma oportunidade não só de estar fora da empresa, mas mesmo de sair do quadro económico estritamente capitalista, consumindo bens e serviços produzidos domesticamente. Isto só raramente pode suceder hoje nos países e regiões mais avançados, onde a produção de bens e serviços para os ócios constitui um dos ramos mais prósperos da economia. Neste novo contexto não existe o perigo de que os assalariados fujam. Para onde o fariam? Eles já não se deparam com nenhum espaço que não seja ocupado pelo capitalismo. As leis contra a vadiagem deixaram de ser necessárias e o próprio capitalismo está a encarregar-se da criação dos vadios da nova era, a força de trabalho terceirizada, temporária e flexível, à margem do emprego estável. Parece, nestas circunstâncias, que o capitalismo poderia sem risco deixar o número de desempregados aumentar livremente. Mas não é isso que sucede.

Nos regimes de tipo soviético seguiu-se a orientação de dar trabalho a toda a gente e manter baixas as remunerações. Não se tratou apenas de uma medida de ordem social, pois resultou também de problemas estritamente económicos. Com efeito, o ritmo de laboração nas empresas industriais era muito desigual ao longo de cada mês. Geralmente recebiam-se com atraso as matérias-primas e os produtos semiacabados. Enquanto estes componentes não tinham chegado só podia ser aproveitada uma parte reduzida das capacidades instaladas, técnicas e humanas. Depois de chegarem, restava muito pouco tempo para cumprir as normas especificadas mensalmente pelo plano, e então as capacidades eram utilizadas plenamente. Assim, a grande parte da mão-de-obra permanecia subocupada durante longos períodos e sobreocupada durante períodos curtos. Em média, as empresas mantinham em emprego permanente uma percentagem da força de trabalho que nos países da esfera norte-americana seria lançada no emprego meramente eventual. Este sistema levou a práticas antiprodutivas, como o absenteísmo e a alta rotatividade dos trabalhadores. A subutilização dos trabalhadores com emprego estável era um problema estrutural do regime soviético, e impedia qualquer desenvolvimento acelerado da mais-valia relativa. Ou talvez seja mais exacto inverter a formulação e dizer que, estando aquelas economias isoladas das grandes correntes internacionais e impedidas de proceder a um desenvolvimento acelerado da mais-valia relativa, optavam pelo desemprego camuflado.

Mas mesmo nas economias mais evoluídas da antiga esfera norte-americana as empresas têm conservado uma elevada percentagem de desemprego oculto. Segundo Max Geldens, um dos administradores da McKinsey na Holanda, em The Economist (28 de Julho de 1984), «uma pesquisa confidencial realizada em 1982 junto às maiores companhias europeias revelou que entre 10% e 40% das suas forças de trabalho, sendo a média de 15%, são mantidos nos quadros do pessoal acima das necessidades projectadas. Se todas as grandes companhias europeias tivessem a liberdade de dispensar os trabalhadores economicamente supérfluos, de imediato e sem sofrerem represálias, o número dos desempregados poderia duplicar temporariamente».

Pode argumentar-se que se trata de uma necessidade sócio-política e que, fora das empresas, uma massa tão grande de desempregados tornar-se-ia um risco para a ordem estabelecida. Não creio que este raciocínio, por si só, seja exacto, pois o desenvolvimento do Estado Amplo faz com que as administrações das grandes empresas dominem perfeitamente a esfera que apenas por hábito continuamos a considerar exterior às empresas. Aproximar-nos-emos talvez da realidade se encararmos esta forma de desemprego oculto como uma manutenção das qualificações dos trabalhadores, ou mesmo como uma requalificação. Na medida em que trabalhar é aprender a trabalhar, e estar desempregado é perder aquela aptidão, trata-se de uma maneira de assegurar a formação profissional deste grande número de trabalhadores.


INTERNACIONALIZAÇÃO DOS CAPITALISTAS E FRAGMENTAÇÃO DOS TRABALHADORES

III

INTERNACIONALIZAÇÃO DOS CAPITALISTAS
E FRAGMENTAÇÃO DOS TRABALHADORES

Não se deve confundir a mundialização da economia com a mundialização das classes sociais. Há uma defasagem entre as duas questões. A internacionalização e, em seguida, a transnacionalização da economia corresponderam a um desenvolvimento do capitalismo e implicaram, portanto, o reforço dos capitalistas. Em termos sociais, uma classe fortalece-se quanto mais coesa está. Isto significa que os capitalistas aumentaram a sua coesão à escala internacional. Ora, o reforço dos exploradores só se opera mediante a debilitação dos explorados. Trata-se de dois aspectos de uma mesma realidade. A fraqueza dos explorados corresponde à sua fragmentação social e as fronteiras nacionais são uma das formas assumidas por esta divisão. Actualmente temos uma economia transnacionalizada, capitalistas internacionalizados e trabalhadores repartidos por nações.

Nem sempre foi esta a situação. No início do século XX o operariado atingira um elevado grau de homogeneidade social e cultural no pequeno número de países a que então se resumia o capitalismo industrial, ou seja, a Europa e o norte da América. O resto do mundo estava ainda ou numa fase de acumulação primitiva do capital, num quadro predominantemente colonial, ou numa fase já capitalista, mas com escassa industrialização. Assim, durante a primeira guerra mundial, precisamente quando os capitalistas mais divididos se encontravam pelas rivalidades entre nações, os trabalhadores foram capazes de impor a sua solidariedade internacional. Nada unia ou separava as classes dominantes senão as fidelidades e hostilidades nacionais, ou até dinásticas, enquanto os trabalhadores depressa desenvolveram um quadro comum, o socialismo, que ultrapassou todas as fronteiras.

A meio da guerra, em Setembro de 1915, trinta e oito delegados, representando os socialistas internacionalistas de onze países, reuniram-se em Zimmerwald, na Suiça. Uma minoria de 12 votos, entre os quais se contava o de Lenin, propunha uma estratégia que levasse à conversão da guerra em revolução, à transformação da guerra entre nações numa guerra entre classes. Os 19 votos da maioria, os de Kautsky e de Trotsky entre eles, apelavam apenas para que os trabalhadores impusessem a interrupção imediata das hostilidades e uma paz negociada, sem anexações territoriais nem indemnizações económicas entre os países beligerantes. Neste caso a minoria foi profética, e nos anos seguintes alastrou um movimento de contestação nas fábricas e de insurreição nas frentes de batalha.

De 1915 a 1916 o número de dias de trabalho perdidos por greve na Alemanha aumentou de 500%, e de 700% de 1916 a 1917, quando atingiu os dois milhões. Em França, o número de paralisações subiu de 220% de 1915 a 1916, e a quantidade de participantes aumentou neste período mais de 340%, sendo as cifras correspondentes entre 1917 e 1916 de cerca de 120% e de 610%. E na Itália a agitação generalizou-se em 1917 tanto nas fábricas como nos campos. Ao mesmo tempo, na Grã-Bretanha as greves de 1916 e 1917 marcaram o início do movimento dos shop stewards, membros dos sindicatos eleitos pelos trabalhadores no quadro das unidades de produção, e que naquela época defendiam as posições das bases operárias, em frequente conflito com as direcções sindicais.

