VIII. PROLETARIADO E COMUNISMO

O comunismo é a negação da condição proletária pelos próprios proletários. Proletariado e comunismo são realidades intimamente e contraditoriamente ligadas. Se as dissociarmos não poderemos compreender nem o que é o movimento e a revolução comunistas nem mesmo o que é o proletariado.

LENINE

Lenine, seguindo Kautsky, dizia que os proletários não eram capazes, apenas pela sua própria força, de se içarem para além duma consciência sindicalista. Apenas poderiam sonhar vender-se mais caro e não revolucionar a sociedade. Lenine estava errado. Os proletários são incapazes de aceder a uma clara consciência dos seus interesses económicos. Os proletários são mercadorias mas são também maus comerciantes. Na luta e na negociação os proletários mostram, sem cessar, que não sabem o que querem e que baralham e confundem realidades económicas e humanas.

É uma inferioridade porque, no que respeita à defesa dos seus interesses económicos, o proletariado é bem menos eficaz do que a burguesia. Mas não podemos julgar o proletariado por uma bitola burguesa.

Lenine tem razão em sublinhar a descontinuidade entre a consciência sindicalista e a consciência revolucionária. A segunda não é a exacerbação da primeira. Elas andam lado a lado. Mas a consciência revolucionária, e para nós é a consciência comunista, mão tem que ser importada do exterior, não é o produto de intelectuais enquanto categoria social. O ponto de vista de Lenine não é estúpido, como crêem certos defensores do povo, mas apenas dá conta de um movimento aparente. Movimento que contradiz imediatamente um período de revolução.

O proletariado mostra quotidianamente que já está para além da economia. A sua ineficácia, as suas ilusões ingénuas são o reverso negativo e passageiro da sua humanidade. Na luta, e independentemente do carácter necessariamente limitado das suas reivindicações, manifesta de muitas maneiras e por muitos lapsos a sua humanidade e a sua aspiração ao comunismo.

O que interessa não é aquilo que o proletariado é ou parece ser quando trabalha, quando desfila no primeiro de Maio, quando responde a sondagens de opinião. A sua situação fundamental vai impor–lhe e já lhe impõe que se comporte de forma comunista.

Num período normal o proletariado para sobreviver deve procurar compensar, pelas mil maneiras que se lhe oferecem, esta privação fundamental. Encontra interesses, pátrias, drogas no espectáculo. Procura viver por substituição através do poder da sua empresa ou do seu sindicato. O capital não pode abolir a prostituição generalizada, mas pode distrair os que se prostituem. Consola ao permitir a “realização” e o engano nas mercadorias e nas imagens.

O proletariado não é a encarnação positiva do comunismo dentro do capitalismo. Também não está integrado permanentemente nem para a eternidade no sistema que lhe suga o suor e a vida. A sua realidade é fundamentalmente contraditória. Parece integrado, mesmo se balbucia o comunismo. De repente abre-se uma brecha. Ela rebenta e alarga-se. As consequências dos seus actos empurram-no em frente. Descobre a sua força e faz aquilo que nunca sonhou fazer.

BURGUESES E PROLETÁRIOS

O que é o proletariado? Onde começa e onde acaba? Qual é a sua importância numérica?

Sobre a importância numérica da classe operária no sentido estrito foram feitas avaliações a partir de estatísticas oficiais. Representa uma pequena parte da população mundial, uma vez que podemos situá-la entre os 200 e os 250 milhões de indivíduos. Claro que este número não é o do conjunto dos proletários na medida em que exclui as famílias desses operários e onde um grande número de assalariados proletarizados, mesmo na indústria, não são incluídos. De qualquer maneira a importância numérica da classe operária, que já é enorme se a compararmos com a da burguesia, não chega para dar conta da sua importância real.

Acrescentemos que esta importância, contrariamente à tese que tentam fazer valer os sociólogos de vanguarda, é crescente.