Ao longo de 1916 foi cada vez mais comum a fraternização nas trincheiras entre soldados dos Aliados e das Potências Centrais. Em França a deserção tornou-se maciça e passou a ser organizada à luz do dia, até que entre Abril e Setembro de 1917 uma enorme onda de revolta se propagou nas trincheiras, atingindo o auge em Maio e na primeira metade de Junho. Durante estas seis semanas amotinou-se a maior parte do exército francês. Sublevadas contra os seus comandantes e elegendo representantes próprios, cinquenta e quatro divisões hastearam bandeiras vermelhas e ameaçaram marchar sobre Paris para derrubar o governo. Desde o início de Junho de 1917 até ao final de Dezembro, sete meses ao todo, as condenações à morte em conselho de guerra atingiram um número igual ou superior ao registado durante os trinta e quatro meses anteriores, desde que a guerra começara em Agosto de 1914. Escreve nas suas memórias o notável jornalista Pierre van Paassen: «Na Primavera de 191[7] André Maginot», um dos políticos franceses mais ligados aos altos comandos militares, «reconheceu em sessão secreta da Câmara que entre a cidade de Paris e a linha de combate só restava uma divisão em que o governo podia depositar absoluta confiança. […] Um rumor subterrâneo de descontentamento alastrava-se pelo exército. Rebentaram revoltas. De uma feita estiveram envolvidos oitenta e sete regimentos franceses, de outra cento e quinze. Os conselhos de guerra funcionavam noite e dia. Por um simples murmúrio de desagrado dizimava-se uma companhia inteira. Enviavam-se divisões propositadamente à linha de combate, para serem chacinadas, esmagando-se assim o espírito de derrotismo» (Estes Dias Tumultuosos, Porto Alegre: Editora Globo, 1941, pags. 73-74).

A hostilidade dos soldados e dos trabalhadores franceses à guerra teve sérias repercussões nas classes dominantes. Políticos tão importantes como Joseph Caillaux e Louis Malvy, defensores de uma orientação mais conciliatória naqueles conflitos sociais, foram acusados de traição e conivência com o inimigo, e condenados com este pretexto. Ministro do Interior até ser obrigado a demitir-se em 1917, Malvy mantinha relações com pessoas muito próximas do movimento anarquista, entre o quais Miguel Almereyda, pai do grande cineasta Jean Vigo, tão precocemente desaparecido. Almereyda foi preso e assassinado na cadeia, como van Paassen recorda nas suas memórias: «Um dos pacifistas de língua mais solta, Almereyda, cujo depoimento no banco das testemunhas teria revelado o ponto aonde chegava a corrupção na direcção superior da guerra, foi encontrado estrangulado na sua cela» (ibid., pag. 75). Foi uma época de histeria, em que os altos comandos militares viam espiões em todos os adversários da guerra.

Ao mesmo tempo a vaga revolucionária propagou-se entre os militares dos outros países beligerantes. Ocorreram motins na marinha alemã no Verão de 1917 e em Itália as deserções tornaram-se maciças, acabando por atingir um quinto dos soldados. Mas o movimento chegou ao auge quando a frente russa derrocou em 1917.

«Paz e Terra» não foi uma palavra de ordem inventada por Lenin. Ela foi imposta pelas massas camponesas. A particularidade dos bolchevistas consistiu em terem sabido entender o que se passava e aproveitar-se da situação. Os soldados, que na grande maioria eram camponeses, queriam a paz, para poderem regressar às suas aldeias e repartir as terras dos grandes proprietários. De nada valia decretar a reforma agrária sem que fosse estabelecida a paz, porque os camponeses continuariam mobilizados na frente de combate, sem poderem apoderar-se dos campos e cultivá-los. A questão militar e a questão agrária estavam indissoluvelmente ligadas. Por isso os soldados-camponeses russos amotinavam-se e desertavam colectivamente, para ocuparem as terras dos grandes proprietários. Foi esta a primeira forma tomada pelo que viria a ser o Exército Vermelho. Lenin e Trotsky operaram em seguida a burocratização e a transformação social daquele exército, liquidando-lhe a espontaneidade e hierarquizando-o novamente sob o comando de antigos oficiais czaristas, controlados por comissários políticos bolchevistas.

Noutros países as insurreições militares tiveram igualmente consequências políticas e sociais muito profundas. A revolta dos marinheiros alemães no final de Outubro de 1918 estendeu-se em Novembro aos soldados e aos trabalhadores da indústria, iniciando-se a Revolução dos Conselhos, que ressurgiu em repetidas ocasiões nos anos seguintes e deixou na classe trabalhadora alemã marcas muito duradouras, liquidadas apenas com a ascensão dos nazis ao poder. Também a revolução iniciada em Março de 1919 na Hungria e as ocupações de fábricas no norte da Itália em Setembro de 1920 estiveram na imediata sequência do movimento social que pusera termo à guerra.

Não menos importantes, pelas suas repercussões, foram os levantamentos militares ocorridos durante a guerra civil russa, na qual os Aliados participaram ao lado das tropas contra-revolucionárias. Em 1918 os destacamentos norte-americanos recusaram-se a combater, o que obrigou à sua retirada. No ano seguinte os expedicionários britânicos negaram-se a embarcar para a Rússia, exigindo a sua desmobilização, e ao mesmo tempo surgiram motins e levantamentos entre as tropas britânicas estacionadas no norte da Rússia. E, também em 1919, sublevaram-se os marinheiros franceses da frota que actuava no Mar Negro, o que levou as tropas estrangeiras a evacuar o sul da Ucrânia. Estes movimentos e insurreições fizeram com que os governos aliados desistissem da intervenção, ficando decisivamente facilitada a vitória dos bolchevistas. A guerra civil russa foi, na realidade, uma revolução internacionalista. O seu último episódio marca o fim da guerra civil e também o encerramento da revolução. Em Março de 1921, e em apoio das greves e manifestações que entretanto eclodiam entre os operários, a guarnição da base naval de Kronstadt revoltou-se e pronunciou-se contra a burocratização da actividade política e contra o regime de partido único. Os insurrectos de Kronstadt exigiam o regresso ao sistema originário dos sovietes, enquanto genuínos conselhos deliberativos de base, e a instauração de uma democracia dos trabalhadores, com liberdade de expressão para todas as forças operárias de esquerda, bem como a liberdade de organização sindical e o direito de controle dos trabalhadores sobre as unidades de produção. Além disso, reivindicavam a liberdade económica dos camponeses que não empregassem assalariados. Os bolchevistas reprimiram a revolta com uma terrível matança, confirmando a plena instauração de um poder de classe dos gestores e de uma economia capitalista de Estado.

Em suma, o que sucedeu de 1916 até 1921 foi um processo revolucionário único, à escala europeia e com repercussões nos Estados Unidos, que opôs o internacionalismo dos trabalhadores ao nacionalismo das classes dominantes. A insurreição bolchevista foi um mero episódio, que se distinguiu apenas por um detalhe – ter vencido. Mas o declínio do movimento internacionalista e a evolução posterior das lutas sociais converteram numa profunda derrota aquela vitória inicial dos trabalhadores russos. Aliás, o facto de uma revolução que começara ultrapassando as fronteiras ter triunfado apenas num país contribuiu decisivamente para desarticular o movimento. Ao ocuparem o poder de Estado e implantarem uma economia estatal, os bolchevistas abandonaram muito rapidamente a perspectiva do internacionalismo e passaram a defender interesses nacionais russos. A inversão da revolução e a desagregação do impulso internacionalista são as responsáveis pela deturpação dos acontecimentos daquela época, já que geralmente a revolução bolchevista é apresentada pelos historiadores como exclusivamente russa, e as insurreições militares são reduzidas a episódios isolados e votadas a um esquecimento tanto mais deliberado quanto é ajudado pelo segredo dos arquivos. Mas o constraste com os anos que se seguiram só pode ser entendido por quem tiver em conta o carácter internacional do processo ocorrido entre 1916 e 1921.

A crise económica que eclodiu em 1929 alterou completamente o panorama. Geraram-se então as condições para a internacionalização dos capitalistas e para o recomeço da fragmentação nacional dos trabalhadores. A guerra civil espanhola, de 1936 a 1939, que por um lado foi o ensaio geral da segunda guerra mundial, por outro constituiu a derradeira manifestação do antigo internacionalismo operário. Logo em seguida a guerra mundial confirmou de maneira dramática o nacionalismo dos trabalhadores e a internacionalização dos capitalistas.

De todos os lados do conflito, a acção das classes dominantes ultrapassou os limites nacionais. O nazismo não foi um nacionalismo, mas um supranacionalismo. Os SS forneceram o quadro supranacional para a promoção de uma «raça nórdica», mediante um recrutamento operado por critérios «rácicos» e casamentos sujeitos a autorização prévia, de maneira a produzir-se uma «raça de senhores». Das mais de 900.000 pessoas que até ao final de 1944 integraram as Waffen SS, as tropas de elite, menos de metade eram originárias do Reich. Também o fascismo italiano se preocupou com uma visão global, esboçando a constituição de uma esfera mediterrânica. No outro lado do globo, o militarismo nipónico formou a Esfera da Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental. Ao mesmo tempo, os Aliados imprimiram um carácter supranacional ao que inicialmente havia sido um mero acordo militar, e a Declaração das Nações Unidas, assinada em Janeiro de 1942 por vinte e seis países, explicitava tais objectivos. A partir de 1944 foram tomadas medidas para converter as Nações Unidas numa organização de carácter permanente. Noutro plano, a Conferência de Bretton Woods, realizada em Julho de 1944, estabeleceu o sistema monetário e financeiro que viria a reger o mundo após o conflito, projectando a formação do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento e do Fundo Monetário Internacional. Qualquer que tivesse sido o vencedor, a paz assentaria em instituições supranacionais. Mas ainda mais significativos do que a internacionalização no interior de cada um dos blocos beligerantes foram os interesses comuns que os uniram a todos e os contactos que entre eles tiveram lugar.

Os interesses sociais convergentes do campo aliado e do campo fascista são revelados pela estratégia seguida pelos bombardeamentos aéreos aliados. Nos comentários ao diário da sua irmã, referente aos anos de guerra (The Berlin Diaries 1940-1945 of Marie «Missie» Vassiltchikov, Londres: Folio, 1991, pag. 71), escreve George Vassiltchikov: «[…] em Fevereiro de 1942 o Marechal do Ar Arthur Harris recebeu o comando dos bombardeiros da RAF [força aérea britânica] com instruções do Gabinete de Guerra para iniciar uma ofensiva sistemática contra as cidades alemãs “tendo como alvo principal o moral da população civil e especialmente dos operários da indústria”. […] Nos dois anos seguintes todas as grandes cidades da Alemanha e da Áustria e várias outras no resto da Europa ocupada foram reduzidas a escombros. O custo em vidas de civis: cerca de 600.000 […]». As consequências desta estratégia foram descritas com incomparável frieza por André Piettre, um especialista da economia alemã, numa obra monumental (L’Économie Allemande Contemporaine (Allemagne Occidentale) 1945-1952, Paris: M. Th. Génin, 1952, pags. 65-67): «Com efeito, é um facto de importância capital, e que domina toda a economia alemã de hoje, que os bombardeamentos tivessem sido muito mais sensíveis sobre as cidades e os nós de comunicação do que sobre as forças produtivas. […] Assim – constatação primordial e novo paradoxo da Alemanha do pós-guerra – a indústria pesada, base essencial da indústria de guerra, saía do conflito menos atingida do que qualquer outra. Calcula-se até que a Alemanha possuía ainda em 1945 o segundo equipamento mundial em máquinas-utensílios, logo a seguir ao dos Estados Unidos […] Esta situação das estruturas de produção, que foram relativamente poupadas, contrastava com as destruições muito mais graves dos meios de comunicação. […] Mas nenhumas ruínas se comparavam às das grandes cidades. […] viu-se que era sobretudo eficaz, para atingir uma indústria, visar o pessoal, mais do que o material». Os altos comandos aliados conduziram a guerra numa estrita perspectiva de classe, poupando quanto possível as instalações fabris dos capitalistas inimigos e tomando como alvo o moral, o espírito de resistência, do operariado alemão, tal como estipulou o governo britânico, ou seja, para empregar a fórmula concisa e cínica de André Piettre, visando «o pessoal, mais do que o material».

Com base nestes interesses sociais comuns aos capitalistas de ambos os lados teceram-se, apesar do conflito, e para além das clivagens militares, políticas e ideológicas, contactos institucionais permanentes, no âmbito do Banco de Pagamentos Internacionais. Este Banco fora estabelecido em Basileia, na Suíça, em 1930, para permitir a cooperação técnica entre os bancos centrais dos vários países, e o seu Conselho de Administração ainda hoje é composto em parte por governadores de bancos centrais. Per Jacobsson, que desde 1956 até ao seu falecimento em 1963 estaria à frente do Fundo Monetário Internacional, entrou em 1931 para o Banco de Pagamentos Internacionais como conselheiro económico e chefe do Departamento Económico e Monetário, situação em que se manteve durante a guerra. Escrevinhador impenitente, deixou um volumosíssimo diário, recheado de informações importantes, que a sua filha, Erin E. Jacobsson, utilizou como base para uma biografia (A Life for Sound Money. Per Jacobsson. His Biography, Oxford: Clarendon, 1979). Ela chama a atenção (na pag. 141) para «a harmonia em que todos os funcionários internacionais do BPI [Banco de Pagamentos Internacionais] conseguiam viver lado a lado, no mais estreito contacto, sem discórdia, apesar de entre eles se contarem beligerantes de ambas as partes. Quando começou a guerra todos os funcionários receberam indicações dos seus próprios bancos centrais para trabalharem amigavelmente em conjunto, de maneira a que o BPI pudesse continuar a funcionar».