Mas tal como a burguesia, o proletariado não é uma coisa que possamos tocar, delimitar e numerar com precisão. Isto não retira nada à sua realidade, mesmo se os sociólogos não conseguirem captá-la através das suas malhas universitárias.

Não podemos reduzir o proletariado a uma imagem padronizada: os miseráveis andrajosos, o trabalhador de fato de macaco, o que agita a bandeira vermelha. Apenas em situações precisas, a sua delimitação aparece claramente.

Tal como se define a burguesia como uma casta, pelos seus privilégios e tiques, pela dificuldade de acesso, em vez de a definir como uma classe, pela sua função nas relações de produção, assim também se reduz o proletariado a uma categoria sócio-profissional ou a uma adição de categorias sócio-profissionais.

A partir dessa definição é fácil de mostrar que é difícil, se não impossível, perceber o que é o proletariado. Terá ele verdadeiramente uma existência? O progresso da técnica e a segurança social não provocaram o seu desaparecimento? A luta de classes, se se consente em dar-se-lhe alguma importância, é reduzida a uma forma de conflito entre outras. As mulheres e os homens, os novos e os velhos, os citadinos e os camponeses disputam-se por vezes entre si. Porque não acontecerá o mesmo entre operários e patrões?

Os nossos sociólogos censuram Marx, que inventou a luta de classes, por não saber o que é uma classe social. Contradiz-se, fala por vezes dos camponeses como uma classe e por vezes divide-os em classes opostas.

Que os camponeses possam ser considerados uma classe única porque têm interesses e ilusões comuns, porque se agitam no mesmo sentido e que esses mesmos camponeses possam ser divididos em pobres e ricos, em agricultores e em proprietários de terras, eis o que ultrapassa o entendimento de um sociólogo. Não pode saber que uma classe não se define, nem do ponto de vista intelectual nem do ponto de vista prático, independentemente da actividade pela qual se constitui em classe. Não há classes independentemente da luta de classes.

Reduzir uma classe a uma categoria sócio-profissional é criar-se a ilusão de ciência e de rigor. De facto, tudo depende dos critérios mais ou menos arbitrários que se escolhem para dividir o corpo social. É sobretudo coisificar a realidade.

Tudo é reduzido ao lugar que o capital atribui aos homens. Fotografa-se uma certa divisão: os intelectuais, os operários, os habitantes dos bairros da lata, os trabalhadores que ganham o salário mínimo. Não se vê, nem aquilo que engendra estas situações, nem a possibilidade de as superarmos.

Na melhor das hipóteses, se as “classes” continuarem classes, imagina-se que umas vencem as outras.

Assim, no ocidente a burguesia domina enquanto que nos países de leste o proletariado instaurou a sua ditadura.

Para nós, o proletariado não pode ser definido independentemente da sua luta contra o capital, isto é, independentemente do comunismo.

Isto não significa que uma classe seja o conjunto das pessoas que lutam por uma mesma causa. Nesse caso, o burguês que simpatizasse com a revolução transformar-se-ia em proletário e o varredor de rua reaccionário seria banqueiro. O anti-capitalismo, isto é, o comunismo, pode transformar-se numa causa para muitos mas pela sua natureza não é uma causa. É uma actividade ligada a uma situação social particular.

O proletariado é essa fracção da população que produz o capital, estando separada da sua posse e da sua gestão. O pesadelo autogestionário é fazer os proletários cumprirem a função de burgueses. Esta quimera realizar-se-ia sem para tal haver abolição de classes. A burguesia e o proletariado coexistiriam contraditoriamente num grupo único. O mesmo em frente à sua máquina seria inimigo de si mesmo no conselho de administração.

Acontece que, de tempos a tempos, os filhos dos burgueses arruínam a sua saúde nas fábricas e os operários fazem frutificar os seus haveres à custa de alguns infelizes. Não há aí nada que signifique uma abolição de classes.