Durante a guerra Per Jacobsson foi um intermediário incansável entre as autoridades monetárias dos países beligerantes e relacionou-se mesmo com diplomatas e agentes secretos. «Dois dos seus visitantes mais ilustres», escreve a filha (na pag. 163), «foram Allen Dulles e Emil Puhl, o vice-governador do banco central alemão. Este último estava particularmente interessado em conhecer a atitude dos Estados Unidos relativamente à Alemanha». Allen Dulles foi, entre 1942 e 1945, o chefe da secção de Berne, na Suíça, do Office of Strategic Services, o serviço secreto norte-americano, e a partir de 1948 seria um dos principais dirigentes da espionagem dos Estados Unidos, sendo nomeado em 1953 director da CIA, à frente da qual se manteve até 1961.

A biografia de Per Jacobsson fornece indicações igualmente preciosas acerca de algo que se mantém praticamente desconhecido, a participação indirecta dos banqueiros alemães nas conversações prosseguidas pelos Aliados acerca do futuro sistema monetário mundial. Desde 1942 que os Aliados vinham a discutir dois planos monetários, um apresentado por Harry D. White, assessor do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, e o outro pelo célebre economista britânico John Maynard Keynes. Foi destas discussões que resultou a Conferência de Bretton Woods, onde se adoptou em grande parte o plano White. Lê-se (pag. 166) na obra que tenho vindo a citar: «Apesar de P[er] J[acobsson] ter ido novamente a Berlim em Maio de 1943, durante três dias, para discutir os Planos Keynes e White, em breve o preveniram de que passaria a correr riscos se atravessasse o território controlado pelos Alemães e, por isso, ficou confinado à Suíça até Março de 1945». A biografia de Jacobsson mostra (pags. 178-180) os resultados obtidos por esta intermediação. «Em 1943 as opiniões de P[er] J[acobsson] acerca dos Planos Monetários anglo-americanos estavam a ser discutidas tanto em Berlim como em Washington. […] Os Alemães, em especial, pretendiam obter informações e opiniões. O seu interesse era tão grande que uma pequena delegação de banqueiros, chefiada por Emil Puhl, o vice-governador do banco central alemão, encontrou-se discretamente com P[er] J[acobsson] e com Hechler [membro alemão do Conselho de Administração do Banco de Pagamentos Internacionais] em Zurique, a 1 de Maio de 1943. […] Depois de se ter reunido mais uma vez na Suíça, aquele grupo, através do seu presidente, conseguiu que P[er] J[acobsson] fizesse um discurso aos directores de bancos comerciais em Berlim, a 1 de Junho. Este discurso foi repetido várias vezes na Suíça […] O texto definitivo […] foi traduzido pela Legação Americana e telegrafado na íntegra para Washington. […] Em breve P[er] J[acobsson] começou a desenvolver a noção de “um sistema de colaboração internacional que permitisse a outros países exercer influência não só sobre a política do país mais poderoso, os EUA, mas também sobre a de outros grandes países. Esta influência seria uma condição absolutamente necessária para iniciar uma política relativamente equilibrada; os EUA teriam mesmo todo o interesse em favorecer tal influência, pois os EUA teriam dificuldade em conceber e aplicar uma política apropriada a um papel dirigente nas questões mundiais. Portanto, seriam necessárias organizações internacionais – não uma única, mas muitas – de maneira a não colocar todos os ovos no mesmo cesto. E para os Alemães seria mais fácil conseguir influência num organismo de carácter técnico do que num conselho político”». Dois anos antes de terminar o conflito, e em resultado das suas conversações com os representantes da alta finança alemã, Jacobsson previu claramente a posição que a Alemanha veio com efeito a ocupar no pós-guerra.

Enquanto os mais altos gestores de um e outro lado se punham de acordo quanto à forma de reorganizar a economia mundial, nos países ocupados pelos nazis a resistência da população, quando ocorria, fazia-se sob uma forma exclusivamente nacionalista. Os trabalhadores activos na resistência aceitaram a divisão em fronteiras e seguiram a orientação política das facções anti-alemãs das classes dominantes. Em França houve uma única – e minúscula – organização de resistência aberta a militares alemães antinazis. E na Polónia as várias organizações de resistência guerrearam entre elas, divididas por diferentes tradições étnicas e preconceitos raciais, para regozijo do ocupante nazi.

A paz prolongou e consolidou esta situação. A partir de 1945 começou a viver-se numa economia internacionalizada, com capitalistas unidos mundialmente e trabalhadores divididos.

O panorama modificou-se nos últimos anos, devido à tendência para a desagregação das nações, sensível sobretudo na antiga esfera soviética, mas também noutros lugares. Os órgãos de informação e mesmo alguns intelectuais pretendem que se vive hoje uma nova época de nacionalismos, quando na verdade se trata de regionalismos, o que é inteiramente diferente. O nacionalismo do século XIX era expansionista e agregativo. Agora o que se verifica é, pelo contrário, a fragmentação crescente de alguns territórios nacionais. Este é mais um aspecto da superação das fronteiras pelo desenvolvimento económico. Os espaços nacionais são ultrapassados, por cima, pelas grandes companhias transnacionais; e são desarticulados, por baixo, pelos regionalismos e micronacionalismos.

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Neste contexto de transnacionalização da economia é ridícula qualquer pretensão de os sindicatos, tal como hoje estão organizados, conceberem uma estratégia global de luta anticapitalista. É completamente impossível travar um combate fraccionado por fronteiras nacionais contra um capitalismo que se organiza não só coordenando os diversos centros nacionais de acumulação do capital, mas passando por cima de todas as divisões geográficas. Aliás, os capitalistas evitam deliberadamente que a livre circulação de capitais e mercadorias se reflita numa livre circulação das pessoas. A União Europeia fornece bons exemplos desta dualidade, a tal ponto que têm sido levantados obstáculos à internacionalização das burocracias sindicais mesmo no estrito âmbito europeu. Apesar de os sindicatos na Europa ocidental serem perfeitamente inócuos, o capitalismo não quer correr o risco de que eles possam vir a alargar o quadro de reivindicações. Os organismos sindicais internacionais e os departamentos de relações exteriores das centrais sindicais só não são uma farsa para quem lucra com as suas benesses.

No entanto, o mais comum é que a esquerda radical, quando reclama contra a exploração dos trabalhadores, defenda ao mesmo tempo, e como se fossem a mesma coisa, os interesses do capitalismo nacional contra o capitalismo estrangeiro. Posições deste tipo são hoje completamente afastadas da realidade porque, como tive já oportunidade de mostrar, as grandes companhias transnacionais não constituem uma arma do país onde residem as matrizes contra aqueles onde se implantam as filiais. As transnacionais, sempre que lhes convém, passam por cima das decisões dos governos de qualquer país, tanto daqueles onde se estabelecem as filiais como daqueles onde estão sediadas as matrizes. E, através da atracção de capitais locais, das encomendas e da subcontratação, as transnacionais tornam os seus interesses convergentes com os do empresariado mais dinâmico de cada país. A distinção entre capital estrangeiro e capital nacional é hoje inteiramente obsoleta. O que vemos é sectores dinâmicos, onde se conjugam as transnacionais e os seus satélites locais, e sectores em declínio, dos quais as transnacionais retiram os investimentos e que, por isso mesmo, são remetidos para o quadro nacional – para aí morrerem. Não deixa de ser curioso que a esquerda radical defenda os capitalistas desses sectores em declínio, precisamente os que pagam piores salários e mantêm as condições de trabalho mais degradadas, com o consequente aumento do número de acidentes.

Mas a principal crítica a esse tipo de posições deve ser outra. Estas posições não se limitam a não corresponder à realidade actual. Pior do que isto é confundirem o problema da exploração, o único quadro onde se podem defender os interesses dos trabalhadores, com o problema da desigualdade na repartição dos benefícios entre capitalistas. Tomando como pretexto as contradições entre capitalistas, essa esquerda, aparentemente tão radical, esforça-se por perpetuar a vinculação dos trabalhadores a certos grupos de capitalistas e, portanto, por tornar mais estreita a integração dos trabalhadores nas relações sociais vigentes, contribuindo, afinal, para consolidar todo o sistema de exploração.

A incapacidade dos sindicatos e destas correntes de esquerda para contribuírem para uma solidariedade mundial da classe trabalhadora não se observa apenas no âmbito internacional. Ela é patente também no quadro nacional, o que é mais grave ainda. Dentro da classe trabalhadora existem hoje vários tipos de divisões. Por um lado, continuam a verificar-se as velhas rivalidades nacionais, agravadas pelo recente surto de regionalismos e micronacionalismos. Já vimos que os sindicatos se mostram incapazes de fazer o quer que seja para ultrapassar tais cisões. Mas, por outro lado, a própria transnacionalização da economia alterou o perfil da classe trabalhadora, internacionalizando uma parte dela, que se diferencia da restante por ter uma situação de emprego relativamente privilegiada.

Os trabalhadores que laboram nos ramos tecnologicamente mais atrasados, ou em declínio, dependentes de quadros económicos nacionais, ficam sujeitos à demagogia dos nacionalismos e dos micronacionalismos. Os trabalhadores que têm revelado uma tendência para assumir a postura internacionalista são os mais qualificados, com emprego estável em grandes companhias transnacionais. Estes podem defender os imigrantes, porque os imigrantes são pouco qualificados e não concorrem com eles. Mas a mão-de-obra autóctone pouco qualificada assume facilmente uma atitude hostil aos imigrantes. Hoje, nos países economicamente mais evoluídos, a questão central do racismo consiste na imigração. É a esta luz que devemos avaliar o que actualmente se chama racismo. Isto confirma, uma vez mais, que não se trata de uma questão de etnias, entendidas como blocos populacionais homogéneos, mas acima de tudo de uma questão de divisões no interior da classe trabalhadora. E tais divisões devem-se directamente a problemas laborais, visto que só neste contexto tem sentido a noção de migração.

Reside aqui o segundo grande fracasso do sindicalismo contemporâneo. Mesmo no âmbito nacional os sindicatos têm-se revelado incapazes de conceber e aplicar uma estratégia que ultrapasse o racismo, centrado na questão dos migrantes. Em países como o Brasil este problema coloca-se até relativamente às correntes migratórias internas, por exemplo nas que partem do Nordeste. Os sindicatos da CUT, porém, mesmo quando abordam a questão do racismo insistem em considerá-lo exteriormente aos conflitos de trabalho e em remetê-lo para o plano da cidadania, como se ele dissesse respeito a todas as camadas sociais, quando o racismo é hoje precisamente a questão central da solidariedade na classe trabalhadora. Não parece que a maioria dos sindicatos tenha entendido claramente a estreita conjugação entre a questão do racismo e a da migração.

Os exemplos que conheço de lutas efectivas e maciças contra o racismo têm-se devido a mobilizações no quadro dos bairros, sobretudo a acções de juventude. Mas os grandes órgãos de informação desvirtuam completamente o sentido destas lutas. Ou lhes chamam revoltas raciais, como no caso de Los Angeles em Abril e Maio de 1992, quando, pelo contrário, os motins e pilhagens juntaram pessoas de todos os tons de pele contra a afronta a que haviam sido submetidos os direitos de um negro. Ou consideram-nas mera violência de adolescentes, quando em França os jovens de todas cores se têm mobilizado porque a polícia mata um deles, negro ou de origem árabe, que estava eventualmente a cometer qualquer pequeno delito. Tem sido nestes movimentos, apesar de tantos aspectos contraditórios e ambíguos que eles apresentam, que uma solidariedade anti-racista encontra hoje expressão. Mas os sindicatos mantêm-se de costas voltadas para as acções deste tipo, quando não as denigrem mesmo, apelidando-as de desordens.

Assim, os capitalistas estão não com uma, mas com duas etapas de avanço. Mesmo que os trabalhadores consigam, nas próximas décadas, pôr eficazmente em causa as divisões nacionais, deparar-se-ão com o problema das profundas clivagens que os separam em vários estratos.

As divisões entre trabalhadores que estão agora a criar-se à escala mundial resultam, em boa parte, da imigração vista como uma ameaça ao emprego. Ora, este problema remete para outra divisão, mais fundamental, que distingue a força de trabalho qualificada da pouco qualificada. O problema central desta problemática é o desemprego.


INTEGRAÇÃO ECONÓMICA MUNDIAL E ILUSÕES NACIONALISTAS

II

INTEGRAÇÃO ECONÓMICA MUNDIAL E ILUSÕES NACIONALISTAS

O capitalismo não é um sistema que originariamente se tivesse desenvolvido de maneira isolada num dado país, ou numa dada região, e só numa fase posterior se tivesse expandido a outros países e regiões. Desde sempre que o capitalismo implicou uma divisão internacional do trabalho. O primeiro dos grandes economistas clássicos, Adam Smith, recorria com frequência a um modelo empírico baseado nas relações estabelecidas entre a Inglaterra e Portugal mediante o Tratado de Methuen, assinado em 1703. Segundo este acordo, Portugal deixou de proibir a importação de têxteis ingleses e a Inglaterra passou a sujeitar a importação de vinhos do Porto a uma taxa inferior em 1/3 à praticada para a importação dos vinhos franceses. Em consequência, a economia portuguesa concentrou-se na exportação de vinhos, aliás em grande parte controlada por capitalistas ingleses residentes na cidade do Porto, e abandonou as tentativas sistemáticas de industrialização. Mais tarde, a afirmação da Inglaterra como o maior centro industrial pressupôs a liquidação da indústria nativa no Egipto, na Índia e na China. Nestes países estava já em curso uma génese autóctone do capitalismo, que a grande potência europeia prosseguiu no que dizia respeito ao desenvolvimento da proletarização da força de trabalho nativa, mas depois de ter posto fim às manufacturas indígenas.