A linha de demarcação entre gestores e escravos do capital é rigorosa. Acontece simplesmente que alguns têm um pé de um lado da fronteira e outro pé do outro lado. Terão de escolher entre um lado e o outro.

Será preciso concretizar a linha de demarcação? Pode-se percebê-la na atitude para com o dinheiro. Claro que burgueses e proletários se distinguem pela quantidade de dinheiro que lhes passa entre as mãos. Mas isto não é suficiente. Fundamentalmente, o proletário vê no dinheiro, dinheiro. Para ele isso representa um certo número de bens. Para o burguês, o dinheiro é o capital-dinheiro. O dinheiro serve-lhe para fazer mais dinheiro. Investe-o e, oh maravilha das maravilhas, ele multiplica-se! Eis aquilo que liga, através dos tempos, o burguês da idade média e o gestor moderno. Hoje há a acrescentar a isso, a hipocrisia.

Para definir a classe burguesa temos de acrescentar as relações familiares e os pesos sociológicos que transformam os filhos ou as mulheres dos burgueses em membros da burguesia.

Na vida económica e no meio das empresas, a fronteira passa entre aqueles que têm acesso aos conhecimentos e decisões financeiras – não obrigatoriamente os técnicos e empregados das finanças – e os outros. Há aqueles que sabem que uma empresa é dinheiro momentaneamente imobilizado, destinado a produzir dinheiro. Há aqueles, a grande massa, que aí vêem antes de mais uma fábrica e um comércio de valores de uso.

Inserir um indivíduo numa dada classe é por vezes difícil. Dado quadro superior, dado engenheiro e porque não, dado operário, podem pelas suas origens familiares, pelas suas possibilidades de promoção, pelas suas funções de chefia, as suas posses ou as suas propriedades ser cooptados pela classe dirigente. Pelo contrário, pequenos especuladores ligam-se por mil laços à classe dominada.

Do ponto de vista da revolução é importante não se rejeitar, à partida, para o campo burguês, os proletários de luxo. O engenheiro ligado à burguesia e, por razões ainda mais fortes, os seus colegas que nem têm o seu salário, nem o seu papel dirigente, nem as suas relações, podem sentir a contradição entre os seus interesses profissionais e humanos e os limites que as finanças impõem. Isto pode fazê-los oscilar para o lado do comunismo, para um mundo no qual os projectos técnicos escapam à ditadura do valor de troca.

O seu saber e competências são necessários. Atenção, no entanto, àqueles que podem considerar ambiguamente passar-se para o lado da revolução porque vêem a sua condição proletarizar-se e esperam ingenuamente tornar-se de novo autoridades.

Em período normal, e principalmente fora do processo de produção, a situação pode parecer pouco nítida. A sociedade parece composta por partículas individuais que divagam numa ou noutra direcção. O operário e o burguês parecem desaparecer para não serem mais do que eleitores iguais ou consumidores mais ou menos ricos. Quando um conflito rebenta, quando a revolução aparece, as partículas agrupam-se em redor de pólos antagonistas.

O proletariado não é uma massa indiferenciada. Algumas camadas sociais, alguns indivíduos, desempenham um papel motor em função do seu lugar na produção e das suas qualidades próprias. Ajudam mais ou menos a classe a constituir-se em classe.

Algumas camadas sociais são mais irrequietas do que outras ou clamam mais fortemente o seu descontentamento. Tem que se ter cuidado com as aparências. Um grupo mais turbulento que outro pode vir a revelar-se pouco revolucionário. Há quem se agite por razões que lhe são muito pessoais. Quem se rebele em casa porque o seu estatuto se degrada. Mas que não chegam a tomar como alvo os alicerces da sociedade. Talvez fiquem com mais medo à vista da revolução que do capital.

Aqueles que parecem os mais integrados, os mais calmos por serem mimados pelo sistema podem, ao despertar, ir direitos ao assunto. O poder e a segurança que a sua situação lhes confere podem permitir-lhes atacar sem concessões o capital.

Não se pode considerar a evolução dos indivíduos nem das classes sociais independentemente da profundidade do conflito e da situação de conjunto. Algumas camadas sociais, como os estudantes, os intelectuais, os quadros executivos não se podem elevar por elas mesmas para além duma consciência corporativista ou, pior, pseudo-revolucionária. Se o comunismo se desenvolver, essas camadas, em função da própria falta de autonomia que as caracteriza, vão radicalizar-se. Se não tiverem poder nem interesses reais para defender, elas só os poderão encontrar se se juntarem e apoiarem aos operários.

A imensa massa de camponeses do terceiro mundo poderá participar na revolução comunista? Ela faz parte do proletariado? Sim, mas não em função do seu grau de miséria. Ela faz tanto mais parte do proletariado quanto mais directa for a influência do capital sobre a sua existência.

Ainda que não seja assalariada, tende a juntar-se à classe dos operários devido à influência crescente da economia mercantil sobre a totalidade dos homens e dos recursos. A ofensiva dos proletários assalariados vai ajudá-la a encontrar o inimigo e as soluções.

O salariado é, de alguma forma, a relação ideal de exploração do capital. Não se pode, no entanto, assimilar proletários e assalariados. Já mostrámos que as relações esclavagistas se integravam no universo capitalista e mudavam, assim, de conteúdo. Inúmeros pequenos proprietários estão directamente submetidos à exploração capitalista e muitas vezes são mais oprimidos do que os assalariados. Os dirigentes das grandes empresas ganham salários. São, no entanto, burgueses. Fixam eles mesmos o seu salário e esse salário é apenas uma parte do seu rendimento real.

Certas profissões desenvolvem mais atitudes revolucionárias do que outras. A questão depende, principalmente, do grau de identificação que existe entre o trabalhador e a sua função.

Alguns deixam-se levar no jogo. Não conseguem distanciar-se do trabalho que exercem. Seja quando esse trabalho, como é o caso dos educadores, os transforma no seu próprio instrumento. Pôr em causa o seu papel profissional passa por pô-los em causa a eles mesmos. Seja quando o produto do seu trabalho não é um produto e que contribui directamente para o funcionamento da sua empresa.

Nos dois casos, tende-se a desenvolver uma ideologia justificativa da própria função profissional e das suas contradições. Os mais alienados acabam por acreditar que, graças às suas capacidades próprias ou à utilidade geral do seu trabalho, revolucionam a sociedade.

Os trabalhadores mais lúcidos são muitas vezes aqueles que não se sentem ligados à empresa nem à função que exercem. É o caso da maior parte dos operários.

Pelo seu lugar na produção, a solidariedade que ela engendra, pelas suas qualidades humanas os operários estarão no coração da revolução comunista. O operário americano ou soviético, mesmo que sobreviva mais facilmente do que o mendigo indiano e mesmo que esteja mais corrompido, está também mais bem colocado para reconhecer a natureza da opressão que pesa sobre ele e para lhe pôr fim.

É tradição recusar à classe operária o seu papel central na revolução.

Dá-se ênfase à sua ausência nas lutas de libertação nacional que conduziram, no entanto, aos Estados marxistas.

Insiste-se na ausência de consciência revolucionária da grande massa de operários dos países ricos e nas vantagens que eles retiram do sistema.

Confia-se a outras categorias sociais o papel que os operários parecem incapazes de desempenhar. As revoluções do século XIX foram obra de artesãos. No século XX, os intelectuais leninistas teriam tomado o lugar. Nos países do terceiro mundo são os camponeses.

Se se olhar seriamente para as coisas vê-se que os operários estiveram regularmente no centro das tentativas de transformação radical da realidade. Acusa-se-os de não terem sido intervenientes nas revoluções que eram, afinal, burguesas. Quando intervêm relega-se a sua acção para segundo plano para pôr em primeiro a de grupos sociais que, de início ou no fim, se mostraram pouco comunistas. Põe-se em primeiro plano e exagera-se esta ou aquela característica dos proletários que se revoltaram para se mostrar que eram operários duvidosos ou marginais, agricultores, pequenos burgueses, soldados, desordeiros disfarçados de operários.