Só aproveitando o declínio do comércio mundial provocado pela grande crise da década de 1930 é que conseguiram industrializar-se alguns países, cujas economias haviam até então assentado na exportação de matérias-primas. Para efectuar tal transformação foi necessário diminuir a inserção destes países na divisão internacional do trabalho, através de um conjunto de medidas políticas e económicas. Quero sublinhar que estas medidas não teriam vingado se não fosse o facto de a crise, suscitando a retracção do comércio mundial e dos movimentos internacionais de capitais, ter obrigado todos os países, sem excepção, a um maior isolamento. Os nacionalismos desenvolvimentistas da década de 1930 constituíram, afinal, a transformação em estratégia política de algo que estava já inscrito nos condicionalismos económicos da crise. A segunda guerra mundial surgiu como o inevitável resultado desta agudização da concorrência operada em quadros nacionais, ou de pequenos blocos de nações.

A seguir à Grande Guerra de 1914-1918 e a um decénio de crise económica e política sem precedentes, os governantes só conseguiram mobilizar as populações para outro morticínio com a promessa de que seria o último e que instauraria uma ordem internacional definitiva, ou o Reich dos Mil Anos e a Nova Ordem europeia, para os fascistas, ou a Esfera da Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental, para o militarismo nipónico, ou as Nações Unidas, para os Aliados. A segunda guerra mundial não se fez para resolver problemas nacionais, mas para reorganizar as relações internacionais. Só assim ela obteve, de um e outro lado, adesão popular.

Entre os Aliados ocidentais o conflito consolidou uma aliança social que vinha já a desenvolver-se na sequência das orientações defendidas pelo economista britânico Keynes, bem como no âmbito do New Deal, a política inaugurada nos Estados Unidos pelo presidente Franklin D. Roosevelt. A fundação de instituições políticas e financeiras internacionais – a Organização das Nações Unidas, com as suas diversas agências, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional – acompanhada pelo acordo monetário de Bretton Woods destinava-se a impedir que se repetissem no futuro os surtos de nacionalismo económico, evitando assim a precipitação de confrontos armados. O reforço da globalização da economia servia os interesses dos maiores capitalistas, a quem interessava manter sem alterações o equilíbrio de poder garantido pela divisão mundial do trabalho, tal como ela resultara da guerra; e respondia ao mesmo tempo a reivindicações dos trabalhadores, que, além de não desejarem ser chacinados num novo conflito, pretendiam beneficiar da melhoria das condições materiais de vida suscitada pelo desenvolvimento da produtividade e da mais-valia relativa, o que só seria possível se ficasse assegurada a estabilidade mundial.

Rapidamente a internacionalização do capital promovida na sequência do New Deal teve como outra face o bloqueio a que se condenou a esfera soviética. O Plano Marshall (European Recovery Program), proposto em 1947, consistiu, por um lado, numa colossal exportação de capitais pelos Estados Unidos, com o objectivo de financiar a reconstrução de uma Europa ocidental devastada pela guerra. Nestes países acelerou-se assim a internacionalização da economia. Aliás, na origem do Mercado Comum e da actual União Europeia esteve um organismo formado por países da Europa ocidental para repartir os créditos norte-americanos. Mas, por outro lado, ergueu-se uma severa cadeia de obstáculos à internacionalização da esfera soviética. A Cortina de Ferro foi, antes de mais, uma muralha económica com que o capitalismo da esfera norte-americana cercou o capitalismo de Estado soviético. A partir do começo da Guerra Fria a divisão verificada entre os países mais desenvolvidos não se deveu à existência ou não de um plano central, mas à capacidade de internacionalização das suas economias. Stalin pensou que poderia responder ao repto nos próprios termos do adversário e proceder autarcicamente ao crescimento económico. Mas logo desde a sua morte, em 1953, todos os sucessores tiveram a preocupação de furar o bloqueio e internacionalizar a economia do bloco soviético. Esperança vã. Isso só foi conseguido, afinal, mediante o desmantelamento do bloco soviético e a desagregação da própria URSS. A derocada do regime soviético demonstra a impossibilidade de proceder a qualquer desenvolvimento económico que não ocorra num plano directamente internacional.

Um dos postulados básicos, se não mesmo o principal, do marxismo ortodoxo era o de que os capitalistas seriam incapazes de promover o crescimento da economia. A década de 1930 pareceu dar razão à esquerda clássica, pois o capitalismo ocidental atravessava então uma crise sem precedentes, enquanto a União Soviética conseguia, com os planos quinquenais, uma vertiginosa taxa de crescimento. Apesar de tardia, a entrada da URSS na guerra contra o nazismo, em Junho de 1941, depois de Moscovo e Berlim terem estado aliados durante dois anos, constituiu o segundo grande factor de êxito da esquerda clássica, pois foram os resultados militares alcançados na frente de leste que levaram à derrota de Hitler. A União Soviética saiu triunfalmente da guerra, dispondo do que parecia ser o modelo económico mais viável e com o prestígio dos seus muitos milhões de mortos no combate ao nazismo. Mas o Plano Marshall constituiu o teste decisivo para aquele postulado do marxismo ortodoxo, de que os capitalistas não conseguiriam proceder ao desenvolvimento económico. Eles conseguiram-no. E o marxismo ortodoxo ficou derrotado. É confrangedor ver que muitas pessoas continuam a recorrer ao modelo soviético, que na prática se revelou um fracasso estrondoso, para com ele pretenderem dar lições aos neoliberais. Não espanta que haja hoje tão pouco interesse por tais mestres.

Um dos ensinamentos que cabe à esquerda tirar é o de que a Guerra Fria foi a luta entre uma esfera do capitalismo onde triunfou a internacionalização e uma esfera capitalista de Estado que representou um ensaio de internacionalização completamente fracassado.

No contexto de uma internacionalização crescente da economia foi inevitável a independência dos povos colonizados da África e da Ásia. Um princípio básico do colonialismo era a ligação exclusiva de cada colónia à respectiva metrópole. Ora, tornou-se impossível manter a separação dos blocos coloniais numa situação em que a circulação do capital era cada vez maior entre as metrópoles. Se as metrópoles haviam perdido a identidade económica, cada colónia não podia depender de uma metrópole em particular, mas de todas em conjunto. E foi exactamente isto que sucedeu. Com a independência política as antigas colónias, em vez de estarem ligadas economicamente a uma só metrópole, passaram a decorrer da globalidade do capital mundial. A esmagadora percentagem das relações económicas externas de cada um dos novos países processa-se com o conjunto dos países mais desenvolvidos e só uma percentagem insignificante se deve aos contactos com as outras antigas colónias. Aliás, é sugestivo que o único país a não ter descolonizado pacificamente fosse Portugal, precisamente aquele que, em virtude da política salazarista e também do seu atraso económico, mais afastado se mantinha do capital internacional.

Nas circunstâncias prevalecentes após a segunda guerra mundial poucos países conseguiram repetir a proeza da década de 1930 e assegurar bases próprias para um crescimento económico, ou seja, remodelar em seu benefício a divisão mundial do trabalho. Ponho de lado Hong Kong e Singapura, que são cidades-Estados, sem os problemas devidos à presença de uma numerosa população camponesa e de uma agricultura arcaica. O desenvolvimento de Taiwan e da Coreia do Sul explica-se originariamente pelas colossais injecções de capital patrocinadas pelos Estados Unidos, já que estes dois países ocupavam a linha da frente na Guerra Fria. Restam a Indonésia e a Malásia, cujas perspectivas de êxito só agora começam a esboçar-se, e por isso não é ainda tempo para lhes analisar os resultados.