Os modernistas substituem um proletariado aburguesado por novas categorias. A revolução seria obra dos jovens porque estes ainda não estão domesticados, das mulheres porque estão mais perto da vida, dos hippies e de outros marginais porque são exteriores ao sistema, dos negros porque gostam de música e têm o ritmo no sangue… outros não vêem mais a necessidade de privilegiar uma categoria particular. O capital é uma força desumana da qual todos são vítimas e é, assim, a humanidade enquanto espécie que se deve revoltar. Já não há (ou já praticamente não há) burguesia nem proletariado.

Ao pôr-se em relevo este ou aquele grupo social ou categoria de idade ou de sexo, isso faz-se em virtude dos valores de que esses grupos supostamente são portadores. Não há tanto uma alteração na escolha do sujeito revolucionário como um reconhecimento implícito da realidade tal como é. Os jovens seriam revolucionários enquanto jovens, as mulheres enquanto mulheres, enquanto o proletariado, que compreende os jovens e as mulheres, é revolucionário na medida em que não pode mais ser o proletariado. O proletariado não é um grupo social. É um movimento. É aquilo em que se transforma. Existe em função das suas possibilidades de auto- destruição.

Não é que os jovens, as mulheres, os mutilados de guerra… não tenham interesses específicos e não possam transformar a realidade. Simplesmente, a menos que ajam enquanto proletários, apenas podem defender os seus interesses de jovens, mulheres, mutilados de guerra dentro de uma dada realidade. A revolução proletária dá-lhes o meio, sem renegarem as suas ideias, de irem para além das suas reivindicações categoriais e de as ultrapassar. São os jovens, as mulheres, os mutilados que agem mas já não o fazem pela juventude, a feminilidade ou o seu contrário, os subsídios de Estado e a consideração dos cidadãos.

E os intelectuais?

De certa forma, a revolução exige que os proletários se transformem em intelectuais. Têm de ser capazes de ir além da sua situação imediata. É sabido que, por altura das insurreições, se vê discutir na rua, questões que antes eram apanágio dos filósofos.

A revolução significa, também, o fim dos intelectuais enquanto categoria social separada. Se os intelectuais participam na revolução só o podem fazer negando a sua condição, reconhecendo que são mutilados. Eventualmente, há que tomar medidas para evitar que se possa continuar a ser apenas um intelectual.

Muitas vezes atribui-se aos intelectuais um papel privilegiado enquanto detentores da consciência. Por si só, a consciência não é nada nem pode nada. Os intelectuais, que muitas vezes julgaram poder elevar-se à compreensão geral e objectiva das coisas, fizeram-no muitas vezes a reboque dos poderes estabelecidos. Foram sujeitos às piores ilusões e defenderam – claro que com espírito crítico – as piores e mais sujas sacanices. Prontos a tudo desculparem em nome da Razão, da História, do Progresso.

As reivindicações dos intelectuais servem mais para emocionar os corações burgueses do que os corações operários. É muito mais nobre reivindicar a liberdade de expressão do que reclamar o pão. O intelectual parece ser o defensor do interesse geral. O operário parece um egoísta e um terra a terra.

No entanto, as reivindicações proletárias são mais profundas do que as dos intelectuais. Estes fazem da sua especialidade reclamar formas vazias. Quando os operários reclamam ou, antes, impõem, a liberdade de expressão, é porque têm algo a dizer. Senão, isso interessava-lhes relativamente pouco. A sua capacidade para não dissociarem forma e conteúdo, para não lutarem apenas por vento é o sinal do comunismo. O problema dos intelectuais é que devem muitas vezes saber tirar os seus lucros do vento que produzem.