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Entretanto, a partir da década de 1960 ocorreu uma profunda transformação na divisão mundial do trabalho, que deixou de se realizar exclusivamente mediante a articulação de quadros nacionais e passou, nos seus aspectos mais importantes, a operar-se no âmbito das grandes companhias transnacionais. A globalização do capital alcançou um estágio superior e converteu-se em transnacionalização. Mais do que a junção de fronteiras, trata-se da passagem por cima das fronteiras. Por isso a terminologia de «companhias multinacionais», comummente usada, deve ser substituída pela de «companhias transnacionais», que nos indica a especificidade deste tipo de empresas. Elas não juntam nações – passam por cima das nações.

Para compreendermos as principais implicações deste processo temos de proceder a uma mudança radical de perspectiva. Nós estamos habituados a considerar a economia mundial como um sistema de relações entre países, e é assim que a imprensa apresenta geralmente a questão. Todavia, se adoptarmos o ponto de vista das sociedades transnacionais, verificamos que grande parte do comércio que as estatísticas oficiais contabilizam como externo é, na realidade, um comércio interno, constituído por transacções entre matrizes e filiais. Esta alteração de perspectivas não ocorre apenas no plano económico, mas no político também, porque as fronteiras entre países marcam a amplitude da esfera de acção de cada governo, e portanto a amplitude do Estado Restrito, enquanto a divisão entre as companhias transnacionais decorre directamente do sistema de poder das empresas e, por isso, tem lugar no Estado Amplo. Com este novo olhar sobre a vida económica apercebemo-nos de que muitos movimentos que, perante as fronteiras do Estado Restrito, definiríamos como relações externas, constituem uma actividade interna no âmbito dos principais elementos do Estado Amplo. Alguns dados permitem avaliar a dimensão deste facto.

Em 1990 as exportações mundiais de bens e serviços foram de 4 triliões de dólares, dos quais um terço se referiu ao comércio no interior de firmas (United Nations Conference on Trade and Development, Programme on Transnational Corporations, World Investment Report 1993, New York: United Nations, 1993, pag. 13). Mas é sobretudo nas economias mais avançadas que se deve apreciar a forma como as companhias transnacionais reorganizaram o comércio mundial, porque é nesse âmbito que elas concentram a sua actuação. Num livro publicado em 1990, o economista De Anne Julius calculou que o comércio entre sociedades e as suas filiais no estrangeiro é responsável por mais de metade do comércio total entre os países da OCDE, ou seja, entre os países mais desenvolvidos da antiga esfera norte-americana (The Economist, 30 de Março de 1991).

Na opinião deste economista, um terço das exportações norte-americanas dirige-se para sociedades no estrangeiro que são propriedade de matrizes situadas nos Estados Unidos, e outro terço é constituído por bens que empresas estrangeiras com filiais nos Estados Unidos enviam para os países onde têm as sedes (ibid., 30 de Março de 1991). Quanto às importações dos Estados Unidos, em 1986 cerca de um quinto foi proveniente de companhias, localizadas no estrangeiro, mas de propriedade norte-americana; e um terço compôs-se de bens que companhias localizadas nos Estados Unidos, mas de propriedade estrangeira, adquiriram nos países onde têm a sede (ibid., 23 de Junho de 1990). Numa obra editada em 1992, Dennis Encarnation, um professor de administração de empresas, chegou a cifras diferentes, calculando que o comércio no interior de companhias seria responsável por mais de dois quintos das importações totais dos Estados Unidos e por mais de um terço das exportações totais deste país (ibid., 13 de Junho de 1992). Regressando às estimativas de De Anne Julius, as vendas totais realizadas pelas sociedades de propriedade norte-americana, tanto matrizes como filiais, às de propriedade estrangeira seriam cinco vezes superiores ao valor convencionalmente atribuído às exportações dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que as aquisições por sociedades estrangeiras teriam sido três vezes superiores às importações efectuadas pelos Estados Unidos (ibid., 23 de Junho de 1990). Em suma, quando se trata de analisar a economia mundial nos dias de hoje podemos confirmar a irrelevância das fronteiras nacionais ao sabermos que onze dos doze países mais importantes da OCDE vendem mais nos Estados Unidos graças às suas filiais aí localizadas do que através de exportações (ibid., 30 de Março de 1991).

No Japão, segundo outro economista, Robert Lawrence, o comércio no interior das sociedades é responsável por mais de 70% do comércio total do país, enquanto os valores correspondentes estão entre 30% e 50% nos Estados Unidos e na Europa ocidental (ibid., 17 de Fevereiro de 1990). E Dennis Encarnation, na obra já mencionada, calcula que mais de dois terços das importações dos Estados Unidos provenientes do Japão ocorrem no interior de companhias estabelecidas em ambos os países. Em sentido inverso, as transacções no interior de companhias contribuem com cerca de metade das exportações dos Estados Unidos para o Japão, mas deve notar-se que a maioria destes movimentos comerciais tem origem em filiais japonesas em direcção às suas matrizes nipónicas, o que mais ainda retira o sentido à maneira tradicional de apreciar o comércio externo (ibid., 13 de Junho de 1992).

Não se trata de comparar o volume de negócios das companhias transnacionais com as economias nacionais, o que seria um exercício desprovido de rigor, porque se estaria em grande parte a contabilizar duas vezes a mesma coisa. O meu objectivo é mostrar que a divisão em países, que nos habituámos a considerar como a forma natural de abordagem da economia mundial, deve hoje ser substituída pela divisão em companhias transnacionais. Os grandes movimentos económicos mundiais tornam-se mais claros se os analisarmos na perspectiva das relações entre companhias transnacionais e, no interior de cada companhia, entre matrizes e filiais. As estatísticas de âmbito nacional, divulgadas pela generalidade dos meios de informação e que a maioria dos economistas usa nas suas análises, têm um carácter obsoleto, porque presumem que as matrizes das companhias transnacionais e as suas filiais no estrangeiro prosseguem separadamente as suas actividades, quando é o contrário que sucede.

Mesmo os dados que apresentei subestimam o fenómeno da transnacionalização, porque as companhias transnacionais não se expandem e inter-relacionam apenas mediante investimentos. A subcontratação, a franchising, os contratos de gestão, os contratos de transferência de tecnologia, as alianças estratégicas, etc. são formas que não requerem, ou requerem muito poucos, investimentos directos. Por isso não aparecem assinaladas nas estatísticas referentes a este tipo de investimentos, o que não as impede de reforçarem a concentração do capital.

A importância das companhias transnacionais é tanto maior quanto dirigem os seus investimentos sobretudo para as regiões mais desenvolvidas e para os sectores tecnologicamente mais avançados. Contrariamente ao que muitas vezes se afirma, as grandes companhias transnacionais não procuram implantar as filiais em países ou regiões de economia atrasada, mas nos mais evoluídos, porque é precisamente aí que se encontram as melhores infra-estruturas, os mercados mais ricos e, sobretudo, a mão-de-obra mais qualificada. Aliás, a questão não deve ser vista em termos nacionais, ou sequer geográficos, mas sociais. Em qualquer país ou região os investimentos externos directos procuram a força de trabalho mais qualificada, porque é ela a mais produtiva.