Os jovens são, muitas vezes, os mais activos nas revoluções. Isto deve-se talvez a causas biológicas mas a sua situação social é suficiente como explicação. Mesmo aqueles que vêm das classes privilegiadas estão menos ligados aos interesses em jogo. Têm de esperar pelas heranças! A sociedade capitalista fétichiza a juventude e a renovação mas afasta os jovens dos lugares de responsabilidade e da propriedade. Eles encontram-se mais disponíveis.

Ao lado dos jovens põe-se por vezes em destaque os marginais. Não vivem como as outras pessoas; serão eles o futuro? Neste caso também há uma incapacidade para compreender que a revolução pode e deve surgir do próprio seio do sistema. Há aí uma incapacidade para compreender dialecticamente o que é o proletariado e uma ilusão sobre o nível de independência dos marginais em relação ao sistema.

Terá, o próprio capital, abolido as classes sociais, ultrapassando a revolução? Há muito tempo que se pretende que a revolução burguesa permitiu, finalmente, a todos os homens serem iguais.

A divisão da sociedade em classes está de boa saúde. Talvez nunca tenha sido tão boa, mesmo que nunca tenham sido usados tantos meios para fazer esquecer esse facto.

Claro que o capital é uma força impessoal. Claro que todos sentem mais ou menos os seus efeitos. Pobres burgueses que se esgotam no trabalho, que brigam com os seus filhos, que respiram um ar contaminado!

Algumas pessoas têm, mais do que outras, a possibilidade de remediar os efeitos do capital. A diferença de condições de vida é, hoje, consideravelmente desenvolvida. As possibilidades de diversificar os produtos, o desenvolvimento do comércio, fazem com que certos grupos da população tenham um nível e uma qualidade de vida bem diferente e superior à dos seus contemporâneos. Talvez os burgueses não sejam os mais felizes mas, podem, pelo menos, deixar de ser burgueses. O inverso não é possível para os cantoneiros. Se nem mesmo os burgueses estão contentes com o seu modo de vida, esta é mais uma razão para abolir esta classe e a sua sociedade.

A burguesia não se exibe. Ela deixa isso aos novos-ricos. Não tem interesse nenhum em expor o modo de vida que leva dentro das suas datchas (casas de campo russas) e das suas praias privativas. Os proletários têm, por hábito, sobreavaliar os rendimentos das classes sociais que lhes são próximas e de subavaliar os rendimentos dos verdadeiros burgueses.

Tivessem os burgueses, um modo de vida austero e frugal que isso não os faria desaparecer enquanto classe. O que conta é, antes de mais, a sua função económica e social. Os seus rendimentos estão evidentemente ligados a esta. Uma parte do seu consumo, países ocidentais incluídos, confunde-se com as despesas de negócios. Viajam, jantam e fodem por conta e à conta das suas empresas.

O capital tem tendência, e hoje mais do que nunca, a corroer a identidade dos grupos sociais. Tanto para a burguesia como para a classe operária. O eleitor, o consumidor, estão fora da classe. O prazer que se tem nas compras já não está ligado a um estatuto mas a dinheiro impessoal. Esta negação capitalista das classes prepara a sociedade sem classes. Mas é negada, por sua vez, pela necessidade económica que tende a hierarquizar os rendimentos e a separar as funções.

O combate pelo comunismo não é um combate a favor de uma classe particular mas uma luta a favor da humanidade. Mas este combate está relacionado com aqueles a quem negaram toda a humanidade. A revolução não terá a aceitação geral e é perigoso fazer as pessoas acreditarem nisso. Talvez alguns burgueses se juntem ao movimento mas isto não alterará em nada o facto de os interesses da burguesia e o comunismo serem contraditórios. O proletário ganhará imediatamente com a revolução enquanto o burguês será despojado por ela. O comunismo diz respeito à espécie humana, mas há homens que podem identificar o seu interesse imediato num período de ruptura com o da espécie enquanto há outros que não.

ESPERANDO GODOT

Que propõem os revolucionários enquanto se espera pela grande noite ( a tão almejada revolução social)?

Não temos nenhuma solução milagrosa para fazer passar o tempo ou uma conduta ideal a defender. Os comunistas estão grudados, como os outros, ao melaço capitalista e não podem pôr em acção uma estratégia pura e universal que faça abstracção dos interesses, das capacidades e das condições particulares. De qualquer forma, não propomos para as “massas” aquilo que recusamos para nós próprios e vice-versa. Apenas podemos constatar diferenças de comportamento.

Nós não somos nenhuns puristas e aceitamos melhoramentos, mesmo limitados, se forem reais. É já dar provas de rigor num tempo em que se fala de grande vitória e em que se é pago com conversa fiada.

Nós não somos nenhuns puristas e aceitamos agir pela base com aqueles que não têm as nossas opiniões, desde que as perspectivas de acção sejam claras.

Convém ser-e flexível ao nível prático a fim de se tirar proveito de situações sempre variáveis e de imprevistos. Tem de se saber fazer compromissos e, sobretudo, reconhecer os compromissos que se fazem. Não temos receitas a fornecer e censuramos aqueles que precisam delas. Nada de telecomandos!

Aqueles que agem com a obsessão da recuperação são recuperados à partida, e radicalmente. O sectarismo é, antes de tudo, uma maneira de alguém se proteger contra as suas próprias incertezas. Pelo contrário, quando se têm certezas profundas, não ideologias, pode-se inovar, improvisar, compor sem nos sentirmos ameaçados na nossa pureza. O erro? Não é apertando a si a verdade, abafando-a, que ela é preservada.

Esta ligeireza pragmática deve fazer-se acompanhar de uma grande rigidez e, digamos mesmo para assustar os “espíritos livres”, de um dogmatismo doutrinal. A clarificação e a firmeza teóricas são essenciais. Tem de saber para onde se vai e dá-lo a saber.

A nossa época é a dos comportamentos rígidos e do pensamento gelatinoso. Trata-se de romper com isso. As ideias só têm interesse se fornecerem pontos de referência suficientemente seguros.

Questão clássica: deve-se participar nos sindicatos? Tudo depende das circunstâncias, das pessoas em questão. Mas os sindicatos estão integrados!? Talvez seja uma razão para neles se participar. Quer se tire proveito das vantagens que isso traz às organizações sindicais, quer se demonstre os limites dessas vantagens. Eventualmente pode-se ser posto no olho da rua e mostrar claramente a contradição entre o conteúdo revolucionário e a forma sindical.

Se a participação nos sindicatos é aceitável, a conquista dos aparelhos sindicais para os transformar num sentido revolucionário é de rejeitar.

Na luta, desde que apareçam possibilidades para nos organizarmos de forma mais lata e menos especializada, os sindicatos devem ser rejeitados. A forma sindical pode ser utilizada numa situação de recuo mas não deve travar o desenvolvimento nem o aprofundamento da luta. À acção a favor de e pela classe não se deve opor a acção a favor de e por uma organização de especialistas da reivindicação e da negociação. De qualquer forma, é certo que enquanto os trabalhadores forem mercadorias de preço a negociar, os aparelhos sindicais conservarão uma razão de ser.

Não é renunciando aos combates limitados que nos preparamos para a luta final. Não é menosprezando as questões salariais que se faz avançar a abolição do salariado. A irredutibilidade económica manifesta a capacidade de resistência e pode tornar-se perigosa para o sistema ameaçado no seu coração, ou seja nos seu cofre. Pobres daqueles que querem afastar a atenção dos proletários para longe dessas questões com fumaça ideológica. Renunciar a combater porque o “jogo não compensa o esforço” não passa muitas vezes da expressão de uma passividade mais geral.

Estaremos a cair na ratoeira da eficácia pela eficácia, no economicismo? Não, mas acreditamos que a acção de classe tende a fazer jorrar o seu próprio conteúdo. É por isso que os poderes de toda a natureza a procuram amordaçar.