Graças a este conjunto de processos, as companhias transnacionais tornaram-se o elemento mais dinâmico no interior do Estado Amplo e o principal responsável pelo cerco que sofre o Estado Restrito e pela sua desagregação. Por isso as administrações das grandes companhias transnacionais exercem hoje a supremacia relativamente aos governos dos Estados nacionais, tanto daqueles onde se implantam as filiais como daqueles onde estão estabelecidas as matrizes. Aliás, é cada vez mais corrente que as grandes sociedades transnacionais obtenham acréscimos de capital fazendo-se cotar em bolsas de vários países. Esta dispersão geográfica das acções dilui a nacionalidade da matriz e facilita às transnacionais a adopção de estratégias próprias, independentes dos governos. Basta recordar que as companhias transnacionais têm uma capacidade de acumulação e de transferências financeiras que põe em causa a possibilidade de qualquer governo prosseguir uma política monetária própria. Em 1993 o mercado financeiro tinha um movimento equivalente a 1 trilião de dólares por dia, e desde então esse volume não tem feito senão aumentar, o que reduz à inoperância as reservas de qualquer banco central, por maiores que possam parecer. Os capitais voláteis, de que tanto se fala hoje, nomeadamente no Brasil, não representam uma modalidade financeira oposta aos investimentos a longo prazo realizados pelas empresas transnacionais. Pelo contrário, desde que a electrónica passou a permitir que em qualquer lugar do mundo e a qualquer hora se proceda a operações em quaisquer bolsas, as reservas líquidas de que têm sempre de dispor as grandes companhias, e que atingem volumes enormes, dada a colossal dimensão do capital dessas companhias, circulam de maneira permanente para beneficiar das melhores aplicações. Assim, quanto maiores forem os investimentos a longo prazo das companhias transnacionais tanto mais abundantes serão as suas reservas líquidas, e tanto mais se fará sentir a acção destas reservas sob a forma de capitais voláteis.

Eis o perfil actual do Estado Amplo – uma rede de malhas permanentemente mutáveis (as ligações de capital e os acordos estratégicos entre as várias companhias transnacionais), unindo uma pluralidade de pólos principais (as maiores companhias transnacionais), os quais se enraizam socialmente nas esferas nacionais e regionais mediante a franchising, a subcontratação e o apelo aos capitais locais. Este sistema de poder verifica-se à escala mundial. Mas, ao mesmo tempo, ele ocorre também no quadro de vastas associações económicas internacionais, assumindo aí, aliás, uma fisionomia mais sistemática e mais clara. Actualmente definem-se quatro regiões internacionais importantes: a União Europeia; a NAFTA, que reune os Estados Unidos, o Canadá e o México; o Mercosur; e a esfera de influência japonesa na Ásia oriental. É sobretudo neste âmbito que se conjugam empresas transnacionais e blocos de países, sob a égide das primeiras.

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Nesta situação é absolutamente impossível prosseguir uma política capitalista de desenvolvimento se se dificultarem as relações do país, ou da região, com a economia mundial. Para os chefes de empresa de qualquer país, a ligação às grandes companhias transnacionais não é uma opção ideológica ou política. É um imperativo económico. O nacionalismo não foi apenas condenado como estratégia política, mas igualmente como prática económica. Aqueles sectores da esquerda que, em nome do anti-imperialismo, defendem o capital nacional estão a laborar num triplo erro. Em primeiro lugar, confundem a luta contra a globalidade do sistema capitalista – que, apesar de tudo, deveria caracterizar a esquerda – com a hostilidade a uma das formas específicas do capitalismo, não dando aos trabalhadores outro horizonte além das querelas das classes dominantes. Em segundo lugar, é impossível ocorrerem desenvolvimentos nacionais numa época de transnacionalização do capital. E, em terceiro lugar, já não existe nenhuma burguesia nacional que possa ser um aliado na oposição ao imperialismo, pois os pequenos e médios capitais nacionais estão hoje inteiramente submissos às transnacionais, às quais se associaram ou relativamente às quais funcionam numa situação, oficial ou meramente informal, de subcontratantes.

As relações externas mais significativas não se processam já entre países, mas entre companhias transnacionais, as quais ultrapassam facilmente as barreiras alfandegárias, como aliás todo o tipo de barreiras. Uma política capitalista de desenvolvimento económico implica hoje a adopção de uma estratégia oposta à do nacionalismo da década de 1930. Não é uma política de estímulo selectivo a dados ramos da economia nacional, considerados prioritários no interior do país, mas de atracção selectiva de certas linhas de produção das companhias transnacionais, consideradas competitivas no mercado externo. Os governos nacionais, hoje, não podem fazer mais do que oferecer força de trabalho qualificada e boas infra-estruturas às companhias transnacionais.

Explicam-se assim as privatizações. Trata-se da passagem de grandes empresas, por vezes de sectores económicos inteiros, do âmbito do Estado Restrito, onde a internacionalização é mais difícil de prosseguir, para o âmbito do Estado Amplo, que está já fundamentalmente transnacionalizado. Se as empresas permanecessem directamente dependentes do Estado Restrito, sem se associarem com o capital transnacional, ficariam excluídas do acesso às inovações tecnológicas e estariam, por conseguinte, condenadas ao declínio e à inoperância. Na época da transnacionalização, a adopção da tecnologia mais avançada não se pode realizar em quadros nacionais. Aqueles que pretendem interessar a classe trabalhadora por uma luta contra as privatizações deviam reflectir um pouco nesta perspectiva.

E o mesmo se pode dizer da política financeira. O dinheiro tem sido muitas coisas, consoante as épocas. Para nos restringirmos ao capitalismo contemporâneo, o dinheiro pode definir-se como um elemento de um processo de veiculação de informações. O sistema pecuniário destina-se, em última análise, a regular o caudal de informações mediante o qual as empresas avaliam os seus custos e lucros. Se a transnacionalização da economia condenou ao insucesso qualquer nacionalismo económico, o sistema monetário de um país não pode já ter como função primordial subsidiar o déficit governamental e os investimentos considerados prioritários. O seu principal objectivo é estabelecer a relação entre a economia do país e a economia mundial. Daí resulta, antes de mais, a necessidade de pagar eternamente a dívida externa. É esta a condição para que o capitalismo nacional continue ligado ao capital mundial. Uma vez assegurada a continuidade do pagamento dessa dívida, em que sentido se pode orientar a política financeira de um país? Em termos capitalistas perfeitos, o sistema financeiro de cada país não seria mais do que um terminal da rede financeira mundial. E para funcionar plenamente enquanto terminal será necessário que as autoridades do país reduzam a sua interferência, de maneira a não perturbarem os fluxos de informação que o país recebe do exterior e emite para o exterior.

Numa perspectiva capitalista, não existe hoje outra maneira válida de abordar a questão.