Partidários da pressão e da reacção mais imediata e mais variada possível da classe, desconfiamos muito dos objectivos reivindicativos que se dissociam das possibilidades e das relações de força imediatas. Mesmo, e sobretudo, quando se trata de um programa de transição com molho trotskista. Estas representações, que supostamente têm por objectivo unificar e esclarecer o proletariado, apenas lhe toldam a vista.

Se é certo que é justo lutar, e sob as formas o mais generalizadas possíveis, para reduzir o tempo passado a trabalhar, também é certo que é pouco saudável fixar objectivos sobre a duração semanal do trabalho ou sobre a idade da reforma. Apenas se retomam por conta própria, e se interiorizam as limitações e as separações capitalistas. A escolha é entre o tempo de trabalho e o tempo livre, a condição de forçado ou de assistido para os velhos. O combate é canalizado e o comunismo latente é esterilizado.

A única perspectiva aceitável é o comunismo. Não é uma abstracção distante mas a solução humana para todos os problemas. Trata-se de tornar manifesto o sentido do movimento proletário, de mostrar a potência de que ele dispõe.

Muitas vezes lutas não declaradas: absentismo, abrandamento de cadência, sabotagem, roubos… são as mais eficazes. Não fazemos delas um fétiche. O capital pode tolerá-las e fazer delas uma válvula de escape. Elas não podem substituir um combate mais geral – mas mantêm uma moral combativa, desenvolvem a iniciativa e proporcionam satisfações sãs e imediatas.

Trata-se de popularizar os meios de acção que, ao fazerem pressão imediatamente sobre os exploradores anunciam o mundo comunista. Muitas vezes é possível, às escondidas mas também maciçamente e de forma aberta, distribuir gratuitamente os produtos e fazer funcionar os serviços. Os trabalhadores dos correios podiam não cobrar portes pela correspondência, os dos caminhos-de-ferro podiam não controlar os bilhetes. Se os trabalhadores mais empenhados são despedidos é preciso para os reintegrar, as possibilidades da sabotagem.

A nossa estratégia pode exprimir-se assim: menos conversa fiada, menos espectáculo mas que a classe operária utilize os inúmeros meios que tem à sua disposição para se fazer respeitar e para preparar o futuro. Um pouco menos de espírito de seriedade reivindicativa e um pouco mais de sorrisos trocistas e satisfeitos.

Á escala histórica, a revolução comunista está eminente. Nós não escrevemos para as gerações futuras.

Ao afirmá-lo, sabemos bem que muitos revolucionários já o proclamaram e que se enganaram. Regularmente subestimaram-se as possibilidades de adaptação do sistema. Parece que hoje, por reacção, faz-se o inverso. A última cartada do capital não foi ter implantado, em todos os cérebros, a imagem do seu poder e da sua imortalidade?

Tendo desenvolvido o maquinismo até ao limiar da automação, tendo unificado o planeta, está no auge da sua potência mas também atingiu os seus limites históricos. Não pode mais dar resposta à destruição do tecido social nem à deterioração do ambiente que engendra. Já não consegue eliminar o seu excesso de gordura. É o seu próprio poder, a sua concentração que se transforma numa fraqueza.

A crise da civilização económica foi progressivamente precisando-se como uma crise económica. Justiça poética! Mas a fase actual não pode ser reduzida a um momento de dificuldades económicas.

Para sair da crise é preciso aumentar a taxa de mais-valia, reverter a rentabilidade enfraquecida do capital. Há muitos obstáculos técnicos, ecológicos e humanos. Apenas podem ser ultrapassados por lutas e mudanças enormes. O proletariado já mostra, de mil maneiras, que não deixará as coisas fazerem-se sem ele. Mostra, também, que não está a fim de aderir a uma solução reformista. Solução que apenas consistiria em assegurar a sua cumplicidade para o vencer e enterrar de uma forma ainda pior que o estalinismo e o fascismo.

próximo capítulo

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